Entrevista

Glauco Humai, presidente da Abrasce

Shopping não pode ficar fechado o ano inteiro. Quarentena tem limite

Divulgação

Shopping não pode ficar fechado o ano inteiro. Quarentena tem limite

Em 50 dias, o setor de shoppings perdeu R$ 25 bilhões — ou 13% do faturamento em 2019, que foi de R$ 193 bilhões, segundo dados da Associação Brasileira dos Shopping Centers (Abrasce). A entidade quer um plano para reabertura gradual — e ao menos R$ 8 bilhões para ajudar os lojistas.

Sérgio Vieira
Edição 15/05/2020 - nº 1171

Quinhentos milhões de visitantes. Esse foi o contingente que esteve nos 577 shop ping centers do Brasil no ano passado. A partir de março, o número caiu para para perto de zero. Como tantos outros setores os shoppings tiveram de fechar as portas para atender as recomendações de isolamento necessárias para conter a propagação do coronavírus. O setor estima ter perdido R$ 25 bilhões desde então. Para Glauco Humai, presidente da Associação Brasileira dos Shopping Centers (Abrasce), as ações do governo federal esbarram na burocracia, o que dificulta o acesso ao crédito e põe em risco a manutenção dos cerca de 1,1 milhão de empregos gerados no setor. Ele entende que muitas prefeituras e governos “não fizeram a lição de casa” durante a quarentena e ainda enfrentam dificuldades na área de saúde. “Fica um sentimento de que esse período foi em vão”, afirma.

DINHEIRO – Como foi o impacto inicial da quarentena para os shoppings?
GLAUCO HUMAI — Foi uma decisão difícil, sob todos os aspectos. Como frear um transatlântico. São muitas questões envolvidas: fornecedores, funcionários, mais de 105 mil lojistas. Foi complexo também porque naquele momento havia uma descoordenação muito grande entre municípios, estados e União.
A gente viveu, pelo menos durante os primeiros dez dias, um processo mais traumático. Ninguém poderia prever que chegaríamos ao momento em que os 577 shoppings do Brasil fossem obrigados a fechar. Durante o mês de março e parte de abril tivemos um grande número de redes e lojas com faturamento perto de zero. Uma queda brusca na receita do setor.

Haveria alternativa ao isolamento social?
Acho que não. A gente concorda que a quarentena é a melhor solução. Saúde é prioridade. Para que a gente pudesse entender a questão da saúde, foi importante essa decisão. E nós vamos viver um mundo pós-pandemia, que acredito que deva durar pelo menos um ano, em que as relações pessoais serão mais restritas. Teremos mais cuidado com a higiene, vamos utilizar mais o on-line, em um novo normal de fato. Precisamos adequar nossas operações para essa retomada. Em março, a gente entendia que o isolamento era a saída certa. Hoje, passados mais de 50 dias, acredito que, pontualmente, de acordo com a situação de cada cidade e do número de casos, seja possível a retomada da operação. Shopping não pode ficar fechado o ano inteiro. Quarentena tem limite.

Qual será o efeito do fechamento do comércio sobre a economia?
Ninguém sabe o que vai acontecer amanhã. Nenhuma economia do mundo resiste a isso. No Brasil, as ações do governo são limitadas e não deram o resultado esperado. Foi praticamente um décimo do que foi colocado pelo governo americano na economia, com cerca de US$ 2 trilhões. Todo mundo precisa voltar, mas logicamente com toda segurança necessária, analisando os dados da saúde. Em Santa Catarina, por exemplo, há contaminação diária baixa. Foram adotados todos os cuidados nos estabelecimentos. Os 24 shoppings estão em funcionamento no estado. Sou contrário à abertura total. Temos que analisar dados de saúde e é por isso que estados e municípios ganharam esses dias para trabalhar esses dados. Alguns fizeram a lição de casa e outros não. Vamos precisar trabalhar com essas realidades distintas. A realidade de Pernambuco é diferente da de Santa Catarina, a do Amazonas é diferente da do Espírito Santo.

“Estamos assistindo a toda essa demora para que o cidadão tenha acesso ao auxílio-emergencial de R$ 600. A operacionalização está aquém do necessário para o momento” (Crédito:Roberto Costa)

O que se viu recentemente foram imagens de aglomeração e aumento de casos de coronavírus após reabertura de um shopping em Blumenau. Não foi um erro?
Não. Os dados de saúde do município apontavam para situação estável e segura. Naquele dia específico (22 de abril), foram reabertos 43 shoppings no Brasil. Desses, em apenas um houve problema de aglomeração. Foi um ponto fora da curva e que ainda serviu de alerta para que pudéssemos reforçar ainda mais os cuidados. Aquela situação não durou o dia inteiro, foi rapidamente ajustada e hoje temos 71 shoppings abertos no País (até quinta-feira 7), funcionando todos os dias e não há mais notícias de aglomerações.

A população está entendendo seu papel nessa crise?
Acredito que sim. Não há evidências de que a abertura do shopping em Blumenau tenha gerado o aumento de casos. O número de testes em Santa Catarina aumentou e com isso há mais transparência, não necessariamente mais contaminação. Quando se testa mais, há mais casos registrados. É muito arriscado atribuir o aumento de casos a um fato isolado.

