Investidores

Rumo ao curto prazo

Inflação segue elevada, por isso a taxa Selic mais alta não garante ganhos reais em aplicações de renda fixa nos próximos dois meses.

Crédito: Istock

É só a taxa básica de juros (Selic), atualmente em 5,25% ao ano, subir um pouquinho que o investidor fica assanhado para deixar o dinheiro nas aplicações de curto prazo. O boletim mais recente da Associação Brasileira das Entidades do Mercado Financeiro e de Capitais (Anbima), entidade que representa o setor, mostra exatamente isso. Nos sete meses até julho, os fundos de investimento receberam R$ 296 bilhões líquidos. Quase a metade, R$ 140 bilhões, foi para carteiras de renda fixa. Em especial os fundos mais seguros, da subcategoria duração baixa risco soberano. Eles investem preferencialmente em títulos públicos de curto prazo e receberam R$ 93,5 bilhões.

Não só os fundos com dívidas do governo vêm atraindo o aplicador. Os dados da Anbima também mostram avanço do estoque de Certificados de Depósito Bancário (CDB), que receberam R$ 44 bilhões. Em outras palavras, quem possui dinheiro para investir está voltando com força para o mercado de juros. O motivo mais provável é uma expectativa de altas maiores da Selic neste final de 2021, em 2022 e no início de 2023, tentando se proteger de um cenário de inflação alta, mas com risco político da corrida eleitoral e risco fiscal do atual e do futuro governo.

Vale a pena? Não há garantia de que alta dos juros vá proporcionar ganhos reais significativos para cobrir a inflação persistente no curto prazo. Nem os especialistas mais pessimistas esperavam, mas o dragão da inflação devorou todos os ganhos nominais das aplicações de renda fixa provocando perdas pesadas aos investidores. A inflação acumulada de 8,99% nos 12 meses até julho devastou os rendimentos tanto de conservadores quanto de arrojados. Quem investiu em produtos mais populares e seguros, como poupança, CDB e fundos DI, sofreu uma perda real superior a 6 pontos porcentuais. Perda comparável só em fevereiro de 1991. Há mais de 30 anos, em uma tentativa de conter a hiperinflação, o Plano Collor penalizou os aplicadores do antigo overnight e tungou 24 pontos porcentuais de sua rentabilidade. Para a analista de renda fixa da XP, Camilla Dolle, o interesse maior por renda fixa decorre da elevação dos juros. “Os investidores voltaram a se interessar por pós-fixados, já que a previsão é de Selic em 7,25% no final deste ano”. Além disso, ela ressalta que a inflação também é um tema em voga, caso o plano seja buscar proteção. Na mira dos investidores também aparece a alta do preço das commodities, da energia e dos alimentos por causa da geada nas plantações. “Outra dúvida é a retomada do setor de serviços, que pode trazer uma piora na inflação”, afirmou.

Vivian Koblnsky

“Os investidores voltam a se interessar por pós-fixados, a previsão é de Selic em 7,25% no final deste ano. O tema da inflação também está em destaque, se a meta é buscar proteção” Camilla Dolle analista de renda fixa da XP.

RISCO POLÍTICO Não menos importante são as incertezas políticas em 2022. “A volatilidade aumenta em todo ano eleitoral. Isso vai ficar mais claro a partir do primeiro trimestre do próximo ano.” Nesse caso, ela recomenda que o investidor fique atento. “A volatilidade é de curto prazo e até pode abrir oportunidades. Quem ficar até o vencimento dos papéis não perde nada.”

O o sócio-fundador da Zahl Investimentos, Flávio Oliveira, afirmou que o Banco Central (BC) está atrasado para colocar juro positivo acima do neutro para controlar a inflação. “A Selic em 7% ao ano não protege dessa inflação persistente. A alta das commodities está fora do controle do BC, e a reabertura do consumo trará ajustes nos preços de serviços”. Segundo ele, as pessoas ainda não estão confortáveis para sair para consumir, mas quando voltarem,terá algum reflexo na inflação. Oliveira também diz temer o risco político . “Em ano eleitoral há mais volatilidade, o dólar acaba subindo e interfere nos prêmios das aplicações.”

Já o especialista em renda fixa da Veedha Investimentos, Caique Coutinho, afirma que no passado, o Banco Central sempre teve a Selic acima da inflação, mas que isso foi alterado durante o período da pandemia. “A gente chegou a ter juro de 2% ao ano, com isso, a inflação acelerou. Os comunicados mais recentes do BC mostram um tom mais duro agora, ele está correndo atrás do prejuízo”, afirmou.

Claudio Belli

“O BC está um pouco atrasado, a inflação está mais alta que o desejado, e terá que subir 1 ponto porcentual na próxima reunião” Arnaldo Curvello diretor da Galapagos Wealth Management.

A última ata do Comitê de Política Monetária (Copom) sinaliza que a Selic subirá um ponto porcentual na reunião de setembro próximo, de 5,25% para 6,25% ao ano. “A expectativa é que a Selic termine em 7,25% ao ano. Já se projeta Selic em 8,25% em 2022 e se fala em Selic em 9% no início de 2023”, disse Coutinho.

Em visão semelhante, o sócio e diretor da Galapagos Wealth Management, Arnaldo Curvello, também observou que o BC manteve o juro muito baixo por mais tempo do que deveria. “O BC está um pouco atrasado, a inflação está mais alta que o desejado, e terá que subir 1 ponto porcentual na próxima reunião”, afirmou.

Diante desse quadro, Curvello ainda vê taxa real de juro negativa nas aplicações com pós-fixados no curto prazo. “Já o papel de inflação protege de movimentos mais bruscos, tenho optado por título de prazo mais curto (NTN-Bs 2026 e 2024), que vão carregar uma inflação mais alta”, disse ele. Segundo Curvello, ainda há papéis bancários na praça – CDBs, LCAs, LCIs e LCs – pagando 150% do DI. “Acima de 12,5% ao ano já dá uma proteção razoável em relação à inflação”, afirma. O diretor completa que essa “espiral Inflacionária” era inevitável após o período de estímulos na economia. “A pandemia mostrou que a fórmula de 2008 funcionou e continua funcionando para evitar crises maiores. ”, disse.