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Sob a sombra da segunda onda

Aceleração recente dos casos de contaminação nos Estados Unidos e na Europa força novas medidas de contenção.

Crédito: Istock

Fundador e CEO do fundo de private equity Aqua Capital, Sebastian Popik, fica desanimado quando pensa em tilápias. Com um patrimônio de US$ 650 milhões, o Aqua busca teses de investimento diferenciadas no agronegócio brasileiro. Entre elas, a criação e engorda de tilápias sem hormônios e sem antibióticos. Em mercados maduros, como os Estados Unidos, esses peixes valem bem mais do que os criados da maneira habitual. Porém, para capturar esse valor, uma das empresas em que o Aqua investe teve de desenvolver uma logística complexa. O esquema de processamento azeitado permite que, em 48 horas, o peixe recolhido no Brasil esteja na prateleira de um supermercado em Nova York, devidamente limpo, filetado e embalado. Tudo ia às mil maravilhas, e a empresa poderia disputar um mercado estimado em US$ 1 bilhão por ano. Popik, porém, não esperava um dos efeitos da pandemia do coronavírus. “A queda das viagens de negócios e de turismo devido à Covid-19 fez muitas companhias aéreas reduzirem o número de voos e as frotas”, disse ele. Como resultado, o custo com o frete triplicou – em dólares. “Só não cancelamos as remessas porque queremos cumprir os contratos e preservar os clientes.” Popik diz acreditar que em breve conseguirá equacionar o aumento dos custos. No entanto, apesar de seu negócio ter pouca relação direta com as idas e vindas da pandemia, a última linha do balanço foi, como 48,6 milhões de pessoas em todo o mundo, infectada pelo coronavírus.

Assim como afetou as exportações, a pandemia também está prejudicando diversos setores da economia brasileira devido a problemas nas correntes de comércio internacional. E as notícias não são boas. Novembro começou com pelo menos cinco países europeus anunciando novas formas de isolamento social, que incluem até medidas drásticas como toques de recolher para conter a segunda onda da Covid-19. Nos últimos dias, o número de infectados e de vítimas acelerou-se no Velho Continente. E esse fenômeno também vem sendo observado nos Estados Unidos. Apenas na quarta-feira (4) foram registradas 107,8 mil novas infecções no país. O número de vítimas cresceu 21% nas duas últimas semanas. E, para os especialistas, essa é a crônica de muitas mortes anunciadas. Em junho a média de novas contaminações era de 42 mil por dia. Naquele momento, o médico infectologista Anthony Fauci, considerado o maior especialista americano no assunto, alertava para o fato de que esse número poderia subir com a chegada do inverno. “Se o número de contaminações chegar a 100 mil por dia, isso indica que a pandemia saiu do controle”, disse ele na ocasião. Então, saiu do controle.

Em declarações recentes, Fauci não mostrou nenhum sinal de otimismo. “Os Estados Unidos não poderiam estar mais despreparados para a chegada do inverno”, disse no fim de outubro, comentando a chegada do inverno no Hemisfério Norte, que leva as pessoas a ficar mais tempo em ambientes fechados e aumenta os riscos de infecção. Não se descarta a hipótese de que vários estados americanos tenham de seguir o exemplo europeu e decretar toques de recolher para impedir uma escalada incontrolável de vítimas fatais. Porque, advertem os epidemiologistas, o padrão de contaminação mudou. Se em março ou abril havia focos isolados e sucessivos, agora os casos surgem de maneira uniforme em várias regiões simultaneamente.

RETRAÇÃO ECONÔMICA Mesmo que isso não ocorra, a aceleração dos casos da Covid-19 já está provocando efeitos colaterais na economia mundial. A gravidade e a velocidade da crise se refletem nas projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI) para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) dos Estados Unidos. Após uma expansão de 2,2% em 2019, o FMI estimava expansão de 2,1% neste ano. Com o início da pandemia, mudou rapidamente sua estimativa para uma contração, de 5,9% em abril, revisada para -8,0% em junho. A estimativa mais recente, de outubro, havia melhorado para “apenas” 4,3% de queda. No entanto, é bastante provável que o recrudescimento da pandemia faça essa projeção piorar. O Fundo também prevê retração de 4,4% no PIB mundial, após ele ter crescido 2,8% em 2019.

