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Entrevista

Jens Arnold, economista-chefe para Brasil e Argentina da OCDE

Se as reformas forem feitas, o Brasil pode crescer acima da média mundial

ITS Photo/Leandro Arruda

Se as reformas forem feitas, o Brasil pode crescer acima da média mundial

Leonardo Motta
Edição 07/12/2018 - nº 1099

O crescimento da economia brasileira nos próximos anos poderá ficar acima do resto mundo, que já iniciou um processo de desaceleração.Embora o Brasil ainda não seja membro oficial da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), entidade conhecida informalmente como clube das nações ricas, o País é visto com atenção pelos seus membros. A ponto de haver nos quadros da OCDE um economista dedicado exclusivamente à análise das políticas adotadas pelo governo brasileiro: o alemão Jens Arnold. Da sede da instituição, em Paris, ele falou à DINHEIRO sobre a importância das reformas para colocar a economia brasileira nos trilhos e destacou a necessidade de se avançar na abertura comercial. Arnold destacou também que as privatizações, tema estratégico para o plano econômico do próximo governo, devem ser analisadas sem viés ideológico. Por acumular a responsabilidade de seguir de perto a economia argentina, ele tem razões para crer que o pior da crise no país vizinho já passou. E faz questão de deixar um alerta importante para ambos os países: “o crescimento global atingiu seu pico.”

DINHEIRO – Quais serão os principais desafios da economia brasileira nos próximos quatro anos?

JENS ARNOLD — O mais importante é fazer reformas. Os primeiros dois meses do novo governo serão observados com grande interesse, para ver até que ponto haverá capacidade de implementá-las. Estou me referindo, em primeiro lugar, a uma reforma da Previdência, porque isso é muito importante para a sustentabilidade das contas fiscais. Em segundo lugar, é preciso haver avanços na produtividade. Quando você compara o Brasil com outras economias, tanto emergentes quanto avançadas, fica claro quão lento o crescimento da produtividade tem sido no País. Isso se deve a políticas econômicas internas desfavoráveis, a um sistema tributário muito complexo, a um sistema judicial que apresenta um desempenho aquém do esperado e ao que eu considero ser o elefante na sala – o baixo nível de abertura internacional da economia. Há muitos benefícios que podem ser obtidos com uma integração maior com o mundo, tanto em termos de tarifas quanto de bens de conteúdo local.

Sede da Petrobras no Rio de Janeiro. Venda de negócios da estatal para o setor privado deve ser avaliada separadamente (Crédito:FÁBIO MOTTA)

DINHEIRO — Como isso se traduz em crescimento?

ARNOLD — De duas formas. E primeiro lugar, permitindo às empresas brasileiras obter insumos intermediários e bens de capital aos mesmos preços e níveis de qualidade que outros países. Iria ainda expor muitos setores à concorrência, que tem sido fraca devido a uma série de cenários que não levaram os mais fortes a crescer e impediram que os recursos fluíssem para onde eles seriam, de fato, mais produtivos.

DINHEIRO – Setores que hoje são protegidos não seriam bombardeados pela concorrência?

ARNOLD — Sim, isso faz parte do jogo.

DINHEIRO – Como o senhor avalia a presença dos militares no governo. Pode ser uma fonte de preocupação para investidores ou para a OCDE?

ARNOLD – Um governo é eleito para fazer boas políticas e boa governança. Eles ainda não estão no cargo, então não sabemos. Vai depender do que fizerem. Por isso acho tão importante ver como serão os dois primeiros meses, para saber até que ponto eles conseguirão chegar a um consenso político e garantir que as reformas sejam feitas. Não só discutidas, mas implementadas.

DINHEIRO — Não importa, portanto, se o governo é formado por militares?

ARNOLD — O que mais importa é o que eles [os ministros] fizerem e conseguirem fazer em termos de desenho das políticas econômicas.

DINHEIRO – Entre as políticas previstas pelo novo governo, há uma grande proposta de privatizações. Qual é a sua avaliação sobre isso?

ARNOLD – Não acho que seja uma questão preto no branco. Se olharmos especificamente para o exemplo brasileiro, tem havido problemas na governança de empresas do setor público. Basta pensar nas indicações políticas, em que os cargos se tornam alvo de barganhas e o resultado desse jogo dificilmente leva à escolha do melhor profissional. Nesse contexto, é concebível que a gestão privada possa levar a uma melhor governança. Há espaço para melhorias. Seria uma boa ideia separar decisões econômicas relacionadas a empresas públicas do processo político. Acho que há espaço para ganho de eficiência com as privatizações. Mas isso não significa que você tenha que privatizar necessariamente tudo o que é público.

DINHEIRO – Como é possível aprimorar o processo?

