Tecnologia

Santa modernidade

Monges que fazem a melhor cerveja do planeta abrem vendas por e-commerce

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Abadia ST-Sixtus: já é possível comprar a melhor das cervejas pela internet, mas a retirada deve ser feita ali, a duas horas de Bruxelas (Crédito: Divulgação)

Tem muita gente que pensa que a tecnologia é o novo Santo Graal. Aparentemente essas pessoas estão certas. Na terça-feira 18 começou a operar o serviço de e-commerce da cervejaria, ops, Abadia de Saint-Sixtus, na Bélgica. É quase um milagre para os amantes da bebida, já que sai dali, numa cidadezinha chamada Vleteren, de 3.672 habitantes, a duas horas de carro de Bruxelas, aquela que é considerada a melhor cerveja do mundo — a Westvleteren 12.

A abadia faz cerveja desde 1839, quando recebeu licença de fabricação assinada pelo rei Leopoldo I, e elas são vendidas ao público desde 1878. Mas, desde o começo, com uma ressalva: a venda não poderia ter fins comerciais. O dinheiro deve apenas ajudar a manter a abadia. Assim, a produção, a cargo somente dos monges, sempre foi limitada e as vendas eram controladas com rigor, para garantir que a operação nunca se sobrepusesse à vida religiosa — o lema em Saint-Sixtus é “Nous ne vivons pas pour brasser, nous brassons pour vivre” (“Não vivemos para fazer cerveja, fazemos cerveja para viver”).

Preciosidades: Westvleteren 12, a 8 e a Blonde: as únicas três versões produzidas

Tamanha dedicação, tradição e tecnologia — a abadia adota técnicas modernas nos processos — fizeram com que os três tipos de Westvleteren (além da 12, a 8 e a Blonde), se tornassem preciosidades para quem entende de cerveja. E tornou-se difícil consegui-las até na Bélgica. Mas a oferta reduzidíssima e o apelo tão forte de demanda criaram oportunidades. Comerciantes passaram a fazer da compra e revenda delas um baita negócio. Por esse motivo os 19 monges que cuidam da produção ficaram bem fulos da vida quando viram suas preciosidades vendidas pela rede holandesa de supermercados Jan Linders por 9,95 euros a unidade. A varejista conseguiu comprar 7.200 garrafas e a mão invisível do mercado se encarregou de deixar o preço 630% acima do praticado em Saint-Sixtus.

Em reportagem da Deutsche Welle, o monge Godfried, um dos poucos autorizados a também beber a cerveja (além de produzi-la), disse que o episódio abriu os olhos dos religiosos para o ágio. “Foi uma espécie de alerta e isso realmente nos perturbou”, disse. Na abadia, as caixas com 24 unidades de 330ml são comercializadas a 35 euros (Blonde), 40 euros (Westvleteren 8) e 45 euros (a incensada Westvleteren 12). Sai entre 1,46 e 1,87 euro cada garrafa. Pagam-se outros 15 euros pela linda caixa em madeira e pelos vasilhames. Mas bem ali ao lado, em Bruxelas, um exemplar de Westvleteren 12 pode custar 12 euros. No Brasil, então… No Mercado Livre, apenas uma garrafa da Westvleteren 12 estava cotada a R$ 150 na terça-feira 18, quase 35 euros, mais de 18 vezes o preço dos monges.

SEGUNDA GUERRA As preocupações dos religiosos de que os preços fugissem de controle são antigas e começaram logo após a Segunda Guerra Mundial, quando decidiram vender a cerveja apenas nos portões da abadia, em vez de distribuí-las por bares locais, como fizeram por quase sete décadas. De certa forma, o modelo funcionou.

Fórmula Trapista: engradados da Westvleteren (à esq.), produzidas por apenas 19 monges com técnicas modernas, mas receitas e rituais tradicionais (Crédito:Divulgação)

Mas somente até o fim dos anos 90, quando houve a explosão das cervejas artesanais e sites especializados classificaram a Westvleteren 12 como uma das melhores — ou a melhor — do mundo. A procura foi tamanha que, em 2005, os monges abriram um sistema de encomendas por telefone. Cada pessoa podia retirar apenas duas caixas de 24 cervejas a cada dois meses. Aí entraram na linha os espertalhões. Usando diferentes números telefônicos passaram a comprar volumes muito acima das cotas e a inflacionar os preços. A única saída que os monges vislumbraram, para tentar um mínimo de controle, estava na tecnologia. Para fazer com que menos atravessadores fiquem com as cervejas e o preço não dispare os monges lançaram o e-commerce.

Ele servirá, paralelamente, para fazer com que as três versões da cerveja cheguem a mais pessoas. Tanto que novos compradores, ou aqueles que esperaram mais tempo desde a última compra, terão prioridade. O processo é complexo. O passo 1 é se cadastrar pelo site www.trappistwestvleteren.be deixando nome completo e outros dados, incluindo placa do carro. Um link validará seu cadastro e com ele será possível entrar numa sala de espera virtual. De lá será dado acesso à loja on-line, que só funciona em alguns dias do mês, de acordo com um calendário disponibilizado no site. Após as compras, um código será enviado ao celular para agendar a retirada — que deve ser feita na abadia. Sim, quem quiser uma cerveja dos deuses terá de ralar à altura. E ir até ela.