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Rockefeller, o banqueiro mecenas

Morre o bilionário representante da família mais influente na política e nas finanças globais dos séculos XIX e XX. Seu principal legado é a filantropia

Crédito: Divulgação

Quando John D. Rockefeller conquistou o monopólio da exploração de petróleo nos Estados Unidos para a Standard Oil, em meados do século XIX, ele se tornou o primeiro bilionário das Américas e transformou sua família na mais rica e poderosa do país. Numa época conhecida pelo capitalismo selvagem, John deu início ao seu principal legado para as gerações futuras dos Rockefeller: a filantropia. O neto David foi o principal discípulo dessa tradição. O último membro dessa dinastia, morto na semana passada, aos 101 anos, com uma fortuna estimada em US$ 3,3 bilhões, foi um dos principais responsáveis por convencer a iniciativa privada a subsidiar museus locais.

Ele também reuniu uma das mais valiosas coleções, que chegou a ter 15 mil peças, com obras de Pablo Picasso, Paul Cézanne e Henri Matisse. As doações da família Rockefeller ajudaram a criar o Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMa) e a manter universidades como a de Chicago e de Harvard, além da construção do Rockefeller Center, o complexo de 19 edifícios comerciais, com lojas, restaurantes e escritórios, e do Lincoln Center, o centro artístico que reúne 12 companhias. A vida de David Rockefeller não se resumiu apenas à filantropia. Ele foi um dos mais influentes personagens da política e da economia do século XX.

Durante as décadas de 60 e 70, David era considerado o principal emissário do capitalismo ocidental no oriente. À frente do Chase Manhattan, que era chamado de banco dos Rockefeller, mesmo que a família nunca tenha acumulado mais de 5% de suas ações, David transformou sua vasta influência em negócios. Ele fez do banco o primeiro com presença global, numa época dominada pela Guerra Fria. O Chase Manhattan foi a primeira instituição financeira americana a ter um escritório em Moscou e a estabelecer uma relação com o Banco da China. Estima-se que David conheceu mais de 200 chefes de Estado ao longo de sua vida e que, em boa parte dos encontros, era recebido como um estadista internacional.

Três marcos: o Museu de Arte Moderna de Nova York (à esq.), o banco Chase Manhattan (centro) e o Rockefeller Center (à dir.) são três símbolos da influência da família mais influente do capitalismo
Três marcos: o Museu de Arte Moderna de Nova York (à esq.), o banco Chase Manhattan (centro) e o Rockefeller Center (à dir.) são três símbolos da influência da família mais influente do capitalismo (Crédito:Divulgação)

Foi a expansão internacional que trouxe David ao Brasil, no início dos anos 1950. Ao visitar a América Latina, concluiu que a economia dos países da região sofria com a falta de crédito para as empresas. O banqueiro, então, criou a Interamericana de Financiamentos e Investimentos, braço do Chase no Brasil. A decisão foi criticado pelos demais diretores, que viam o País como perda de tempo e de dinheiro. Em 1956, com quatro anos de atividade, a recessão brasileira se transformou no argumento necessário para o banco de desfazer do negócio. Mesmo com aquele insucesso, David insistiu em ter um banco no País.

Em 1961, comprou 51% do Banco Lar, da família Larragoiti, dona da SulAmérica. O Banco Central só autorizou o Chase a comprar o restante das ações em 1980. “O Brasil é um dos meus países prediletos”, disse ele, em entrevista à DINHEIRO, em 2003, quando estava lançando a sua autobiografia. Único Rockefeller, em três gerações, a escrever suas memórias, David fala com carinho do Brasil, tanto pelos presidentes que conheceu, de Getúlio Vargas a Fernando Henrique Cardoso, como pelo amigo Walther Moreira Salles, de quem foi sócio numa fazenda de cerca de 100 mil hectares, no Mato Grosso.

O local tinha 11 pistas de pouso e nenhuma estrada. Em meio aos animais selvagens, David e Moreira Salles caçavam onças. Mas o ponto mais marcante foi a rebelião de uma de suas filhas, Peggy, que se tornou uma ativista de esquerda e chegou a viver com uma família numa favela carioca. “Minha filha veio para o Brasil comigo e gostou. Ela trabalhou nas favelas. Graças àquela experiência, envolveu-se em projetos de desenvolvimento social em todo o mundo. Muito de seu conhecimento veio do Brasil”, afirmou David, o banqueiro mecenas.