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São Paulo de quem vive entre as nuvens

Às vezes, é preciso dar um ou dois passos para trás para enxergar melhor. Em uma metrópole com as dimensões de São Paulo, contudo, somente do alto é possível perceber toda essa imensidão. E o impacto pode ir além do espetáculo visual, tão publicado nas redes sociais. No dia em que a capital paulista faz 465 anos, o jornal O Estado de S. Paulo traz histórias de quem passou a ver a cidade de outra forma após encará-la do topo.

Uma delas é o empresário Mauricio Vilela, de 38 anos, que nasceu na zona norte, mora na oeste e trabalha na Avenida Paulista. Quando era mais interessado por tecnologia do que por fotografar, adquiriu um drone em 2017, e fez as primeiras expedições na área central. “O centro não era uma realidade para mim. Meu, eu via e pensava: ‘não tenho noção da cidade onde eu moro’. Com 36, 37 anos, fui conhecer a minha própria cidade.”

Foi pela tela do drone que Vilela descobriu o Teatro Municipal, os edifícios Copan e Martinelli, o Vale do Anhangabaú e o Mosteiro de São Bento. “Que coisa linda, tenho de ir lá conhecer”, pensava, enquanto manipulava o equipamento.

Às vezes, a visita do alto já era seguida de uma no solo, enquanto, em outras, a experiência era reservada para um passeio com a mulher e as duas filhas. “O drone me apresenta de cima e eu vou lá embaixo. O centro me possibilitou muito isso. É um emaranhado, uma quantidade de coisa que não sei falar.”

Vilela começou a compartilhar parte dos registros no perfil Sou Droneiro no Instagram, a fim de levar a mais gente “as belezas” da capital, incluindo aquelas que antes “nem sabia que existiam”. “Conheço vários lugares do mundo, e São Paulo não perde em nada.”

Já o coordenador de manutenção Wilson Moreira, de 47 anos, diz ter visto “de tudo” do alto dos 26 pavimentos do Novotel Jaraguá, no centro. De lá, testemunhou de protestos a blocos de carnaval e corredores da São Silvestre, além das construções que cobriram partes da paisagem, como quase a totalidade do Masp. “Dá para ver até quem fica matando serviço.”

Por vezes, Moreira faz fotos do topo, que tem acesso restrito. Não costuma publicar nas redes, mas algumas vão para grupos de WhatsApp. “Paulistano dorme pensando no que vai fazer no outro dia. (Subir no terraço) É um momento de reflexão.”

Também no centro, o topo do edifício Louvre é o “refúgio” de Karen Checchia, de 30 anos. A empreendedora gastronômica estava em um período de sobrecarga profissional quando teve a ideia: criar um grupo de yoga para moradores no terraço.

As sensações são diferentes de cima, narra Karen. É mais fresco e tem menos estímulo visual. “Por ser muito alto, tem uma visão do horizonte ampla, dá para ver além do mar de prédios, até a Serra da Cantareira. A única coisa triste é enxergar a camada de poluição. O barulho da cidade vira um murmurinho, parece de mar.”

Vizinho do Louvre, o chef italiano Pasquale Mancini, de 60 anos, teve em São Paulo a primeira experiência como morador de uma grande cidade (e fora da Toscana). Quando se fixou na capital, para assumir a cozinha do Terraço Itália, trouxe os trejeitos interioranos: não dispensa o “bom dia”, “boa tarde” e “boa noite”, assim como o café na rua, o jornal na banca e caminhadas pelo entorno. “Me envolvi pelo contraste de situações.”

Se em Florença atendia de 40 a 50 pessoas por noite, hoje se divide entre quatro ambientes e dois andares. Manter a atenção do cliente é mais desafiador. Mas não só pela dimensão. “O meu maior concorrente é a vista.”

Como no Itália, observar São Paulo de cima também é a primeira reação de quem chega no Bar Obelisco, no rooftop do Museu de Arte Contemporânea (MAC) da Universidade de São Paulo (USP). Mais do que as fotos e os papos na beira da sacada, a vista influencia até nas escolhas dos drinques, em que os clássicos, como o cosmopolitan e o dry martini, desbancam os da moda.

“Parece que o lugar chama a pessoa para esse caminho, como alguém que vai em um restaurante cinco estrelas e bebe vinho, mesmo que tome cerveja todos os dias. Combina mais”, diz o bartender Jairo Gama, de 34 anos.

Foi essa vista que destronou um bar russo do topo da lista de locais que Gama desejava trabalhar. Lá, teria vista panorâmica de Moscou, mas não para o Obelisco e o entardecer paulistano. “Quando chove, o céu fica mais estrelado. Já em dia muito poluído, a cidade fica meio fosca.”

Além dos prédios

Piloto de táxi-aéreo Alexandre Souza, de 48 anos, vê São Paulo a 150 metros de altura quase todos os dias. No alto, diz, a cidade também tem tráfego intenso, especialmente nas maiores aerovias, que sobrevoam rios e ferrovias, e são cheias de normas e restrições.

Souza comanda de voos de supervisão técnica a instalações elétricas a passeios panorâmicos pela empresa High Class. Para o público (e ele), o Pico do Jaraguá, na parte norte, e os altos do Paraíso, na zona sul, oferecem as vistas mais impressionantes. “Lá de cima, não se consegue ver o lado ruim, no sentido do vandalismo, das paredes pichadas, dos locais com lixo no chão”, conta.

Também é do Pico do Jaraguá que Joelma Santos, de 35 anos, observa São Paulo. Por lá (e na Serra da Cantareira), ela guia visitas a alguns dos pontos mais altos da cidade. A densidade da vegetação chega a confundir. “Muitas vezes (visitantes) acham que não estão mais na cidade. Quando ficam na mata, perguntam: ‘aqui ainda é São Paulo?'” As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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