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Seu Brandão (1926 – 2019)

Um dos homens mais poderosos da economia brasileira das últimas décadas, Lázaro de Mello Brandão (1926-2019) construiu uma trajetória profissional em que a dedicação ao trabalho e o compromisso com o desenvolvimento do País se somaram em uma saga de sucesso empresarial exemplar. Foram 76 anos dedicados ao Bradesco, onde entrou como contínuo e, determinado a empreender uma escalada à qual parecia predestinado, subiu de degrau em degrau até se tornar presidente. Ao falecer, em São Paulo, na quarta-feira 16, aos 93 anos, vítima de complicações de uma cirurgia, o executivo cujo nome se confunde com o da instituição à qual dedicou sua vida deixava um legado que transcende o êxito como gestor. As lições do banqueiro permanecem vivas, assim como a admiração inquestionável por parte de quem acompanhou sua biografia singular.

Crédito: Egberto Nogueira/imafotogaleria

Calmo, discreto, mas decidido como poucos, Lázaro Brandão esteve por dentro de quase tudo que se passava na Cidade de Deus, a sede do Bradesco, em Osasco, na Grande São Paulo. Seu poder ali já era evidente quando ouviu a seguinte pergunta de Amador Aguiar, o fundador do banco: “Seu Brandão, o senhor se considera preparado para ser o presidente do Bradesco?”. A resposta não poderia ser outra: “Eu estou me preparando para isso desde que comecei a trabalhar aqui, seu Aguiar”. Brandão já era vice-presidente e considerado o sucessor natural de Aguiar. O ano era 1981 e o executivo contava quatro décadas de serviços prestados ao Bradesco. Presidi-lo seria apenas o passo seguinte de uma caminhada que havia começado muito antes.

Nascido em 1926, em Itápolis, interior paulista, filho de um administrador de fazendas, Lázaro de Mello Brandão soube desde cedo que seu futuro profissional seria longe do campo. “Com 12, 14 anos já pensava em trabalhar em banco, a fim de ter uma vida muita mais controlada, confortável”, com “estabilidade, respeito da comunidade”, contaria ele mais tarde ao Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea da Fundação Getulio Vargas (o depoimento resultou no livro Lázaro de Mello Brandão — Senda de um executivo financeiro, título escolhido por ele próprio). Dito e feito. Em 1941, adolescente, começou a trabalhar como contínuo da Casa Bancária Irmãos Almeida.

TRIO DE PESO Amador Aguiar, ao centro, entre Antonio Carlos de Almeida Braga, da Seguradora Atlântica Boavista (à esq.) e Brandão (Crédito:Divulgação)

Nos intervalos do trabalho, estudava com afinco para o concurso do Banco do Brasil. No ano seguinte, porém, um negócio definiu sua vida. O banco Irmãos Almeida foi comprado por um recém-fundado concorrente de Marília: o Banco Brasileiro de Descontos S.A. Aguiar, na época, comentava o pequeno porte de seu negócio mudando-lhe o nome para “Banco brasileiro dos dez contos”. Ao conhecer Aguiar, Brandão vislumbrou seu destino. Ele disse a Albertina Tassiari, então noiva e, mais tarde, esposa para toda a vida: “Ainda vou ser presidente desse banco.” Conseguiu. E, mesmo antes de se tornar presidente, fez do Bradesco uma potência.

“Seu profundo conhecimento sobre o mercado brasileiro e a visão sóbria e exata da economia brasileira foram fundamentais para a construção do Bradesco e de toda uma cultura de negócios que marcou várias gerações de executivos”, declarou o atual diretor-presidente do banco, Octavio de Lazari Junior, no pronunciamento oficial sobre o falecimento de Lázaro Brandão. A influência do banqueiro no mundo dos negócios, contudo, se estendeu para muito além do sistema financeiro, envolvendo boa parte da indústria, do comércio e dos serviços, setores nos quais o Bradesco tem forte presença, seja por meio de participações em empresas de peso seja por atuar como vetor do crescimento por meio da oferta de crédito.

SUCESSÃO Márcio Cypriano (à esq.), em 1999, ao ser empossado presidente da Diretoria Executiva do Bradesco (Crédito:Divulgação)

LUCIDEZ E ENTUSIASMO Após uma vida dedicada ao banco, a importância de Lázaro Brandão pode ser medida de diversas formas. O vaivém de helicópteros no Cemitério Horto da Paz, em Itapecerica da Serra, nos arredores de São Paulo, onde o seu corpo foi velado na tarde da quarta-feira 16, é apenas uma delas. Na fila para dar o último adeus a “Seu Brandão” cumprimentavam-se políticos, empresários, economistas e banqueiros. Para ficar em apenas alguns: o governador de São Paulo, João Doria; o ex-ministro da Fazenda Delfim Netto; o presidente da Caixa Econômica Federal, Pedro Guimarães; da Cielo, Paulo Cafarelli; o empresário Rubens Ometto, controlador da Cosan; e Márcio Cypriano, que recebeu de Brandão o posto de presidente do Bradesco em 1999. “O Brasil sentirá falta do seu sorriso, da sua lucidez e do seu entusiasmo pelo trabalho e pelas boas causas”, disse João Doria, para quem Brandão era “um empreendedor nato, um otimista, um homem que sempre acreditou no seu povo e no seu País”.

