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Salvem a literatura e as livrarias estarão salvas

Enquanto as grandes redes fecham lojas, microeditoras ágeis comem pelas bordas em feiras literárias alternativas e vendas diretas pela internet — de livros físicos

Crédito: Francisco Costa

Grandes escritores brasileiros sempre deram um jeitinho de encostar no serviço público para sobreviver. Machado de Assis trabalhou na Imprensa Nacional, Stanislaw Ponte Preta foi do Banco do Brasil e Vinícius de Moraes era do Itamaraty. Lima Barreto, José de Alencar, Manoel Antônio de Almeida: tudo burocrata. Apesar disso, ainda foi possível, em outra época, produzir escritores talentosos e bons de vendagem: Jorge Amado, Érico Veríssimo, Nelson Rodrigues e Rubem Fonseca, além do próprio Machado, cujos romances eram serializados em jornais, como as telenovelas de hoje. Mas nunca conseguimos, de fato, sedimentar uma literatura competente, bem escrita e de alto consumo. Nunca tivemos um Stephen King, um John Le Carré ou uma Agatha Christie. Nunca tivemos um Conan Doyle, um Ian Fleming ou um Jules Verne.

No Brasil, ganhar dinheiro com literatura sempre foi visto como uma ofensa a Deus e à ordem natural das coisas. O escritor brasileiro deve trabalhar apenas em troca de críticas favoráveis em suplementos culturais que ninguém lê e palestras vazias em eventos a que ninguém vai. As editoras não investem em marketing sob o argumento de que a coisa não se paga. E o autor, como sabe que não pode viver daquilo, prefere partir para experimentações joyceanas para, ao menos, fazer amigos na Academia. Só que o livreiro precisa vender alguma coisa e aí, para sustentar uma atividade que, afinal de contas, precisa dar lucro para alguém, o editor investe numa subliteratura descartável feita por youtubers, gurus de autoajuda e celebridades televisivas. Isso enche o caixa momentaneamente, mas não forma público e nem sedimenta o mercado. O livro do Felipe Neto garante uns trocados hoje, mas não consegue que o freguês volte amanhã.

A falência das grandes redes de livrarias é só a ponta do iceberg. O setor livreiro inteiro vai mal e precisa ser reimaginado antes que seja tarde demais. As lojas são imensas, mas quantas vezes você entrou numa delas em busca de algo pra ler e saiu de mãos abanando? Aliás, qual foi a última vez que você esperou, ansioso, o novo livro de um escritor nacional? Enquanto as grandes redes de livrarias fecham lojas, na outra ponta do mercado microeditoras ágeis comem pelas bordas em feiras literárias alternativas e vendas diretas pela internet — de livros físicos, veja bem. Alavancado pelo hip hop, há um ressurgimento da poesia nas periferias dos grandes centros, com autores usando até o mimeógrafo para veicular sua produção. E escritores começam a lançar mão do crowdfunding para imprimir e distribuir suas obras porque veem nisso a chance de ganhar uns trocados, coisa impossível no mercado livreiro tradicional.

Literatura não é negócio no Brasil. Existem apenas duas agentes literárias que realmente importam no País, enquanto em qualquer prédio de escritórios em Los Angeles é possível encontrar o triplo disso. É que lá, ao contrário daqui, a literatura, quadrinhos inclusos, é a base de uma economia criativa que movimenta milhões de dólares todo ano. E é aí que está o “busílis”, como diziam os personagens do Rubem Fonseca: se a literatura não é lucrativa para quem escreve, para quê salvar as grandes livrarias? Editores e livreiros precisam entender finalmente que o importante é criar consumidores e não entupir lojas imensas de produtos descartáveis. Dinheiro não traz felicidade, dizem, mas falta de dinheiro nunca fez ninguém pular de alegria.