ARNOLD – Deve-se olhar para cada caso e fazer uma análise. A ideologia nunca deveria ser a razão para privatizar ou não privatizar. A decisão deve ser o resultado de deliberações muito cuidadosas, de análises econômicas que comparem as desvantagens e os benefícios. Não é como se o debate se dividisse entre privatizar tudo ou nada.

DINHEIRO – Há quem defenda que a crise fiscal justifica as privatizações. É um argumento válido?

ARNOLD – Quando você privatiza uma empresa, obviamente obtém alguma receita, o que é atraente, mas só pode ser feito uma vez. Você fica com o dinheiro, mas sem o ativo. Não acho que seja um forte argumento para a privatização. O argumento real deveria ser: “Acreditamos que uma estrutura de governança feita pelo setor privado seria mais eficien te e faria mais bem à economia do que a gestão feita pelo governo em uma empresa pública?”

DINHEIRO – A Petrobras deve ser privatizada?

ARNOLD — É mais importante pensar: “existem partes da empresa em que a gestão privada poderia resultar em melhores resultados? Todas as partes são importantes?” Além disso, há outras maneiras de o governo trazer mais produtividade ao setor. A privatização não precisa ser o único foco. Existem partes do setor em que a competição poderia ser mais bem aproveitada sem a participação da própria Petrobras.

OCDE, com sede em Paris, reúne as principais economias do mundo. O pedido de ingresso do Brasil como membro, feito em junho de 2017, está sob avaliação (Crédito:Divulgação)

DINHEIRO – O que falta para o Brasil se tornar membro da OCDE?

ARNOLD — No passado, o Brasil não priorizou a adesão à OCDE. Só agora o País entrou com um pedido formal e essa solicitação está sendo considerada pelos países membros. Não há obstáculo concreto, mas é uma escolha política. Tem de ser uma decisão unânime e, no momento, não há unanimidade sobre isso. Mesmo assim, o Brasil já é um dos mais engajados com a OCDE. Basta ver o número de comitês dos quais participa.

DINHEIRO – No último relatório, a OCDE reduziu a previsão do PIB mundial de 3,7% para 3,5% em 2019. Como o Brasil será afetado?

ARNOLD — O crescimento global atingiu o seu pico. Nos próximos anos, as taxas serão menores, sobretudo a partir de 2020. Para o Brasil, será um pouco diferente. Projetamos 1,2% de expansão em 2018, 2,1% em 2019 e 2,4% em 2020. Se as reformas forem feitas, o Brasil pode crescer acima da média mundial. O Brasil ainda pode ser afetado pelo resto do mundo? Bem, um dos riscos que destacamos é o fato de que as tensões comerciais passam a se tornar mais intensas. Nesse caso, o Brasil poderia ser afetado, mas como é uma economia relativamente fechada, esse provavelmente não seria o fator mais importante para o crescimento. Ainda assim, poderia prejudicar e diminuir alguns pontos percentuais de PIB.

DINHEIRO – Como o senhor avalia a situação da Argentina? É possível notar alguma melhora após a renegociação com o Fundo Monetário Internacional (FMI)?

ARNOLD — As mudanças no acordo com o FMI exigem uma postura muito mais rígida sobre a política macroeconômica, tanto na área fiscal quanto na monetária. Ajudam claramente a restaurar a confiança e a estabilizar a economia. Nas últimas semanas, a taxa de câmbio tem estado razoavelmente estável, então achamos que, por enquanto, a tempestade deu uma trégua. Ao mesmo tempo, essas políticas macroeconômicas mais rigorosas terão um impacto recessivo, pelo menos no curto prazo. As questões agora são: “quanto tempo essa recessão vai durar? Será profunda e curta? Há chances de um retorno para um PIB trimestral positivo já em meados do próximo ano?” Esse é o nosso cenário-base. Diria que as perspectivas para a economia argentina não são tão ruins, mas há obviamente riscos. Algum evento nos mercados ou na política interna poderia desencadear outra crise aguda, com depreciação do câmbio e efeitos sobre as variáveis econômicas. Ou seja, a tempestade ainda não passou completamente.

DINHEIRO – De que forma o problema nos outros países emergente pode contaminar o Brasil?

ARNOLD — Vi no passado os efeitos colaterais de uma economia emergente para outra. Se você pensar na segunda onda de desvalorização da moeda na Argentina, aconteceu logo após a depreciação na Turquia. Então, pode haver sim efeitos colaterais de uma grande crise nas economias emergentes. Certamente nas mais fracas, como a Argentina, mas também nas mais fortes, que iclui o Brasil. Mas ainda não vejo nenhuma razão agora para esse tipo de cenário. Pensando em investimentos, eu diria que o Brasil tem atratividade suficiente por si só e não depende do que acontece em outros países. Há um enorme potencial. Se o Brasil fizer as coisas certas para reduzir custos e melhorar a concorrência e a produtividade, acho que pode atrair muito mais investimentos do que no passado e se manter firme.


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