Luiz Carlos Trabuco Cappi, que trabalhou por 40 anos com Seu Brandão e o sucedeu na presidência do Conselho de Administração do Bradesco, não escondia a emoção. “Foi uma honra trabalhar, conviver e ser inspirado por esse ícone e grande líder, cuja ausência será muito sentida”, afirmou. “Ele viveu de tudo: hiperinflação, juros negativos e excesso de juros. Era disciplinado e gentil no trato. Tinha a capacidade de antecipar os novos ciclos, percebeu quando a tecnologia ia mudar e o Bradesco foi o terceiro grande banco do mundo a usar bem a internet.” Para Trabuco, o sistema financeiro perde “um dos mais ilustres e tradicionais representantes, que sempre soube guiar-nos pelos elevados ideais de honestidade, coerência profissional e dedicação”. Ao final do velório, Trabuco fez questão de conduzir pessoalmente a cadeira de rodas em que estava a viúva, Albertina Tassinari Brandão. O casal teve duas filhas e um neto.

HOMENAGEADO Domingo Alzugaray, fundandor da Editora Três, premia Lázaro Brandão como Empreendedor do Ano de 2006 (Crédito:Murillo Constantino)

Discreto, reservado e com uma capacidade impressionante de trabalho, o “contínuo do velho” (como era chamado quando ninguém estava ouvindo) percebeu cedo que o negócio que sonhava presidir um dia só teria futuro se houvesse controle e disciplina férreos. Em um banco voltado para a massa, era preciso garantir que o lucro não se perdesse entre milhares de operações que eram realizadas todos os dias. Daí a decisão inédita de colocar, em cada agência, um funcionário para controlar os gerentes e garantir a uniformidade dos procedimentos. Os inspetores de agência reportavam-se diretamente a Brandão. Com um talento incomum para números, ele era rápido em perceber inconsistências e problemas. Ao longo dos anos, isso preservou a solidez e garantiu o crescimento ininterrupto do Bradesco.

Durante o período em que Brandão decidia os caminhos do banco, os resultados foram espetaculares. Apenas para ficar com os mais eloquentes: entre 1997 e 2017, seu último ano na presidência do Conselho de Administração, o lucro líquido do Bradesco saltou de R$ 831 milhões para R$ 19 bilhões. Nos dez anos anteriores a 2017, o valor de mercado do banco passou de R$ 4,2 bilhões para R$ 200,5 bilhões. A diversificação dos ativos também foi uma de suas marcas. A Bradespar (criada no ano 2000 para administrar as participações acionárias do banco em empresas não financeiras) e a Bradesco Seguros possuem fatias significativas da OdontoPrev (50,01%), Europ Assistence (50%), Orizon (41,9%), Swiss Re (40%), Fleury (13,3%) e IRB BrasilRE (15,3%), além de 5,7% da Vale.

NÚMERO 1 Brandão na presidência do Conselho de Administração, cargo que em 2017 passaria a Luiz Carlos Trabuco Cappi (à dir.) (Crédito:Egberto Nogueira/imãfotogaleria)

DIPLOMACIA Investido da legitimidade de maior banqueiro nacional, Lázaro Brandão tornou-se um interlocutor privilegiado das lideranças econômicas e políticas. Se o Bradesco sempre cultivou bom trânsito com o governo, isso só foi possível graças ao talento diplomático de Brandão. Apesar da competição ferrenha, as relações com os demais banqueiros sempre foram igualmente cordiais. “Seu Brandão foi personagem-chave não apenas para a construção de um dos maiores bancos do mundo, mas também para o desenvolvimento da economia brasileira nas últimas décadas”, afirmou o presidente do Itaú Unibanco, Candido Bracher. Já o presidente do Santander Brasil, Sergio Rial, destacou o “legado inestimável” deixado por Brandão e o fato de ele ter construído uma das culturas mais sólidas de um grupo corporativo no Brasil. “O banqueiro Lázaro Brandão foi um dos pilares na construção de uma organização contemporânea e à frente do seu tempo. Pensava em tecnologia e clientes muito antes”.

