Sobre Joe Biden e o coronavírus

Sobre Joe Biden e o coronavírus

Nesta semana quero falar sobre o assunto do momento, a COVID-19, infecção provocada pelo coronavírus. Não posso começar o texto, porém, sem lembrar antes que, como analista político, sou mesmo um ótimo… economista. Há duas semanas escrevi que a máquina do partido democrata se mobilizaria em torno da candidatura de Michael Bloomberg à presidência. Apostei na letra ‘B’ errada.

Diante da fraca performance do ex-prefeito da Nova York nos debates que antecederam a Super Tuesday, os democratas decidiram se mobilizar em torno do ex-vice-presidente Joe Biden. Trocaram uma incerteza em relação a Bloomberg para o que, a meu ver, é uma certeza: a de que Biden vai perder para Trump (lá vou eu dando uma de analista político outra vez…).

Se prevalecer a lógica, Bernie Sanders ficará para trás na disputa pela vaga democrata e teremos novamente uma disputa requentada entre Trump e Clinton, mas desta vez com Joe Biden no elenco. Como a política tem uma lógica que somente os políticos entendem, no entanto, temos que ficar de olho. De qualquer maneira, os mercados reagiram positivamente à performance de Biden nas primarias.

A curto prazo, a globalização da COVID-19 levou os mercados a precificarem o caos. A curva de juros americana, as bolsas, e seu índice de volatilidade refletem, efetivamente, uma completa parada repentina da economia mundial. O Treasury de dez anos passou a operar bem abaixo do patamar de 1%, especialmente após o corte surpresa de 50 pontos base nos juros básicos promovido pelo FED na semana passada. Voltou-se a falar de juros zero nos EUA, ou até mesmo negativos, a exemplo da Europa.

O Federal Reserve atuou dando razão aos mercados. Indicou que vai fazer de tudo para evitar uma recessão. Porém, ao invés de servir como fator positivo, preocupou: colocou mais lenha na fogueira em relação às potenciais consequências negativas da COVID-19. Explico: as pessoas vão, temporariamente, deixar de comprar bens e serviços porque não podem, temporariamente, sair de suas casas para consumir. A pessoa que tomava um café no Starbucks da esquina todo os dias não vai se locomover até a cafeteria durante o período de reclusão e isso, de fato, gera um impacto na economia. O mesmo raciocínio serve para quem cancelou viagens, congressos e eventos. Essas decisões vão temporariamente deprimir o PIB.

Um corte de juros do FED ajuda? Não. Um corte de juros só é benéfico se o FED perceber que essa parada repentina do PIB mundial é um evento de longo prazo, ou então que toda essa situação vai causar uma real crise de crédito. Se esse é o caso, juros zero virão rapidamente e a recessão será inevitável. Não acredito que esse seja o caso, mas a atuação surpresa do FED trouxe seriamente essa possibilidade à tona. O corte de juros seria muito mais efetivo caso tivesse vindo depois do que assistimos na última segunda-feira: uma queda de mais de 2.000 no índice Dow Jones causado pelo medo do vírus combinado com a queda vertiginosa do preço do petróleo.

A melhor resposta para esse tipo de cenário é, primordialmente, fiscal. É necessário ajudar os setores ligados a viagens, congressos e eventos, e os pequenos negócios que vivem do dia a dia das pessoas se locomovendo de casa para o trabalho e para a escola, além do setor de energia. Essas empresas vão perder uma fonte relevante do seu fluxo de caixa por algum tempo, pelo menos até o ciclo do vírus se completar. Houve aqui um completo descompasso de ações: o FED agiu muito rápido; o secretário do Tesouro está milhas para trás.

Assumindo que o mundo não vai acabar em gripe, vejo o Banco Central Americano com grande dificuldade em subir esses juros que foram cortados de maneira extraordinária. Perguntado sobre isso por uma repórter da rede CNBC na coletiva de imprensa logo após a decisão unânime de corte, Jerome Powell, chairman do FED, deu uma resposta evasiva: “Nossa política monetária será sempre determinada de acordo com o nosso mandato.” A armadilha está criada.

Minhas credenciais como infectologista são ainda piores do que as que tenho como analista político, então não vou nem me arriscar nesse campo. Ficando restrito ao mercado financeiro, no entanto, me parece que toda essa volatilidade e correção de preços pelas quais estamos passando são uma enorme oportunidade para comprar papéis de alta qualidade a valuations atrativos. Ainda mais se as taxas de juros continuarem caindo. Sim, acho que nas próximas semanas a volatilidade ainda fica alta. O governador de Nova York declarou estado de emergência – e outros podem seguir o mesmo caminho. Aulas serão suspensas, mais eventos serão cancelados, mais aviões ficarão vazios e mais cruzeiros marítimos serão adiados. A Itália está em quarentena. A onda que começou na China está se espalhando – a boa notícia é que lá a situação parece estar melhorando. Se tomarmos a China como exemplo, as boas notícias começam a aparecer por aqui em aproximadamente seis a oito semanas. Será? Acredito que sim.

Para o longo prazo, investir nos Estados Unidos parece boa ideia. Dá medo e uma certa dor de estômago, mas todo mundo sabe que não se ganha dinheiro de verdade sem um pouco de sofrimento. A conferir.

 

 

 

 

 

 


Sobre o autor

Norberto Zaiet é economista formado pela Universidade de São Paulo e com MBA pela Columbia Business School, em Nova York. Depois de passagens como executivo pelo banco alemão WestLB e pelo português Banco Espírito Santo de Investimento (BESI), Zaiet foi CEO do Banco Pine. Hoje vive em Nova York, onde é sócio-fundador da gestora de investimentos Picea Value Investors. Com foco no conceito de Value Investing, a Picea Value Investors nasceu em 2019 com alcance global e atuação principal no mercado de ações norte-americano. Mais informações em www.piceavalue.com


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