Negócios

Só para doutoras

Aumenta número de advogadas que montam bancas exclusivamente femininas. É uma forma de driblar o machismo e protagonizar um novo modelo de satisfação e ascensão profissional específico para elas.

Crédito: Silvia Zamboni

No mercado de trabalho, é fato, as mulheres levam desvantagem em relação aos homens, tanto no que diz respeito à remuneração quanto na possibilidade de serem promovidas a cargos de alta direção. Um levantamento feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgado no ano passado e envolvendo diversas profissões, mostra que mulhers ganham, em média, 20,5% menos que homens no Brasil. Em um segmento específico — o Direito — essas dificuldades fizeram surgir um novo caminho. No Brasil atual, há cada vez mais bancas de advocacia formadas apenas por mulheres. Elas são chamadas de Sociedades de Advogadas.

Cristiane Damasceno Leite Vieira, vice-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) do Distrito Federal, afirma que se trata de um fenômeno sem volta. “Há essa questão da dificuldade de ascensão, mas temos de destacar também que mulheres vítimas de violência querem ser atendidas por alguém do mesmo gênero, pois se sentem mais confortáveis para relatar o ocorrido”, afirma. Claudia Patrícia de Luna Silva, presidente da Comissão da Mulher Advogada da OAB de São Paulo, acrescenta que o número de bancas exclusivamente femininas aumenta justamente num momento de avanço da legislação direcionada a mulheres e a outras questões de gênero. “Nas bancas femininas, as advogadas estão muito bem preparadas para resolver esses casos específicos, que extrapolam a mera perspectiva jurídica”, diz Claudia.

Sem prejuízo: Claudia Abud (à esq.) e Fabíola Marques temiam que a mudança para Sociedade de Advogadas pudesse afastar clientes mais consevadores, mas isso não aconteceu. Iniciativa é uma tendência no mercado. (Crédito:Divulgação)

Atualmente, as mulheres representam praticamente a metade desses profissionais no Brasil. Segundo a OAB, são cerca de 581,5 mil advogadas contra 592,2 mil advogados. Mas nem todas as OABs estaduais têm os dados estatísticos sobre as Sociedades de Advogadas. Entre as seccionais que possuem, destaque para o Paraná, com 1.841 escritórios formados apenas por mulheres. Na sequência vem Bahia, com 712, Rio de Janeiro (609) e Ceará (353). Christhyanne Bortolotto, membro da diretoria da OAB do Paraná e responsável pelo departamento que cuida dos registros de novos escritórios e profissionais, lembra que não só o número de sociedades, mas também de mulheres bacharéis aumenta rapidamente. “Aqui no Paraná cerca de dois terços dos bacharéis que ingressam na OAB são mulheres.”

Exemplos de bancas bem-sucedidas não faltam. Sob comando de Ana Paula Braga e Marina Ruzzi, a banca Braga e Ruzzi Sociedade de Advogadas iniciou as atividades em 2016. Segundo Ana Paula, a ideia desde o início é que ela fosse formada por mulheres e dedicada ao público feminino. “A gente percebeu que não havia escritórios para atender demandas específicas das mulheres. Temos 99% de clientes mulheres”. Ana Paula conta que a OAB não queria registrar a sociedade como advogada, mas depois acabou aceitando. Hoje, este problema não existe mais porque a OAB pacificou o assunto em novembro de 2018. “A carreira na área é machista, apesar de representarmos a metade dos profissionais da advocacia.”

PROGRESSO A banca de Emanuela Barros e Melissa Constantino existe desde 2015 com o nome Barros e Constantino Advogadas. O escritório tem como característica a sororidade e o propósito de oferecer um serviço voltado para a defesa das mulheres. “Os direitos civis femininos estão em ascensão e temos de ocupar lugares de destaque onde antigamente só se via advogados. Mesmos clientes homens nos procuram porque consideram as mulheres mais obstinadas”, afirma Melissa. Emanuela, por sua vez, reforça que a formação de escritórios femininos possibilita muito mais do que o progresso profissional. “É necessário para que não incorramos no erro de uma falsa inclusão da ascensão profissional e representativa em uma classe ainda muito machista.”

Para Claudia Abud e Fabíola Marques, sócias no escritório Abud e Marques Sociedade de Advogadas, a adoção da palavra “advogada” no lugar de “advogado” demorou 25 anos para acontecer porque elas temiam perder clientes ou deixar de angariar novos por causa do preconceito. Mas não foi o que aconteceu. “A mudança no nome ocorreu no ano passado e até agora não percebemos nenhum prejuízo”, afirma Claudia, para quem esse tipo de iniciativa é uma tendência. “É correto adotarmos a denominação feminina. Só há mulheres na banca. O importante é a competência. Somos mestres e doutoras.”

1.841
É a quantidade de Sociedades de Advogadas mo estado do Paraná. Em todo o Brasil, há.

581.500
Advogadas, quase metade do total de registros nas OABs.