Edição nº 1147 18.11 Ver ediçõs anteriores

Entrevista

Daniel Mendez, presidente da Sapore

Investir em startups melhora a cultura da empresa

Gabriel Reis

Investir em startups melhora a cultura da empresa

Maior companhia latino-americana de serviços de alimentação com capital 100% nacional, a Sapore quer crescer transformando cada um de seus setores em uma nova empresa. E está disposta a pagar até R$ 3 milhões por quem traga soluções disruptivas para o negócio

Celso Masson
Edição 04/10/2019 - nº 1141

Com 1,3 milhão de refeições servidas todos os dias para 900 clientes, vários deles do porte de Ambev. Volkswagen e Magazine Luiza, a brasileira Sapore, fundada em 1992 por Daniel Mendez em Campinas (SP), deverá superar os R$ 2 bilhões de faturamento este ano. Depois de focar na oferta de alimentação mais saudável para estudantes com a marca Dez, lançada em 2017, a empresa agora vive sua transformação digital, com investimentos em startups e a busca de soluções mais eficientes para seus processos — o que inclui o uso de novas tecnologias também para combater o desperdício de alimentos. Mas seu maior esforço é para se recriar continuamente.

DINHEIRO – O que levou a Sapore a deixar de pensar apenas no negócio de alimentação para atuar como uma empresa baseada em tecnologia?

DANIEL MENDEZ – A gente acredita muito que o digital pode movimentar o nosso mercado. O setor de alimentação passou um bom tempo sem grandes mudanças. Até que a entrada de novos players, caso de iFood, Uber Eats e Glovo, trouxe um outro tipo de abordagem, a partir da captura dos dados dos clientes. Isso faz com que o negócio deles seja mais baseado em tecnologia do que propriamente em alimentação. A partir desse movimento passamos a enxergar que o nosso futuro poderia estar nessa direção. Até porque somos precursores do uso de tecnologia no nosso setor. Há 15 anos introduzimos os alimentos processados — e até hoje somos a única empresa de refeições que desenvolveu essa tecnologia. Também contratamos uma consultoria para melhorar os indicadores de performance de produtividade, o que tornou nossa operação, em média, 20% mais produtiva que a dos nossos maiores competidores, que são multinacionais.

DINHEIRO – De que forma o investimento em startups pode melhorar o negócio da Sapore?

MENDEZ – A primeira empresa de tecnologia na qual nós investimos foi a LinkApi, que eu conheci através do meu filho. Eles nos trouxeram uma solução para integrar todos os nossos sistemas de informática de uma forma muito mais amigável. Quando eu vi o quanto essa mudança na área de TI estava agilizando o funcionamento da empresa, decidi fazer novos aportes em outras quatro ou cinco startups. Trouxemos o próprio Thiago Lima, que é o CEO da LinkApi, para ser conselheiro da Sapore. Ele não chega a ter 30 anos. Isso tudo promoveu uma transformação. Claro que temos conselheiros mais velhos também, mas contar com alguém que é 100% da área de tecnologia é algo que tem feito com que nosso caminhar seja melhor e mais seguro. Hoje somos um dos mantenedores do Cubo [maior centro de empreendedorismo tecnológico da América Latina, idealizado em 2015 pelo Itaú em parceria com a Redpoint].

DINHEIRO – Qual o critério de escolha para investir em uma startup?

MENDEZ – Todas as empresas foram escolhidas de acordo com seu potencial de acelerar o crescimento da Sapore. Além da tecnologia, essas empresas têm um olhar inovador sobre o comportamento dos negócios. Elas nos trazem muito aprendizado. Em breve, eu credito, trarão mudanças significativas na própria gestão da companhia. Temos a crença de que todos os nossos setores poderão em breve se tornar novas empresas, atuando como fornecedores para a Sapore e para o mercado, incluindo nossos competidores.

DINHEIRO – Como isso vem ocorrendo na prática?

MENDEZ – Nosso trabalho está voltado para que a Sapore forneça escala para que essas startups cresçam, ao mesmo tempo em que viabilizem a transformação em novos negócios das unidades da empresa com as quais trabalham em conjunto. Um bom exemplo é o Unifacilities Sapore. Como o próprio nome sugere, atua no segmento de facilities [segurança, limpeza, jardinagem]. Ela trabalha em sinergia administrativa com a Sapore, mas com operações distintas e supervisores independentes.