Quais medidas estão sendo tomadas para garantir a segurança para quem frequenta os shoppings que já estão abertos?
Nossos protocolos foram desenvolvidos com base nas experiências de Ásia, Estados Unidos e Alemanha. Também consultamos outros setores, como supermercados e aeroportos e falamos com infectologistas. Os corredores estão com baixo fluxo, higienização completa a cada três horas, apenas 50% de vagas de estacionamento estão liberadas, os elevadores estão fechados, corredores sem quiosques, entradas e saídas em portas separadas, praças de alimentação com 30% a 40% de sua capacidade, adesivos nas escadas rolantes que indicam o acesso de pessoas a cada três degraus. Nós não queremos recuperar 50 dias de vendas em uma semana e sim resgatar a confiança do consumidor em nossas instalações.

O setor gera cerca de 1,1 milhão de empregos diretos. Já há alguma estimativa de quantas lojas e postos de trabalho serão fechados?
Ainda é difícil avaliar porque não sabemos quanto tempo tudo isso vai durar. Muitos decretos de fechamento estão sendo prorrogados. A gente tem a falta de previsibilidade do tempo que vai durar essa crise, impactando em emprego e fechamento de lojas. O setor já disponibilizou ao lojista cerca de R$ 2 bilhões, como isenção de pagamento de aluguel aos shoppings. Mas o cenário é muito incerto. Estamos com 50 dias de fechamento em que as prefeituras poderiam ter se preparado melhor. Dá o sentimento que esses dias foram em vão. Dentro das empresas, as ações ocorrem com planos. E, dentro dos governos, não estamos vendo isso. Estamos num mar agitado sem condições de olhar um palmo à frente.

O poder público não aproveitou de forma adequada esse período de quarentena?
Algumas prefeituras e governos perderam o timing. Temos situação em que o número de respiradores e UTIs é igual ao de março. No mundo inteiro, esse período foi utilizado principalmente para reforço no sistema de saúde. O que a gente tem visto por aqui é que em muitos casos o sistema já está no limite. Todos têm responsabilidade nessa crise e cada um deve exercer seu papel. Nós chegamos agora com um cenário confuso. Os Estados Unidos deram dinheiro a fundo perdido para socorrer empresas, tendo como única obrigação não demitir e pagar seus compromissos financeiros. Aqui estamos pedindo empréstimo e mesmo assim não conseguimos ter acesso. É um descompasso enorme em relação a outros países.

A ajuda financeira, por parte do governo federal, não tem sido a adequada?
Tem existido bastante diálogo, só que as medidas não estão sendo efetivas. O governo disponibiliza dinheiro, mas esse recurso fica represado nos bancos ou por falta de garantias ou outra questão burocrática. Estima-se que apenas 10% das empresas que estão solicitando empréstimo têm conseguindo. Estamos assistindo a toda essa demora para que o cidadão tenha acesso ao auxílio-emergencial de R$ 600. Claro que é muito complexo, mas a responsabilidade com o País é do governo federal. E a operacionalização está aquém do necessário para o momento que estamos vivendo. As medidas trabalhistas foram positivas, mas a gente precisa de dinheiro na veia. O lojista de shopping center precisa de crédito para conseguir retomar. Estamos discutindo uma linha de crédito com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), no valor de R$ 8 bilhões, para garantir pagamento de condomínios, que precisam ser quitados e com isso garantir a manutenção dos shoppings.

“O shopping não é um local de aglomeração de pessoas. Não é Natal todo dia. A rotina é de um fluxo comedido, as pessoas não se esbarram. Há segurança na operação” (Crédito:Eduardo Valente)

A preocupação tem sido maior em relação a quais estados?
São Paulo sempre é um estado em que a gente deposita muita atenção, porque tem um terço dos shoppings do Brasil (182 empreendimentos) e todos estão fechados. Tenho conversado semanalmente com o governador João Doria, que está muito seguro sobres as ações de saúde e entende a dificuldade da economia. Mas imagino que deva haver reabertura gradual, em pouco tempo, em algumas cidades do interior do estado. Hoje a região Sul é a mais resolvida nesse sentido. No Rio Grande do Sul, cinco dos 13 municípios que têm shoppings já permitiram a reabertura. Em Santa Catarina, todos estão abertos e há alguns no Paraná. A cidade de São Paulo reúne cerca de 10% dos estabelecimentos no Brasil e poderia existir a possibilidade de reabertura por regiões.

Isso não pode gerar migração de público em busca desses estabelecimentos abertos?
Sim, é uma preocupação, por isso é uma questão tão complexa. Belo Horizonte não permitiu reabertura, diferentemente do que ocorreu em Betim e Nova Lima, que ficam na região metropolitana. Mas aí entra nossa responsabilidade de controlar o acesso. A população, de uma forma geral, ainda está preocupada, com medo de perder emprego. E, nesse ambiente, as pessoas não vão sair para se divertir. A reabertura nesse momento é para retomar gradativamente esse processo. O shopping não é um local de aglomeração de pessoas. Não é Natal todo dia. A rotina de um shopping é de um fluxo comedido, as pessoas não se esbarram. Numa situação normal, já há muito espaço e com 50% do fluxo a segurança é ainda maior. Se a gente está disposto a abrir, é porque entende que há segurança na operação. Foi criada uma queda de braço entre saúde e economia que não existe.

É possível conciliar ambos.

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