Edição nº 1108 15.02 Ver ediçõs anteriores

Entrevista

Jens Arnold, economista-chefe para Brasil e Argentina da OCDE

Se as reformas forem feitas, o Brasil pode crescer acima da média mundial

ITS Photo/Leandro Arruda

Se as reformas forem feitas, o Brasil pode crescer acima da média mundial

Leonardo Motta
Edição 07/12/2018 - nº 1099

O crescimento da economia brasileira nos próximos anos poderá ficar acima do resto mundo, que já iniciou um processo de desaceleração.Embora o Brasil ainda não seja membro oficial da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), entidade conhecida informalmente como clube das nações ricas, o País é visto com atenção pelos seus membros. A ponto de haver nos quadros da OCDE um economista dedicado exclusivamente à análise das políticas adotadas pelo governo brasileiro: o alemão Jens Arnold. Da sede da instituição, em Paris, ele falou à DINHEIRO sobre a importância das reformas para colocar a economia brasileira nos trilhos e destacou a necessidade de se avançar na abertura comercial. Arnold destacou também que as privatizações, tema estratégico para o plano econômico do próximo governo, devem ser analisadas sem viés ideológico. Por acumular a responsabilidade de seguir de perto a economia argentina, ele tem razões para crer que o pior da crise no país vizinho já passou. E faz questão de deixar um alerta importante para ambos os países: “o crescimento global atingiu seu pico.”

DINHEIRO – Quais serão os principais desafios da economia brasileira nos próximos quatro anos?

JENS ARNOLD — O mais importante é fazer reformas. Os primeiros dois meses do novo governo serão observados com grande interesse, para ver até que ponto haverá capacidade de implementá-las. Estou me referindo, em primeiro lugar, a uma reforma da Previdência, porque isso é muito importante para a sustentabilidade das contas fiscais. Em segundo lugar, é preciso haver avanços na produtividade. Quando você compara o Brasil com outras economias, tanto emergentes quanto avançadas, fica claro quão lento o crescimento da produtividade tem sido no País. Isso se deve a políticas econômicas internas desfavoráveis, a um sistema tributário muito complexo, a um sistema judicial que apresenta um desempenho aquém do esperado e ao que eu considero ser o elefante na sala – o baixo nível de abertura internacional da economia. Há muitos benefícios que podem ser obtidos com uma integração maior com o mundo, tanto em termos de tarifas quanto de bens de conteúdo local.

Sede da Petrobras no Rio de Janeiro. Venda de negócios da estatal para o setor privado deve ser avaliada separadamente (Crédito:FÁBIO MOTTA)

DINHEIRO — Como isso se traduz em crescimento?

ARNOLD — De duas formas. E primeiro lugar, permitindo às empresas brasileiras obter insumos intermediários e bens de capital aos mesmos preços e níveis de qualidade que outros países. Iria ainda expor muitos setores à concorrência, que tem sido fraca devido a uma série de cenários que não levaram os mais fortes a crescer e impediram que os recursos fluíssem para onde eles seriam, de fato, mais produtivos.

DINHEIRO – Setores que hoje são protegidos não seriam bombardeados pela concorrência?

ARNOLD — Sim, isso faz parte do jogo.

DINHEIRO – Como o senhor avalia a presença dos militares no governo. Pode ser uma fonte de preocupação para investidores ou para a OCDE?

ARNOLD – Um governo é eleito para fazer boas políticas e boa governança. Eles ainda não estão no cargo, então não sabemos. Vai depender do que fizerem. Por isso acho tão importante ver como serão os dois primeiros meses, para saber até que ponto eles conseguirão chegar a um consenso político e garantir que as reformas sejam feitas. Não só discutidas, mas implementadas.

DINHEIRO — Não importa, portanto, se o governo é formado por militares?

ARNOLD — O que mais importa é o que eles [os ministros] fizerem e conseguirem fazer em termos de desenho das políticas econômicas.

DINHEIRO – Entre as políticas previstas pelo novo governo, há uma grande proposta de privatizações. Qual é a sua avaliação sobre isso?

ARNOLD – Não acho que seja uma questão preto no branco. Se olharmos especificamente para o exemplo brasileiro, tem havido problemas na governança de empresas do setor público. Basta pensar nas indicações políticas, em que os cargos se tornam alvo de barganhas e o resultado desse jogo dificilmente leva à escolha do melhor profissional. Nesse contexto, é concebível que a gestão privada possa levar a uma melhor governança. Há espaço para melhorias. Seria uma boa ideia separar decisões econômicas relacionadas a empresas públicas do processo político. Acho que há espaço para ganho de eficiência com as privatizações. Mas isso não significa que você tenha que privatizar necessariamente tudo o que é público.

DINHEIRO – Como é possível aprimorar o processo?