DINHEIRO – Há outros exemplos?

MENDEZ – A CMV, que atua na área de tecnologia voltada para compras e que não é nossa, mas da qual somos investidores, e a Global 10, uma distribuidora. Há várias outras que chegam até nós com o propósito de firmar parcerias e que estamos analisando. Se trouxerem mais receita para a Sapore, podemos nos tornar investidores. Desde que elas tenham crescimento médio nos últimos 12 meses maior que 7%, receita de R$ 100 mil a R$ 500 mil por mês e capacidade de escalonar através da tecnologia. O nosso tíquete de compra é de R$ 1 milhão a R$ 3 milhões.

DINHEIRO – Além do aporte financeiro, o que mais a Sapore pode entregar a essas empresas?

MENDEZ – A nossa inteligência. Somos uma empresa com uma história de 27 anos, 17 mil colaboradores, faturamento de R$ 2 bilhões por ano. A ideia que nós tínhamos anteriormente era nos tornarmos donos das startups. Hoje o que nós queremos é o compartilhamento. E isso tem mudado o mindset da empresa. Nossa visão é entender o que precisamos e qual a melhor solução que pode ser oferecida. Na área de TI, por exemplo, não é por querermos ser digitais que vamos precisar de Inteligência Artificial ou blockchain. Esses recursos precisam servir a algo na empresa. Devem entrar como ferramentas. Criamos um forte laço entre as áreas de RH e TI para atrair lideranças que tenham uma visão transformadora para a empresa. Quando avaliamos um novo projeto pensamos em quanto ele irá trazer e em quanto tempo. Hoje nossas reuniões são muito mais objetivas. E os resultados já têm aparecido.

DINHEIRO – De que forma é possível transformar uma empresa desse tamanho?

MENDEZ – Não adianta olhar para fora e achar que é lá que está a solução, acreditando que as mudanças ocorrem de fora para dentro. No nosso caso, elas sempre ocorrem a partir de dentro da empresa. Algo que ilustra bem isso é a Escola Sapore, que hoje está se transformando na SIA, sigla em inglês para Service Intelligence Academy (Academia de Serviços Inteligentes). Com nosso parceiro estratégico, poderemos oferecer até o terceiro grau por meio do Ensino a Distância. Isso ajuda muito na performance da companhia. A experiência com a Escola Sapore, depois de 5 milhões de horas de treinamento interno, foi criar uma nova empresa, paralela, que pode ou não continuar fazendo parte da Sapore. Estamos sempre em busca do melhor serviço com o melhor custo.

DINHEIRO – Então, em vez de terceirizar os serviços, o que vocês fazem é apoiar empresas que ajudem a Sapore a se desenvolver…

MENDEZ – É exatamente essa a nossa visão. Tanto que os nossos departamentos tradicionais já estão com a missão de se tornar empresas. Isso está ocorrendo neste momento na área de compras. Nosso negócio está muito mais em cuidar do cliente e dar para ele as melhores condições, inclusive de custo. Se você tem uma estrutura muito pesada, não consegue reduzir o custo. Ao virar empresa, cada setor passa a contar com um resultado que não é só da Sapore. Não se trata apenas de deixar a empresa mais leve, mas também de capturar no mercado o que há de mais novo naquela área de atuação. Eu achei que estava sendo inovador nisso, mas acabo de falar com um fornecedor nosso, de equipamentos, que está fazendo a mesma coisa na Itália. Isso dá foco e permite avaliar melhor os resultados de cada área, que passa a investir no que é bom para ela, não só para a Sapore.

DINHEIRO – Para melhorar a gestão é preciso entender quais os desafios que cabem à área…

MENDEZ – Claro. Uma pessoa que é responsável por 6 mil refeições não pode ser submetida às mesmas metas de uma pessoa que responde por 100 refeições. É preciso desafiar as pessoas dentro do seu próprio ecossistema e da sua capacidade. Estamos trabalhando com empresas que têm esse mesmo mindset, caso de Cubo, WeWork… fizemos proposta para a Vitacon. Estamos querendo fazer as coisas de um jeito diferente.

