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Se minha geladeira falasse…

Líder mundial na fabricação de motores para refrigeração, a catarinense Embraco, que pertence à Whirlpool, enxerga na tecnologia o único caminho para aquecer seus negócios

Crédito: Claudio Gatti

Luis Felipe Dau, CEO da Embraco: “A Internet das Coisas está revolucionando a indústria eletromecânica e estamos convencidos de que este é o futuro” (Crédito: Claudio Gatti)

Poucas empresas brasileiras se internacionalizaram tanto nas últimas décadas quanto a catarinense Embraco, maior fabricante de compressores de geladeira do mundo, controlada pela americana Whirlpool desde 2006. Atualmente, um em cada cinco motores de refrigeração em funcionamento no planeta leva a marca da empresa sediada em Joinville, fundada em 1974. Sua capacidade de produção, em suas fábricas na China, na Rússia, na Eslováquia, na Itália, no México, além da planta no Brasil, chega a 40 milhões de unidades por ano. Fica fácil entender, embora a empresa não revele seus números, por que a maior parte da sua receita vem de fora. “A melhor maneira de se proteger das oscilações das economias é estar em quase todas elas”, disse à DINHEIRO Luis Felipe Dau, CEO da Embraco. “Quando uma cai, outra sobe. E vice-versa. Assim, um país compensa o outro.”

Foco em pesquisa: As inovações criadas em Joinville são estratégicas não só para a própria Embraco, mas são parte fundamental nos planos de crescimento de sua controladora, a Whirlpool (Crédito:Divulgação)

A fórmula da internacionalização da Embraco, embora tenha sido o principal ingrediente de seu crescimento até agora, não é a estratégia traçada para os próximos anos. Para Dau, o único caminho é a tecnologia. “A chamada ‘Internet das Coisas’ está revolucionando a indústria eletromecânica e estamos convencidos de que este é o futuro”, afirmou o executivo. Com esse pensamento, a empresa está migrando seu core business, gradualmente, de fabricante de motores para uma empresa de TI. Nos últimos anos, 600 cientistas, 120 deles ligados a centros acadêmicos de pesquisas, como o da Universidade Federal de Santa Catarina e o da Universidade da Romênia, foram recrutados pela companhia com um objetivo principal: criar inovações para a indústria e o varejo físico. A mais recente delas, apresentada no último mês, atende pelo nome de Diili.

Trata-se de um sistema instalado em refrigeradores que permite saber, por exemplo, quantas vezes a porta da geladeira de bebidas ou alimentos – em apenas uma ou centenas delas – foi aberta e qual o produto mais consumido. Com isso, compreende o comportamento do consumidor no ponto-de-venda, permitindo análises mais completas sobre o desempenho dos produtos expostos, algo que até então só era possível no e-commerce. Todas as informações são enviadas a um banco de dados em nuvem, que depois ajudaram o estabelecimento a definir estratégias que vão desde o reabastecimento das mercadorias até o controle da potência do refrigerador durante o dia e a noite. “Para as marcas, a novidade representa aumento de vendas, além de reduzir em até 15% os custos de energia.” A geladeira hi-tech indica sua localização e alerta sobre falta de estoque, falhas ou necessidade de manutenção preventiva.

Refrigerador inteligente: com o sistema desenvolvido pela Embraco, os geladeiras controlam seus próprios estoques e gerenciam o consumo de energia de acordo os horários de maior demanda (Crédito:Tânia Rêgo/ABr e Divulgação)

As inovações da Embraco são estratégicas não só para a própria empresa, mas são parte fundamental nos planos de crescimento de sua controladora, a Whirlpool, dona de marcas como Brastemp, Cônsul e KitchenAid. No ano passado, a gigante americana contabilizou um faturamento de US$ 20,7 bilhões, queda de 0,8% sobre o ano anterior. Já no Brasil, mesmo com a recessão na economia, as vendas foram de R$ 11,6 bilhões, resultado ligeiramente melhor que os R$ 11,5 bilhões do ano anterior. “Se compararmos esses números com o desempenho da economia, pode-se até comemorar”, diz Raniel Nunes, consultor de varejo.

Embora nem a Embraco e nem a Whirlpool revelem detalhes de suas operações, estima-se que cerca 8% do resultado consolidado do grupo venha da Embraco – algo em torno de R$ 1 bilhão. Os avanços tecnológicos da empresa são, portanto, essenciais para o sucesso da Whirlpool como grupo. Em recente entrevista a jornalistas americanos, o CEO mundial da companhia reafirmou que sua aposta para os próximos anos se concentra na Ásia e na América Latina. Para a Whirlpool, portanto, a Embraco será cada vez mais uma fonte de novas tecnologias e de lucro, muito mais do que uma fabricante de compressores.