Quando anunciou sua aposentadoria da Presidência do Conselho, em 2017, Brandão foi indagado se havia se divertido em 76 anos de Bradesco. E respondeu: “Depende da extensão do divertimento. Divertimentos modestos, sim. Eu procurei sempre fazer as coisas com muito empenho.” Confessou uma certa surpresa. “Em retrospecto, quando olho para o que o Bradesco é hoje, nunca imaginaria que chegaríamos onde chegamos.” E manifestou seu otimismo com relação ao banco que ajudou a moldar. “O Bradesco ainda tem muito espaço para crescer, acompanhando a expansão da economia brasileira e a entrada de mais pessoas no mercado consumidor.” A aposentadoria, porém, não quis dizer inatividade. Brandão passou a presidir o conselho da Fundação Bradesco e da controladora do banco, a Cidade de Deus Participações. DINHEIRO perguntou como seria a rotina do homem que, por décadas, tinha chegado antes das sete da manhã à Cidade de Deus, em Osasco, sede onde bate o coração do império fundado por Aguiar. “Ah, minha rotina será mais leve”, disse Brandão. “Vou chegar aqui às sete e quinze.”


Uma inteligente lição

Depoimento do admirador Caco Alzugaray, presidente executivo da Editora Três

RECONHECIMENTO Lázaro de Mello Brandão, em 2012, recebe de Caco Alzugaray o prêmio As Melhores da DINHEIRO (Crédito:Cleiby Trevisan / Ag. Istoé)

“Tive enorme honra de conhecer relativamente bem o Dr. Lázaro Brandão. Foram algumas reuniões no banco, almoços aqui na Editora Três e justas homenagens que prestamos a ele em nossos eventos, sempre acompanhado de meu pai: eles eram grandes amigos. Aliás, na última homenagem que prestamos ao Dr. Lázaro meu pai já não conseguiu estar presente. Carinhosamente, como sempre, o Dr. Lázaro me perguntou como ele estava, mesmo com sete anos a mais de idade que meu pai. Lázaro Brandão deixa o legado que um banqueiro pode ser, diferentemente do que o senso comum pensa, uma pessoa que quer que o cliente cresça mais que o próprio banco — proporcionalmente aos tamanhos, claro — e conseguiu passar esse conceito para o Bradesco. Inteligente lição: juntos somos mais fortes!”


Pratas da casa

Com longa trajetória dentro do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco, presidente do Conselho de Administração, e Octavio de Lazari Junior, diretor-presidente, mantêm o legado de Lázaro de Mello Brandão

Egberto Nogueira/imãfotogaleria

Por Paula Cristina

Assim como o homem que o precedeu na presidência do Conselho de Administração do Bradesco, o executivo Luiz Carlos Trabuco, 68 anos, tem sua história intimamente ligada à do banco. Nascido em Marília, no interior de São Paulo, na mesma cidade onde o banco foi fundado por Amador Aguiar, Trabuco está na instituição financeira desde os 17 anos. Aos 32 assumiu seu primeiro cargo de direção, na Bradesco Vida e Previdência. Foi a seguir nomeado diretor-gerente e, na sequência, vice-presidente executivo do Bradesco. A partir de 2003, acumulou ao cargo a presidência da Bradesco Seguros. Foi nessa época que o banco lançou suas ações na bolsa de Nova York. Após assumir a presidência do Bradesco, Trabuco esteve à frente da compra do HSBC no Brasil pelo grupo. Era natural que herdasse a cadeira de Lázaro Brandão na presidência do Conselho – papel que desempenha há dois anos. “Foi uma honra dar continuidade ao seu legado”, afirmou Trabuco. Em 2015, o então presidente do Bradesco foi eleito Empreendedor do Ano pela DINHEIRO.

Hoje, enquanto Trabuco cuida do futuro da instituição, cabe ao diretor-presidente Octavio de Lazari Junior garantir que o momento atual se mantenha saudável. Lazari também foi criado dentro do banco, onde começou em 1978 como office-boy. Aos 55 anos e com quatro décadas de Bradesco, ele assumiu a presidência com o desafio de inserir o banco na era digital. Com as transformações tecnológicas e concorrência crescente das fintechs, adaptar o “bancão” ao novo perfil de mercado se tornou vital. E foi exatamente o que Lazari fez, de forma exemplar, e sem abrir mão da rentabilidade. O Bradesco foi pioneiro no uso de Inteligência Artificial no atendimento – e seu presidente ainda se inspira nas lições que aprendeu com o mestre Lázaro Brandão. “Não foram poucas as ocasiões em que uma decisão sua simplificava processos e solucionava as mais intrincadas dúvidas”, afirmou Lazari. “Em todas as posições – como diretor, vice-presidente, presidente do Banco, presidente do Conselho de Administração – tinha um ritmo de trabalho intenso e vigoroso, que nos contagiava”. Como bom discípulo, ele exerce sua função com a mesma energia. E os resultados que entrega garantiram ao atual presidente o título de Empreendedor do Ano atribuído pela DINHEIRO em 2018.

Colaborou: Carlos Eduardo Valim