DINHEIRO – Mudar o modelo mental depende mais de trazer pessoas de fora ou de desafiar quem está dentro?

MENDEZ – A gente fala sempre disso. Como fazer da própria Sapore um laboratório? Mas definitivamente não temos a solução. Eu não imaginava que seria investidor de um percentual de uma empresa de tecnologia. Minha mãe sempre me dizia um provérbio espanhol segundo o qual é preferível ser “cabeza de ratón que rabo de león”. Eu fui criado em uma visão de que era preciso ter o controle. Hoje entendo que é preciso compartilhá-lo. Temos conseguido índices adequados de crescimento, estamos melhores que nossos concorrentes em muitos aspectos, mas precisamos seguir inovando. Anos atrás fizeram uma reportagem comigo na IstoÉ DINHEIRO com o título “O rei das quentinhas”. Eu fiquei bravo, porque não fazia nenhuma quentinha naquela época e achava o termo pejorativo. Hoje eu acharia ótimo, porque uma das coisas mais interessantes no nosso setor foi a marmita. Ela permite uma alimentação personalizada, com o que você quer, dentro das suas características. O que algum tempo atrás me chateou, hoje me deixaria muito satisfeito.

DINHEIRO – As pessoas estão buscando se alimentar de maneira mais saudável. Como isso interfere no negócio de alimentação nas empresas?

MENDEZ – Cada vez mais a gente acredita na questão do DNA. A dieta precisa ser adequada ao que cada um necessita. A alimentação é fundamental para dar qualidade de vida às pessoas, não apenas no longo prazo, em termos de promover a longevidade, mas para deixar as pessoas bem preparadas para as atividades do dia-a-dia. Por isso nosso crescimento tem sido tão grande nas escolas. Existia uma demanda por comida saudável da parte dos estudantes que o nosso segmento não sabia atender. Agora temos opções de cardápios inteiros sem sal e sem açúcar refinados. É possível mudar paradigmas. Sabemos que crianças saem da escola e vão comer hambúrguer na lanchonete. Então montamos hamburguerias dentro das escolas. Dá para fazer 100% saudável? Não, mas eu prefiro que o estudante coma lá dentro do que fora, pois ali a segurança alimentar está garantida. E usamos produtos adequados.

DINHEIRO – O que é possível fazer para reduzir o desperdício quando se serve 1,3 milhão de refeições por dia?

MENDEZ – Nós temos uma série de estudos para lidar com o desperdício de alimentos, que ainda é muito grande, embora tenha diminuído em relação ao passado. Na produção das cozinhas já houve muito ganho, não apenas de ingredientes como de água, energia e até de pessoas. O nosso grande problema — e não apenas nosso, mas do mundo — é o que sobra nos balcões, onde as pessoas se servem. O que trabalhamos com muita força agora é evitar que vá para o lixo o que já foi produzido e servido, mas não consumido.

DINHEIRO – De que forma a tecnologia pode ajudar nesse processo?

MENDEZ – A tecnologia pode nos ensinar como o cliente come, o que ele come e porque ele desiste de comer algo que desejava. Existe um caminho disruptivo aí e nós já estamos nele. São 40 mil refeições jogadas fora, que poderiam alimentar 40 mil pessoas. Em breve vamos poder mostrar resultados consistentes nesse sentido.

economia

Juros fecham em queda no dia, com fatores técnicos, mas acumulam alta na semana


Tecnologia



Sustentabilidade


EUA: Monsanto declara-se culpada por pulverizar agrotóxico proibido no Havaí

Agro

EUA: Monsanto declara-se culpada por pulverizar agrotóxico proibido no Havaí


Internacional


Uruguai caminha para alternância de poder após 15 anos de esquerda

Eleições no domingo

Uruguai caminha para alternância de poder após 15 anos de esquerda

Príncipe Andrew, de filho favorito a playboy destronado da família real britânica

Polêmico

Polêmico

Príncipe Andrew, de filho favorito a playboy destronado da família real britânica

Líbano comemora nascimento da República em plena contestação popular

Oriente médio

Oriente médio

Líbano comemora nascimento da República em plena contestação popular

Protestos resistem no Chile após um mês da explosão social nas ruas

reformas

reformas

Protestos resistem no Chile após um mês da explosão social nas ruas


Blog

Black Friday: momento para vender mais e movimentar a economia do País

Por Cecília Andreucci

Por Cecília Andreucci

Black Friday: momento para vender mais e movimentar a economia do País

A segunda principal data do calendário varejista brasileiro está chegando e já éadotada por outros segmentos e para reforçar o posicionamento de marcas.