ARNOLD – Deve-se olhar para cada caso e fazer uma análise. A ideologia nunca deveria ser a razão para privatizar ou não privatizar. A decisão deve ser o resultado de deliberações muito cuidadosas, de análises econômicas que comparem as desvantagens e os benefícios. Não é como se o debate se dividisse entre privatizar tudo ou nada.

DINHEIRO – Há quem defenda que a crise fiscal justifica as privatizações. É um argumento válido?

ARNOLD – Quando você privatiza uma empresa, obviamente obtém alguma receita, o que é atraente, mas só pode ser feito uma vez. Você fica com o dinheiro, mas sem o ativo. Não acho que seja um forte argumento para a privatização. O argumento real deveria ser: “Acreditamos que uma estrutura de governança feita pelo setor privado seria mais eficien te e faria mais bem à economia do que a gestão feita pelo governo em uma empresa pública?”

DINHEIRO – A Petrobras deve ser privatizada?

ARNOLD — É mais importante pensar: “existem partes da empresa em que a gestão privada poderia resultar em melhores resultados? Todas as partes são importantes?” Além disso, há outras maneiras de o governo trazer mais produtividade ao setor. A privatização não precisa ser o único foco. Existem partes do setor em que a competição poderia ser mais bem aproveitada sem a participação da própria Petrobras.

OCDE, com sede em Paris, reúne as principais economias do mundo. O pedido de ingresso do Brasil como membro, feito em junho de 2017, está sob avaliação (Crédito:Divulgação)

DINHEIRO – O que falta para o Brasil se tornar membro da OCDE?

ARNOLD — No passado, o Brasil não priorizou a adesão à OCDE. Só agora o País entrou com um pedido formal e essa solicitação está sendo considerada pelos países membros. Não há obstáculo concreto, mas é uma escolha política. Tem de ser uma decisão unânime e, no momento, não há unanimidade sobre isso. Mesmo assim, o Brasil já é um dos mais engajados com a OCDE. Basta ver o número de comitês dos quais participa.

DINHEIRO – No último relatório, a OCDE reduziu a previsão do PIB mundial de 3,7% para 3,5% em 2019. Como o Brasil será afetado?

ARNOLD — O crescimento global atingiu o seu pico. Nos próximos anos, as taxas serão menores, sobretudo a partir de 2020. Para o Brasil, será um pouco diferente. Projetamos 1,2% de expansão em 2018, 2,1% em 2019 e 2,4% em 2020. Se as reformas forem feitas, o Brasil pode crescer acima da média mundial. O Brasil ainda pode ser afetado pelo resto do mundo? Bem, um dos riscos que destacamos é o fato de que as tensões comerciais passam a se tornar mais intensas. Nesse caso, o Brasil poderia ser afetado, mas como é uma economia relativamente fechada, esse provavelmente não seria o fator mais importante para o crescimento. Ainda assim, poderia prejudicar e diminuir alguns pontos percentuais de PIB.

DINHEIRO – Como o senhor avalia a situação da Argentina? É possível notar alguma melhora após a renegociação com o Fundo Monetário Internacional (FMI)?

ARNOLD — As mudanças no acordo com o FMI exigem uma postura muito mais rígida sobre a política macroeconômica, tanto na área fiscal quanto na monetária. Ajudam claramente a restaurar a confiança e a estabilizar a economia. Nas últimas semanas, a taxa de câmbio tem estado razoavelmente estável, então achamos que, por enquanto, a tempestade deu uma trégua. Ao mesmo tempo, essas políticas macroeconômicas mais rigorosas terão um impacto recessivo, pelo menos no curto prazo. As questões agora são: “quanto tempo essa recessão vai durar? Será profunda e curta? Há chances de um retorno para um PIB trimestral positivo já em meados do próximo ano?” Esse é o nosso cenário-base. Diria que as perspectivas para a economia argentina não são tão ruins, mas há obviamente riscos. Algum evento nos mercados ou na política interna poderia desencadear outra crise aguda, com depreciação do câmbio e efeitos sobre as variáveis econômicas. Ou seja, a tempestade ainda não passou completamente.

DINHEIRO – De que forma o problema nos outros países emergente pode contaminar o Brasil?

ARNOLD — Vi no passado os efeitos colaterais de uma economia emergente para outra. Se você pensar na segunda onda de desvalorização da moeda na Argentina, aconteceu logo após a depreciação na Turquia. Então, pode haver sim efeitos colaterais de uma grande crise nas economias emergentes. Certamente nas mais fracas, como a Argentina, mas também nas mais fortes, que iclui o Brasil. Mas ainda não vejo nenhuma razão agora para esse tipo de cenário. Pensando em investimentos, eu diria que o Brasil tem atratividade suficiente por si só e não depende do que acontece em outros países. Há um enorme potencial. Se o Brasil fizer as coisas certas para reduzir custos e melhorar a concorrência e a produtividade, acho que pode atrair muito mais investimentos do que no passado e se manter firme.

