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Segundo dia de tensão na Catalunha após condenação de líderes separatistas

Manifestantes separatistas catalães entraram em confronto nesta terça-feira (15) com a polícia pelo segundo dia consecutivo de protestos contra a condenação de nove líderes do movimento a penas de até 13 anos de prisão por seu envolvimento na frustrada tentativa de secessão de 2017.

No fim da tarde, grupos que lutam pela independência da Catalunha realizaram manifestações com velas diante de prédios do governo espanhol nas principais cidades da região

Em Barcelona, num ato que reuniu cerca de 40 mil pessoas, segundo autoridades locais, a polícia avançou contra centenas de manifestantes, entre eles muitos jovens com os rostos escondidos por lenços e máscaras, que responderam lançando garrafas, pedras e sinalizadores, além de acenderem fogueiras diante de um cordão de isolamento formado por agentes de segurança na frente de um prédio do governo central, constatou um jornalista da AFP.

A emissora de TV regional exibiu também uma ação da polícia contra os separatistas que participavam de um protesto em Tarragona, 100 km ao sudoeste de Barcelona.

Antes, os manifestantes bloquearam ferrovias e várias estradas, entre elas a AP-7 que liga Espanha à França e a A-2, entre Barcelona e Madri.

“Não há como parar a mobilização, ela vai continuar”, advertiu Javier Martínez, um bancário de 60 anos no protesto de Barcelona. “É necessário forçar para que se tenha um diálogo e que o Estado venha conversar”, acrescentou.

“Agora mesmo não vejo possível um referendo mas, para isso, temos que ir às ruas para que possa ocorrer”, declarou Gemma Gelpí, com cerca de 60 anos, que também estava no protesto.

– Inspirados em Hong Kong –

Na véspera, a misteriosa associação Tsunami Democrático fez uma convocação para paralisar o aeroporto de Barcelona.

Seguindo o exemplo dos manifestantes pró-democracia de Hong Kong, cerca de 10 mil pessoas segundo o governo espanhol foram no início da noite para o aeroporto tentar bloquear os acessos ao terminal.

Durante horas foram registrados confrontos com a segurança do local, que avançou contra a multidão disparando balas de borracha e espuma.

Mais de cem voos foram cancelados, muitos passageiros não puderam desembarcar e centenas deles passaram a noite no aeroporto, segundo a entidade gestora do serviço aeroportuário espanhol (Aena). Os efeitos duraram até a tarde desta terça, com 45 voos cancelados.

Pelo menos 115 pessoas necessitaram de atendimento médico no aeroporto, entre elas um manifestante que perdeu a visão de um olho por conta de um ferimento “compatível” com o provocado por uma bala de borracha, de acordo com fontes da área da saúde.

Para esta quarta estão previstos novos atos de protesto em diferentes pontos da região, que devem culminar com uma grande passeata prevista para sexta-feira em Barcelona, no mesmo dia para o qual foi convocada uma “greve geral”.

“As sentenças abrem um novo ciclo político”, disse à AFP o presidente do Parlamento regional, o separatista Roger Torrent.

Nesta etapa, o separatismo deve criar as condições “para que o Estado não tenha mais escolha além de sentar-se numa mesa de diálogo”, acrescentou.

– Horizonte de semiliberdade –

Após quatro meses de julgamento e outros quatro de deliberação, os juízes do Supremo Tribunal decretaram penas de prisão de 9 a 13 anos para nove acusados na tentativa de secessão de outubro de 2017.

O ex-vice-presidente regional catalão Oriol Junqueras recebeu uma pena de 13 anos de prisão, a maior sentença contra os separatistas processados.

Três antigos conselheiros (ministros regionais) foram condenados a 12 anos; outros dois ex-conselheiros a 10 anos e meio; a ex-presidente do Parlamento regional a 11 anos e meio, e dois líderes do ativismo separatista a nove anos.

Além disso, após a condenação, a promotoria emitiu um novo mandado de prisão por sedição e peculato com base nos mesmos crimes contra o ex-presidente regional Carles Puigdemont, que fugiu para a Bélgica após a tentativa de secessão.

O principal tribunal espanhol considerou que o referendo ilegal de 1º de outubro de 2017 e a posterior declaração de independência corresponderam a um movimento para impedir a aplicação das decisões judiciais e da lei.

Perto das eleições legislativas previstas para 10 de novembro, o governo do primeiro-ministro Pedro Sánchez mostrou firmeza diante dos separatistas.

Segundo Sánchez, as penas serão cumpridas integralmente, enquanto o ministro do Interior, Fernando Grande-Marlaska, descartou qualquer tipo de indulto.

Apesar disso, a lei prevê a possibilidade de liberdade em poucos meses para os dois ativistas, Jordi Sánchez e Jordi Cuixart. Esta decisão depende da administração regional, nas mãos dos separatistas.

– Batalha pela opinião pública –

O anúncio das sentenças abriu uma guerra nos veículos de comunicação entre o governo espanhol e as autoridades regionais.

O ministro de Exteriores, o catalão Josep Borrell, que tem bom trânsito com as autoridades da União Europeia, denunciou a “atitude totalitária” do governo separatista, que “pensa que os catalães são apenas aqueles que seguem suas ideias”.

Segundo uma pesquisa publicada em julho por um instituto ligado ao governo catalão, 44% dos catalães querem a independência, enquanto 48,3% são contrários à iniciativa.

Após visitar alguns dos líderes detidos, o presidente regional, Quim Torra, classificou o julgamento de “pantomima” e convocou pessoalmente a população para as manifestações.