Investidores

Segurar é um bom negócio

Beneficiada por um monopólio que durou quase 70 anos, resseguradora IRB vê ações subirem 270% desde o IPO — e sem sinais de esgotamento

O nacionalismo – que voltou à moda em muitos países – é o responsável pela criação de uma das atuais campeãs de rentabilidade da Bolsa. Em 1939, na ditadura do Estado Novo, nasceu o Instituto de Resseguros do Brasil (IRB). Na época, o seguro de grandes riscos, que envolve valores muito elevados para que uma seguradora o assuma sozinha, era feito por empresas estrangeiras. O presidente Getúlio Vargas determinou então a criação do IRB, para que recursos não fossem mais enviados ao estrangeiro.

De 1939 até 2007, o IRB deteve o monopólio do mercado de resseguros no País. Há dez anos, outros players entraram no segmento, mas o longo período em que reinou sozinha ainda rende frutos à companhia. O Instituto de Resseguros conta com uma base de dados que o ajuda bastante na hora de precificar os riscos das operações. “É um importante diferencial em relação aos concorrentes, que chegam a utilizar os cálculos e movimentações do IRB como referência”, afirma Henrique Navarro, analista do Santander. Uma prova da competência dos administradores do IRB é que pouco antes da tragédia de Mariana, a resseguradora deixou a operação por avaliar que o risco não compensava mais o retorno, afirma Eduardo Nishio, analista da Genial. Em Brumadinho, a empresa tinha uma exposição pequena, para resguardar a sede da Vale, mas estava protegida por instrumentos de mercado.

CÉU DE BRIGADEIRO A despeito do fraco desempenho de 1,1% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2018, o IRB conseguiu crescer sua carteira em 20% no ano passado, para cerca de R$ 7 bilhões. Em 2019, a meta é aumentar os prêmios entre 17% a 24%. Por conta do histórico, o IRB detém com folga a liderança do mercado com aproximadamente 35,4% do total. O segundo lugar, a resseguradora alemã Munich, tem 6,8%; e o terceiro, a Swiss, tem 4,7%. A posição do IRB, somada ao seu conhecimento estratégico e à perspectiva de aquecimento da economia, fazem com que o mercado veja o papel com bons olhos. Desde seu IPO, em julho de 2017, as ações subiram 270,8%. Foi a maior alta da Bovespa no período, à frente do Magazine Luiza, que subiu 266,9%. Apesar da forte alta, os analistas entendem que ainda há espaço para que o IRB prossiga com sua trajetória ascendente por um bom tempo.

Segundo Navarro, os investidores foram excessivamente conservadores quando calcularam o valor da empresa durante o processo de oferta pública das ações. “Conforme os resultados surpreendem positivamente, os analistas precisam rever seus modelos para o ativo, passado a prever valores cada vez mais altos”, afirma o analista do Santander, que tem no IRB sua ação “top pick”. Ou seja, se um investidor deseja investir em uma única ação, ele indica a resseguradora.

A privatização do instituto em 2013 contribuiu para que a companhia se tornasse uma das queridinhas dos investidores. Nas mãos dos bancos Itaú e Bradesco, que detêm o controle junto com BB Seguridade, fundos de pensão e União, o risco de ingerência política é bastante minimizado. Além disso, a agenda liberal do governo Bolsonaro tem mantido o mercado de olho numa eventual venda da participação da União, que corresponde a 12% do IRB. “Sempre surgem especulações de que o megainvestidor Warren Buffett pode entrar na operação. Não tenho informações a esse respeito, mas onde há fumaça há fogo”, diz Eduardo Nishio.

Outro potencial gatilho positivo para a empresa envolve a participação no processo de concorrência dos resseguros do Programa de Garantia da Atividade Agropecuária (Proagro) do governo. “Caso o IRB saia vencedor, serão mais R$ 400 milhões ao ano adicionados ao lucro da empresa”, afirma o analista da Genial, que tem um preço-alvo de R$ 101,70 para a ação da companhia em dezembro, o que embute um potencial de valorização próximo a 9,7%. “Essa projeção não considera eventos como o Proagro ou a venda da fatia da União que, se confirmados, melhoram a perspectiva para o ativo”, diz Nishio.

IBOVESPA Em fevereiro de 2019, o IRB promoveu uma oferta secundária de ações para dar saída aos 8,9% que a Caixa detinha na empresa. Essa circulação de novas ações aumentou a liquidez do ativo, importante critério na tabulação que compõem o Ibovespa. Na primeira prévia do índice divulgada em 1° de abril, as ações do IRB estrearam com uma participação de aproximadamente 0,8%. A entrada será mais um fator positivo para dar fôlego adicional para a valorização do papel. “Ao entrar no Ibovespa, fundos de gestão passiva vão precisar comprar as ações do IRB para estarem aderentes ao benchmark”. Procurado, o IRB não comentou.