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Sergio Moro

Considerado o maestro da operação Lava Jato, o juiz paranaense é o principal personagem do movimento de combate à corrupção no País nos últimos anos

Sergio Moro

O número 888 da rua Anita Garibaldi, no tradicional bairro Cabral, em Curitiba, tem se tornado o epicentro da transformação do Brasil nos últimos anos. É neste endereço, na 13ª Vara Federal, que o juiz Sergio Moro orquestra a maior ofensiva de combate à corrupção na história do País, a operação Lava Jato. Sentado atrás de uma grande mesa de madeira, bagunçada com livros, jornais e pastas de processos, Moro tenta por ordem na sórdida cultura da bandalheira impregnada, desde os tempos de Álvares Cabral, nas relações entre empresas e governo. “Temos de manter uma infinita esperança quanto à diminuição da corrupção e da relação promíscua entre empresas e governo”, disse Moro em entrevista exclusiva à DINHEIRO, em sua sala, na capital paranaense. “Não só porque um ambiente limpo é bom para os negócios e para os lucros, mas também por ser a coisa certa a fazer.”

2016: as revelações da operação Lava Jato, que levaram Marcelo Odebrecht à prisão, foram destaques nas capas da DINHEIRO

Desde março de 2014, quando teve início a Lava Jato, mais de 100 pessoas foram investigadas e condenadas por crimes como corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro, organização criminosa, evasão de divisas e gestão fraudulenta. Em 12 de julho de 2017, o juiz condenou em primeira instância o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva a nove anos e seis meses de prisão.

Nunca antes na história desse País um ex-presidente da República havia sido condenado criminalmente. Pelos cálculos da Polícia Federal, as operações financeiras investigadas na Lava Jato somam, até agora, R$ 8 trilhões. “Acredito que os ganhos de eficiência e de produtividade para nossa economia serão muitos, além da melhora da qualidade da democracia”, diz Moro.

Natural de Maringá, região norte do Estado, Moro é pai de dois filhos e casado com Rosângela Wolff de Quadros, advogada e procuradora jurídica da Federação Nacional das Apaes. Aos 45 anos, ele vive em bairro de classe média de Curitiba, onde é conhecido pelos vizinhos como uma pessoa de hábitos simples e discreto em sua vida pessoal. Acompanhe, a seguir, os principais trechos de sua entrevista:

“A solução para a corrupção é o aprofundamento da democracia”

O juiz federal Sergio Moro falou à DINHEIRO sobre a operação Lava Jato e como seu trabalho está mudando o País

Sob a ótica da corrupção, da ética e da relação entre políticos e empresas, o Brasil dos próximos 20 anos não será o mesmo dos últimos 20. Na opinião do sr., quais serão os maiores avanços?
Há um forte sentimento anticorrupção na opinião pública, imprensa e sociedade civil organizada. Os processos por crimes de corrupção se espalharam e não mais estão somente em Curitiba. Então, há avanços, ainda que sob a sombra do retrocesso. Em algum momento, é o que se espera, isso se refletirá de maneira mais intensa na política. Até lá, a responsabilidade maior é do setor privado, que deve dizer não à corrupção sistêmica. Não só porque um ambiente limpo é bom para os negócios e para os lucros, mas também por ser a coisa certa a fazer.

Como será o Brasil pós-Lava Jato?
Embora seja difícil fazer previsões sobre futuro, temos de manter uma infinita esperança quanto à diminuição da corrupção e da relação promíscua entre empresas e governo. Acredito que os ganhos de eficiência e de produtividade para nossa economia serão muitos, além da melhora da qualidade da democracia.

As conquistas institucionais da Lava Jato são benefícios permanentes para a sociedade brasileira ou sua perpetuação ainda não está garantida?
A solução para a corrupção sistêmica é o aprofundamento da democracia, mais transparência, mais liberdade de informação, maior responsabilização dos governantes frente aos governados. A operação Lava Jato se insere em um ciclo inaugurado de forma mais incisiva pela Ação Penal 470 no sentido da redução da impunidade de crimes praticados por poderosos. Muito foi feito e chegou-se a alguns resultados inimagináveis no início. Mas há ainda uma parcela significativa de investigações e processos em andamento principalmente para detentores de foro privilegiado. É preciso que esta parte seja finalizada.

Mas isso é um risco à operação?
A grande mudança institucional mais permanente, a execução de condenação a partir do julgamento de uma Corte de Apelação, está aparentemente ameaçada por uma possível revisão de entendimento do Supremo Tribunal Federal. Será lastimável se isso ocorrer. Além disso, seriam importantes as reformas mais abrangentes para diminuir as causas da corrupção, como o loteamento político de cargos públicos, mas não se vê movimentos nesse sentido de nossas lideranças políticas, o que não deixa de gerar grande insatisfação.

A grande maioria dos brasileiros personifica no sr. a liderança no combate à corrupção. O sr. se incomoda com essa responsabilidade?
Os avanços institucionais são mais importantes do que eventuais méritos individuais. O sucesso relativo da operação Lava Jato decorre de um esforço de várias instituições, como a Polícia Federal, Ministério Público e a Justiça criminal, e mesmo nesta de magistrados de várias instâncias. Isso sem falar que só foi viável diante do apoio esmagador da imprensa e da opinião pública. Então, vejo como um triunfo coletivo e não individual, o que traz grande conforto.

Muitos sonham em ver o senhor concorrendo à Presidência da República. Existe essa possibilidade nas próximas eleições?
Não existe essa possibilidade.


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