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Sem Lucros e sem dividendos

No turbilhão em que vive a bolsa de valores nas últimas semanas, um porto mais seguro poderia ser as empresas que distribuem dividendos. ocorre que elas estão cancelando ou postergando esses pagamentos.

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O que empresas tão diferentes entre si quanto Petrobras, Lojas Renner, Fleury e EDP têm em comum? Além de terem perdido valor de mercado durante as últimas semanas, assim como todas as companhias com papeis negociados na B3, elas adotaram uma estratégia para se proteger melhor durante a crise causada pela pandemia do coronavírus. As três empresas estão entre as primeiras que anunciaram o adiamento ou cancelamento de dividendos para seus acionistas. “As ações de companhias boas pagadoras de dividendos ficam mais atrativas em mercados em queda, pois os preços menores das ações fazem com que o rendimento dos dividendos aumente, conhecido como dividend yield, o que torna as ações com bons dividendos mais defensivas”, diz Fernando Ferreira, estrategista-chefe da XP. “Dito isso, vimos que várias empresas já estão anunciando a postergação do pagamento dos dividendos nos próximos meses.” Isso acontece porque, em um momento de choque de oferta e demanda, as companhias se preocupam, principalmente, em preservar seus caixas.

O conselho de administração da Renner, por exemplo, propôs em janeiro aumentar de 40% para 50% o porcentual de pagamento de dividendos e juros sobre capital próprio para os acionistas. A decisão seria tomada em assembleia em abril. Na segunda-feira 30, ela anunciou que irá propor aos acionistas uma diminuição do valor para 25%, relativo ao lucro de 2019, o equivalente a R$ 267,7 milhões. “Nos próximos tempos, vamos ver mais empresas seguindo esse caminho e anunciando a redução, postergação ou mesmo subtenção dos dividendos deste ano”, afirma Ricardo Schweitzer, sócio-fundador da Nord Research. “Passada a crise, elas podem retomar os pagamentos, no fim do ano, declarar juros sobre capital próprio e adiar a distribuição para 2021, porque isso reduziria a sua base tributária.”

A situação fica ainda mais simples se o dividendo não tiver sido aprovado pelo conselho de administração – como é o caso da Renner. Já a Petrobras adotou a estratégia da postergação de pagamentos. O dividendo remanescente de R$ 1,7 bilhão relativo ao resultado de 2019, que seria pago no dia 20 de maio, foi adiado para 15 de dezembro. O adiamento também foi a decisão do Fleury.

MUDANÇA DE RUMO: A Renner pretendia elevar de 40% para 50% o pagamento de dividendos aos seus acionistas. Agora, quer reduzir para 25%. Já a Petrobras (à esq.) adiou para dezembro o pagamento que seria feito em maio. (Crédito:Divulgação)

BEM MAIOR Essas estratégias, pelo menos no curto prazo, prejudica os acionistas, apesar de muitos deles entenderem que isso vem para um bem maior. Em médio e longo prazo, o plano pode trazer benefícios maiores, além de demonstrar responsabilidade com o negócio. “Por isso, não acredito que os preços das ações dessas empresas possam cair por causa das revisões dos pagamentos. Na maior parte dos casos, isso é percebido pelo mercado como algo salutar”, diz Schweitzer. “É diferente de quando a empresa faz uma presepada e precisa deixar de pagar os dividendos”. Segundo ele, as companhias com histórico de bom pagamento de dividendos têm, ainda, a vantagem de serem organizações maduras e que não exigem muito investimento para crescer. Por isso, podem se dar ao luxo de direcionar lucros aos acionistas.

E não será apenas no Brasil que essa tendência se imporá. A Federação Bancária Europeia (EBF) informou que os bancos do continente deverão suspender o pagamento de dividendos durante todo este ano, como forma de preservar capital e para poder continuar dando liquidez a pequenos empresários e a famílias, durante a atual crise. Eles também devem interromper a estratégia de recompra de ações, algo que é uma oportunidade, uma vez que os preços estão baixos, ao mesmo tempo em que ajuda a evitar que a instituição perca mais valor de mercado.

No Brasil, também anunciaram que vão deixar de fazer repasses mensais de dividendos alguns fundos imobiliários (FII) de shopping centers. São os casos de XP Malls, Grand Plaza Shopping e Shopping Pátio Higienópolis. Isso se explica porque, esvaziados, os centros comerciais devem deixar de receber aluguel de muitos lojistas. Tudo isso parece ser apenas o início de uma onda muito maior de adiamentos e cancelamentos. É de se esperar que 2020 seja um ano de poucos dividendos para os investidores.

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