Blog

O Brasil está crescendo quase o dobro. E pode avançar mais!

Por Luís Artur Nogueira

Por Luís Artur Nogueira

O Brasil está crescendo quase o dobro. E pode avançar mais!

Nos últimos dias, diversos indicadores econômicos vieram acima das expectativas dos analistas, sinalizando uma retomada do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) neste segundo semestre


Editorial

Pacote aumenta desemprego

Por Carlos José Marques

Por Carlos José Marques

Pacote aumenta desemprego

Ao menos no que tange à ideia de incentivo à geração de empregos, o novo pacote anunciado na semana passada com pompa por Bolsonaro e o czar Paulo Guedes foi algo assim como um tiro pela culatra. Ao se fixar em novas facilidades para as empresas, a equipe econômica abriu margem para um efeito às avessas


Economia


Nem sempre é a economia que derruba presidente

América do Sul

Nem sempre é a economia que derruba presidente

Na América do Sul, tradicionalmente, destituições de líderes estão atreladas a problemas econômicos, fator que não foi decisivo para a situação que a Bolívia vive hoje


Tecnologia

Fake news: o cerco às mídias sociais aperta fundo

Internet

Internet

Fake news: o cerco às mídias sociais aperta fundo

Estudo americano mostra explosão de informação enganosa ao mesmo tempo em que as tech sociais testam sistemas de controle, pressionadas pelo risco de perder audiência e anunciantes


Negócios


Quist Investimentos: caçador de empresas (quase) falidas

Oportunidade

Quist Investimentos: caçador de empresas (quase) falidas

Em tempos de sufoco para as empresas, Quist Investimentos capta fundo de R$ 100 milhões para recuperar COMPANHIAS endividadas

“A reforma da Previdência trouxe boas perspectivas para o futuro”, diz presidnte da Coface

10 perguntas

“A reforma da Previdência trouxe boas perspectivas para o futuro”, diz presidnte da Coface

10 perguntas para Marcele Gomes, presidente da Coface Brasil

A casa de R$ 40 milhões

Em alta

Em alta

A casa de R$ 40 milhões

Shoteby’s negocia no Brasil mansão de 2.565m² de área construída. Mercado do luxo cresce acima da média do segmento e tem variação de 142% em um ano


Finanças

Revolução financeira acelera

Renda variável

Revolução financeira acelera

Migração de recursos para ativos de maior risco como ações, multimercados e fundos estruturados gera novos desafios para bancos e plataformas de investimentos como a intensificação da consultoria aos clientes

Onda jovem na B3

Bolsa de valores

Onda jovem na B3

A maior parte dos investidores que aportam recursos em títulos públicos federais do Tesouro Direto ou em ações pela internet é considerada jovem e antenada com as novas funcionalidades das plataformas de investimentos


Semana

Bolsonaro pede quase R$ 15 bilhões de crédito adicional ao Congresso

Contas públicas

Contas públicas

Bolsonaro pede quase R$ 15 bilhões de crédito adicional ao Congresso

Em tempos de reforma Previdenciária e corte de gastos por todos os lados, o presidente Jair Bolsonaro parece não estar muito preocupado em controlar as próprias despesas. Na segunda-feira 11, o governo apresentou Projetos de Lei (PL) com pedidos de autorização ao Congresso para a abertura de créditos adicionais.


Colunas


Apple e Goldman Sachs investigados por suposta discriminação à mulher

Dinheiro em bits

Apple e Goldman Sachs investigados por suposta discriminação à mulher


Artigo

Democracia Alpha Zero

Por Edson Rossi

Por Edson Rossi

Democracia Alpha Zero

A narrativa liberal precisa corrigir desvios e mirar problemas relacionados às múltiplas desigualdades para que não seja atacada e destruída. E disso depende todo o ecossistema econômico