O problema de uma segunda onda da Covid-19 é que suas consequências serão mais graves do que o primeiro surto. Para usar um paralelo médico, é como se a mesma doença voltasse a atacar um paciente. A diferença é que, desta vez, seu organismo está debilitado. Não por acaso, um estudo da consultoria McKinsey divulgado na segunda-feira (2) adverte para o impacto da pandemia sobre as empresas. Segundo o levantamento, a crise da Covid-19 tornou inúteis as bases do planejamento tradicional e os modelos de gestão existentes. “As premissas de receita nas quais os gerentes se basearam para 2020, muitas vezes calculadas com duas casas decimais, não são relevantes em uma economia que, de repente, deverá sofrer uma contração histórica. Relatórios de status preparados meticulosamente agora estão desatualizados antes de chegarem aos executivos que decidem.”

O impacto disso sobre o Brasil ainda não é mensurável, mas com certeza não será bom. “Temos uma visão menos otimista do ritmo de recuperação”, disse o diretor do Asa Investments, Carlos Kawall. “As medidas de distanciamento na Europa deverão durar pelo menos ate o início de dezembro, refreando o consumo.” Kawall não descarta a hipótese de novos impactos sobre a economia brasileira devido a quedas nos preços de commodities importantes para o Brasil, como minério de ferro e petróleo. E o próprio comportamento da Covid-19 por aqui é uma incógnita. “Alguns especialistas afirmam que não haverá uma segunda, pois o número de contaminações no Brasil permaneceu em um patamar elevado”, disse. “Mas não é possível afirmar isso com certeza, ainda há muito desconhecimento sobre o comportamento da doença.” Essa indefinição é compartilhada pela estrategista-chefe da Rico Investimentos, Betina Roxo. Segundo ela, haveria problemas caso houvesse uma segunda onda de contaminações que gerasse severos lockdowns domésticos. “O setor de serviços representa 63% do PIB no Brasil, por isso, restrição de atividade doméstica teria um impacto negativo no País”, disse ela.

BAQUE NAS EMPRESAS Esse hálito gelado sobre os negócios chegou ao setor industrial brasileiro, devido principalmente a uma grande diferença com a pandemia mais assustadora, a chamada Gripe Espanhola de 1918-1920. Cem anos após a doença ter vitimado algo entre 50 milhões e 100 milhões de pessoas, a medicina e a tecnologia estão muito mais avançadas. No entanto, as economias estão muito mais conectadas. As cadeias de suprimentos e de produção não são apenas internacionais. Elas vão além dos continentes. Por isso, a paralisação das atividades de uma indústria na China ou na Alemanha pode tornar inviáveis as atividades no Brasil. Isso já está acontecendo. Em uma pesquisa, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) indica que empresas de vários setores têm dificuldades de atender a demanda devido à falta de matérias-primas. Segundo a pesquisa, cerca de 70% das empresas de móveis, 65% das empresas têxteis e 62% das empresas de material plástico passam por dificuldade em atender à demanda. Cerca de 76% dos entrevistados não conseguem aumentar a produção devido à falta de um ou de mais insumos.

O exemplo mais eloquente é um material de baixa tecnologia e aparentemente fácil de encontrar: a fibra de PVC, usada na produção de tubos e conexões. Esse é um item indispensável para o aquecido setor de construção civil, e sua escassez tem provocado aumento de preços e desabastecimento. Segundo a Associação Brasileira da Indústria de Materiais de Construção (Abramat), a primeira onda da pandemia já causou estragos. No início deste ano, a Abramat esperava crescimento de 4% nos negócios. O ano de 2020 seria de virada, após crescimentos fracos em 2018 e em 2019 e retrações assustadoras nos anos anteriores. Porém, a pandemia frustrou as expectativas. Segundo o presidente da associação, Rodrigo Navarro, o prognóstico mais recente, de outubro, prevê retração de 2,8%. A Abramat projetou três cenários para uma segunda onda da Covid-19. No pior deles, a retomada do mercado imobiliário perde fôlego e os investimentos na infraestrutura crescem muito pouco. Nesse cenário, o esperado aumento da produção ficaria para 2021. Navarro é pragmático. “Uma segunda onda de Covid certamente é um cenário que ninguém quer, mas que a gente precisa estar preparado, como já acontece na Europa”, afirmou. “Seria extremamente ruim não só para o nosso setor, mas para todos. Para o País como um todo.” Alguém discorda?

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