Brasil

Fronteira com Venezuela já está fechada, diz governador de Roraima

Receita Federal invalida CNPJ de 3,3 milhões de empresas

inaptidão

Receita Federal invalida CNPJ de 3,3 milhões de empresas

Capitalização da Eletrobras pode acontecer este ano

Estatal elétrica

Capitalização da Eletrobras pode acontecer este ano

PF deflagra ação para desarticular organização internacional de drogas

Investigação

PF deflagra ação para desarticular organização internacional de drogas

Ibovespa se recupera e fecha em alta de 0,40% com ajuda de Petrobras e bancos

Mercado financeiro

Ibovespa se recupera e fecha em alta de 0,40% com ajuda de Petrobras e bancos

Dólar sobe 0,75% em novo dia de cautela com reforma da Previdência

Câmbio

Dólar sobe 0,75% em novo dia de cautela com reforma da Previdência

Gata pode herdar parte da fortuna de US$ 195 milhões de Karl Lagerfeld

estilo

Gata pode herdar parte da fortuna de US$ 195 milhões de Karl Lagerfeld

Com mais de 235 mil seguidores no Instagram e mais de 50 mil no Twitter, Choupette é acostumada a comer em pratos de prata e tem uma equipe de empregados à sua disposição


Blogs e Colunas

Negócios na esteira da biotecnologia

Empreendedorismo Sustentável

Empreendedorismo Sustentável

Negócios na esteira da biotecnologia

Tecnologia de purificação de água, desenvolvida na Austrália, deu origem à paulista O2Eco que deve fechar o ano com faturamento de R$ 5 milhões


Negócios e Tecnologia


Disney e Nestlé tiram anúncios do YouTube após suspeita de pedofilia

polêmica

Disney e Nestlé tiram anúncios do YouTube após suspeita de pedofilia

Empresas tomaram medida depois que vídeo denunciou como as ações de propaganda eram usadas em redes de exploração sexual infantil

Campanha incentiva denúncias de trabalhadores da indústria de tecnologia

conscientização

Campanha incentiva denúncias de trabalhadores da indústria de tecnologia

Site SpeakOut.Tech permite que tralhadores denuncia assédios, abusos e outras atividades antiéticas das corporações do Vale do Silício


Artigos


A Netflixazação da TV: será o fim do sistema como conhecemos?

comportamento

A Netflixazação da TV: será o fim do sistema como conhecemos?

Assim como a inovação radical advinda da digitalização dos negócios vem atingindo todos os setores que conhecemos, o mercado de entretenimento também não será poupado. E isso inclui sua TV

Cyberstalking: aprenda os perigos e saiba como se proteger

crime

Cyberstalking: aprenda os perigos e saiba como se proteger

Potencializada pelo avanço das mídias sociais, ato é a versão virtual do stalking, comportamento que envolve perseguição ou ameaças contra uma pessoa


Brasil


Pão de Açúcar anuncia investimento de até R$ 1,8 bi em 2019

supermercados

Pão de Açúcar anuncia investimento de até R$ 1,8 bi em 2019

Gerdau reverte prejuízo e tem lucro de R$ 389 milhões no 4º trimestre

indústria

Gerdau reverte prejuízo e tem lucro de R$ 389 milhões no 4º trimestre


Internacional


Fim de tarifas de aço e alumínio no novo Nafta beneficiaria EUA, diz ministro

Economia

Fim de tarifas de aço e alumínio no novo Nafta beneficiaria EUA, diz ministro

Pelosi quer bloquear manobra de Trump para construir muro

polêmica

polêmica

Pelosi quer bloquear manobra de Trump para construir muro

Virgin Galactic fará novo teste de foguete para turismo espacial nesta sexta

tecnologia

tecnologia

Virgin Galactic fará novo teste de foguete para turismo espacial nesta sexta

Oposição húngara critica governo por acolher refugiados venezuelanos

Resistência

Resistência

Oposição húngara critica governo por acolher refugiados venezuelanos

Enquanto Bolsonaro não voltava

EDITORIAL

EDITORIAL

Enquanto Bolsonaro não voltava

O País andou nos últimos dias na cadência de espera pela melhora da saúde do presidente. Ficou tudo na dependência da alta de Bolsonaro


Finanças

Tá sobrando dinheiro

empréstimo

Tá sobrando dinheiro

Em 2018, as empresas brasileiras captaram um valor recorde em empréstimos sindicalizados. E 2019 promete ser melhor ainda

