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Sinal de alerta para o iFood

Após reinar no mercado de delivery de comida, o iFood encara a chegada de concorrentes de peso enquanto prepara a estreia de novos serviços

Sinal de alerta para o iFood

Em 1997, quando o serviço de entrega de comida no Brasil se limitava aos pedidos de pizza por telefone, a Disk Cook surgiu como uma espécie central de atendimento para receber os pedidos e coordenar as entregas com os restaurantes. Foram quase 14 anos até a operação migrar para o mundo digital, rebatizada como iFood. No fim de 2011, a companhia recebeu o primeiro aporte, de R$ 3,1 milhões, do fundo de investimentos Warehouse. A injeção de recursos trouxe uma mudança importante: o lançamento do aplicativo que funciona como uma praça de alimentação online. Dois anos depois, a empresa foi comprada pela Movile, por R$ 5,5 milhões, e passou a investir em aquisições, especialmente de startups regionais do setor. A principal tacada, no entanto, veio no ano seguinte, a partir da fusão com a sua principal concorrente, o Restaurante Web, do grupo britânico Just Eat. Até bem pouco tempo, nada parecia capaz de atrapalhar a estratégia do iFood. Um movimento recente está acendendo um sinal de alerta para a startup: o avanço de novos rivais no mercado de delivery.

A chegada da UberEats ao Brasil, no fim de 2016, ilustra bem esse cenário. Um dos tentáculos da Uber, a operação oferece um serviço similar ao do iFood. Com um diferencial de peso: os 500 mil motoristas já cadastrados do aplicativo de transporte no País. “O modelo de entregas via aplicativo criou uma revolução”, diz Gabriela Manzini, porta-voz local da Uber Eats. “O nosso diagnóstico foi de que os brasileiros estavam buscando novidades nesse setor.” Para conquistar os clientes da rival, a Uber aposta em tecnologia. Cada restaurante parceiro recebe um tablet que concentra uma série de informações sobre o negócio, como o dia da semana de maior fluxo, o prato favorito dos clientes e as regiões onde há mais e menos vendas. Em agosto, seguindo a tendência lançada pela Amazon há dois anos, a companhia anunciou que está investindo em entregas de comida por drones. “Entregando pelo ar, o Eats será capaz de oferecer entregas mais rápidas e mais baratas para usuários e restaurantes em todo o mundo”, informou a startup em comunicado à imprensa. O Brasil será um dos países para receber testes do serviço nos próximos cinco anos. Segundo apurou a DINHEIRO, a Uber Eats cobra, em média, 30% por entrega dos restaurantes.

Moyses, do iFood: o aumento da concorrência faz o CEO pensar em aumentar o seu cardápio

Outra empresa no caminho do iFood é a colombiana Rappi, fundada pelos empreendedores Sebatian Mejia e Simon Borrero, que desembarcou no Brasil em 2017. E assim como a Uber, a startup está com a conta bancária recheada. Em setembro, a empresa recebeu um aporte de US$ 220 milhões do fundo asiático DST Global e entrou para o clube dos unicórnios, como são conhecidas as novatas avaliadas em mais de US$ 1 bilhão. A estratégia da companhia, porém, não se limita aos restaurantes. O aplicativo permite que o usuário desde remédios até produtos de pet shop. “O público brasileiro valoriza muito a conveniência”, diz Ricardo Brechara, diretor da Rappi no Brasil. “O mercado é competitivo, mas o delivery de comida ainda tem muito espaço para ser explorado.” Hoje, dos 3,6 milhões de usuários ativos na plataforma, 800 mil estão espalhados em 13 cidades brasileiras. A empresa não informa quantos restaurantes possui em sua carteira, mas revela que esse número cresce 30% ao mês. A Rappi usa um modelo parecido com o do iFood. Há uma taxa, não revelada, para cada venda efetivada, e outra, de entrega, que é repassada para o consumidor final. A companhia trabalha com uma meta ambiciosa: alcançar, globalmente, 11 mil pedidos por hora ainda em novembro.

A Rappi não está sozinha no nicho de marketplace de entregas. No Brasil desde fevereiro deste ano, a startup espanhola Glovo também conta com uma rede de entregadores, os chamados “glovers”, que entregam refeições, produtos de farmácias e supermercado, entre outros. Por aqui, a Glovo já faz 10 mil entregas por dia, em 17 cidades, e pretende triplicar a presença no país até o fim de 2019. Para lucrar, a empresa cobra do restaurante uma tarifa por cada transação e uma taxa de R$ 100 por uma impressora de pedidos que fica no estabelecimento. O usuário só paga pelo frete. Ao que tudo indica, dinheiro não é problema para a empresa, que já captou cerca de € 200 milhões junto a investidores como a Rakuten Capital e Amrest. Na visão de Bruno Raposo, gerente da Glovo no Brasil, a concorrência é saudável. Ele enxerga muito espaço no segmento. “A crise que o Brasil atravessa está sendo boa para o setor”, diz o executivo. “Para economizar, as pessoas saem menos para ir restaurantes e pedem comida em casa.” Os números reforçam essa tese. A expectativa da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) é de que o setor de aplicativos delivery feche 2018 com um faturamento de R$ 12 bilhões, contra R$ 11 bilhões no ano passado. Em relação a 2015, a alta é de 33%.

De olho no mercado: em setembro, a Rappi (à dir.) recebeu um aporte de US$ 220 milhões do fundo asiático DST Global e entrou para o clube dos unicórnios, como são conhecidas as empresas avaliadas em mais de US$ 1 bilhão. A Uber Eats (à esq.) utiliza a força de seus 500 mil motoristas cadastrados no País para ganhar espaço

Mesmo com todo o apetite de seus novos competidores, o iFood nega que a ascensão do mercado seja um problema. “A chegada dos novos players é, na verdade, positiva, já que são mais empresas trabalhando para mudar o hábito de consumo dos brasileiros”, diz Carlos Eduardo Moyses, CEO do iFood, cuja marca ficou bastante conhecida pelas campanhas protagonizadas por nomes como Fábio Porchat, Anitta e Rodrigo Hilbert. Sob o novo cenário, no entanto, a companhia está refinando o seu modelo. Em 2017, a empresa passou a oferecer um sistema de compra de insumos e matéria-prima aos restaurantes. O e-marketplace reúne 17 fornecedores que vendem guardanapos, canudos, embalagens e até mesmo queijo. Com 8,7 milhões de entregas mensais, a startup também deu um passo para aprimorar essa frente, com a aquisição da Rapiddo, empresa de entregas com motoboys, em agosto deste ano. “O mercado só está começando. Ainda temos muito para investir no Brasil e na América Latina”, afirma Moyses.

Um levantamento da Food Consulting deixa claro o potencial do segmento. Segundo a pesquisa, apenas 9,7% dos consumidores brasileiros compram comida somente via delivery. “Seja sob a ótica do consumidor ou do estabelecimento, os aplicativos de entregas têm uma capacidade enorme de resolver problemas”, diz Sergio Molinari, CEO da consultoria. Ele acrescenta que, mais do que entregar refeições, as apostas dos aplicativos estão migrando para a oferta de serviços para o empreendedor e economia de tempo para o usuário. O iFood parece ter entendido esse recado e sinaliza que não descarta ampliar o seu cardápio. “Olhamos o tempo todo o que mais podemos levar para os nossos usuários”, diz Moyses. “Não dá para parar no tempo e não pensar em lançamentos.”