Economia

“Sem a Previdência, não tem o resto”

O economista e ex-ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega falou à DINHEIRO após apresentação a clientes da gestora de recursos Reag, na terça-feira 6:

“Sem a Previdência, não tem o resto”

O mercado está otimista. Isso é sustentável?
O otimismo se baseia na percepção de que o presidente eleito fará as reformas, principalmente a da Previdência, e de que o ultraliberal Paulo Guedes vai privatizar estatais e reformar o Estado. Se isso ocorrer, o otimismo continua. Caso contrário, entraremos em um processo de deterioração rápida das expectativas, queda de confiança e fuga de capitais. Os riscos de a reforma não acontecer não são pequenos, então, todo mundo tem que torcer.

O projeto ultraliberal proposto por Paulo Guedes é exequível? Como seria esse “novo” Brasil?
A questão é se as ideias do Paulo Guedes são compatíveis com a realidade do Brasil. Eu penso que não há razão nenhuma para ter empresa estatal, mas sou minoria. Uma pesquisa Datafolha mostrou que 78% dos brasileiros são contra privatizar. A maioria acha que as riquezas nacionais estão em jogo. Por isso, vender R$ 1 trilhão de empresas estatais é um sonho do Paulo Guedes. Na teoria, faz sentido. Mas uma coisa é ler livro e falar de fora. Outra, bem diferente, é estar no governo, enfrentando as corporações e as pressões de opinião pública. É preciso saber convencer, trazer aliados para ajudar no processo, explicar suas propostas para a imprensa de uma forma adequada. Ao longo do tempo, o Paulo Guedes deve desbastar muitas das suas utopias.

O projeto dele terá de passar por um ajuste de realidade?
Sem dúvida. E o ajuste começa com essa ideia sem sentido de um superministério da economia. Já deu errado no governo Collor. Isso é algo para contentar a opinião pública, a ideia de que com menos ministérios se corta gastos. Quando o Paulo Guedes chegar no Ministério da Fazenda e descobrir quantas entidades vai ter de supervisionar, vai perceber que o mundo não é como ele está querendo. Não é superministério que resolve o problema. Isso é uma ideia autoritária. O que resolve é mudar a Constituição e aprovar reforma no Congresso. Isso depende da capacidade de articulação, que é um trabalho do presidente da república. Quem vai governar não é o Paulo Guedes, quem vai governar é o Bolsonaro, quer queiramos, quer não.

Quais são as chances de o governo Guedes-Bolsonaro dar certo?
É um governo que começa com muita força política, e a experiência mostra que o início de governo é a hora das medidas mais ousadas. Mas o Bolsonaro tem de usar bem esse capital. Se ele tiver um bom estrategista, vai ouvir o conselho de não pensar em independência do Banco Central, maioridade penal, nada disso. O capital político é para vencer o primeiro obstáculo, que é a Previdência. Se não vencer o primeiro, não tem o segundo. Sem a Previdência, não tem o resto.

Será possível gerar uma onda prolongada de investimentos?
Vai depender da capacidade de o governo atender essas expectativas. As empresas que fizeram o cálculo político adequado vão dar um crédito de confiança. Decisões de maior profundidade que evolvam riscos difíceis de calcular vão esperar até que o quadro fique mais claro. Enquanto isso, a onda de investimento que se espera não vai acontecer.