O leão à espreita das viúvas

investidores

O leão à espreita das viúvas

Governo estuda taxar dividendos por meio do IR. Isso pode afetar os investimentos, as empresas e quem vive de renda

Pode cair a especulativo

nota da vale

Pode cair a especulativo

E ele só queria um Conga. Hoje fatura R$ 6 milhões por ano

superação

superação

E ele só queria um Conga. Hoje fatura R$ 6 milhões por ano

A incrível história do menino pobre que ficou rico, ficou pobre de novo e hoje dá aulas ensinando os outros a ganhar dinheiro


Entrevista

“Nosso grande combate é contra o dinheiro”

Fernanado Telles, diretor geral da Visa no Brasil

Fernanado Telles, diretor geral da Visa no Brasil

“Nosso grande combate é contra o dinheiro”

Um mundo cada vez menos dependente de bancos e sem moeda física. Este é o sonho da Visa e de seu líder no Brasil, que quer fazer da empresa a maior do mercado de pagamentos no País — e isso inclui uma revolução financeira em um paraíso natural


Economia


Aquele degrauzinho abaixo nos juros

previsão para taxa básica

Aquele degrauzinho abaixo nos juros

Mudanças nos cenários externo e interno reduzem previsão da taxa básica e mantém índice Selic no patamar mais baixo da história

R$ 400 bi em impostos. E o retorno?

tributos

R$ 400 bi em impostos. E o retorno?

E a conta só vai aumentar. Até o fim do ano, o impostômetro irá registrar que o brasileiro vai pagar uma conta de R$ 2,6 trilhões


Sem fronteiras para baixar o custo da energia

tarifas

Sem fronteiras para baixar o custo da energia

Governo Bolsonaro tem a rara oportunidade de reduzir tarifas caso vença o desafio de negociar bem o contrato de Itaipu, com o Paraguai, e do gasoduto binacional, com a Bolívia

A economia segundo Ricardo Boechat

homenagem

A economia segundo Ricardo Boechat

Genial nas análises, o jornalista morto em acidente aéreo era um grande defensor dos contribuintes brasileiros, combatendo injustiças com veemente indignação e rara clareza intelectual


Artigo

Brasil precisa investir em tecnologia para as cidades

por Jorge Arduh

por Jorge Arduh

Brasil precisa investir em tecnologia para as cidades

Sistemas de videovigilância baseados em Inteligência Artificial aprimoram a segurança, essencial para o futuro das cidades


Mercado Digital

Microsoft aposta no Brasil

inovação

inovação

Microsoft aposta no Brasil

Em visita ao País, o CEO da companhia, Satya Nadella, mostra como pretende revolucionar a tecnologia investindo em Inteligência Artificial


Negócios


O novo estilo Renner

rede varejista

O novo estilo Renner

A empresa aproveitou a crise para ampliar mercados, diversificar a operação e assumir o protagonismo no varejo de vestuário. O foco agora é avançar a transformação digital

O Dia depois de amanhã

crise

O Dia depois de amanhã

Passados os anos de forte crescimento nas vendas, a varejista lida com queda nas receitas e uma suspeita de fraude contábil


Estilo

O jazz não pode morrer, tá ligado?

cultura

cultura

O jazz não pode morrer, tá ligado?

Blue note, a casa que ajudou a preservar a história do gênero nos EUA, ganha versão paulistana em um endereço icÔnico da cidade: o Conjunto Nacional


Colunas


Cimed encontra a fórmula do crescimento

Moeda Forte

Cimed encontra a fórmula do crescimento

Seja caridoso: ajude o co-fundador do WhatsApp a se livrar de 10 Porsches

Cobiça

Seja caridoso: ajude o co-fundador do WhatsApp a se livrar de 10 Porsches


Publieditorial

Gestão de Produção é uma exigência para o futuro da indústria. Como atender?

Fundação Vanzolini apresenta:

Fundação Vanzolini apresenta:

Gestão de Produção é uma exigência para o futuro da indústria. Como atender?


Publieditorial

Transformação Digital em serviços financeiros: o caminho para fidelizar o cliente

Dedalus apresenta:

Dedalus apresenta:

Transformação Digital em serviços financeiros: o caminho para fidelizar o cliente

X

Copyright © 2019 - Editora Três
Todos os direitos reservados.

Nota de esclarecimento A Três Comércio de Publicaçõs Ltda. (EDITORA TRÊS) vem informar aos seus consumidores que não realiza cobranças por telefone e que também não oferece cancelamento do contrato de assinatura de revistas mediante o pagamento de qualquer valor. Tampouco autoriza terceiros a fazê-lo. A Editora Três é vítima e não se responsabiliza por tais mensagens e cobranças, informando aos seus clientes que todas as medidas cabíveis foram tomadas, inclusive criminais, para apuração das responsabilidades.