Finanças

Ricos da Poupança

A imagem da poupança de ser a aplicação financeira dos pobres do País parece não existir para uma pequena parcela dos ricos. Alheios à falta de prestígio das cadernetas e aos constantes avisos públicos sobre a sua baixa rentabilidade, um grupo de investidores espalhados pelo País ignora os badalados fundos de investimento e mantém aplicadas em suas contas quantias que chegam a superar a casa dos milhões de reais. É uma minoria pouco visível, mas persistente. Um deles, na Caixa Econômica Federal, tem uma fortuna de R$ 20 milhões depositada em sua caderneta. É um espécime raríssimo de poupador, mas não é o único de seu gênero. Pesquisa da Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip) indica que a poupança é até mais disseminada nas classes A e B do que nas mais baixas. Fortunas inteiras aplicadas nas cadernetas são pouco comuns, mas parcelas grandes das economias particulares não.

Os números da Abecip indicam que, em 2000, havia 256 mil pessoas com mais de R$ 50 mil depositados na poupança. A margem é larga e inclui até poupadores como o que tem R$ 20 milhões, mas, na média, o saldo era de R$ 108 mil por conta. No total, o dinheiro desses investidores soma R$ 27,8 bilhões. Eles representam apenas 0,7% de um universo total de 37 milhões de contas abertas no País, mas detêm nada menos que 31% dos depósitos nas cadernetas. Abrindo um pouco mais o leque para incluir poupadores tipicamente de classe média, que têm entre R$ 20 mil e R$ 50 mil depositados, a parcela dos recursos da poupança nas mãos de gente da elite vai a 52% do saldo total do sistema. São, somados, R$ 47,4 bilhões nas contas de 940 mil pessoas, contra somente R$ 43 bilhões aplicados nas restantes 36 milhões de cadernetas do País.



Manter pequenas fortunas aplicadas nas cadernetas é um exercício de resistência por parte dos megapoupadores. Eles precisam resistir ao assédio dos bancos de varejo, que tentam atrair os clientes de maior cacife de seus concorrentes oferecendo a todo tempo aplicações mais rentáveis e tratamento vip. Um executivo de um grande banco de rede diz que boa parte das contas mais polpudas está em cidades fora dos grandes centros, onde a disputa entre as instituições é menor e o grande investidor da poupança fica mais à vontade para seguir sua preferência. Mas muitos estão em cidades como São Paulo e Rio e não traem a fidelidade às cadernetas. O perfil desse aplicador é variado. ?Pode ser uma pessoa muito aferrada a tradições, que conhece o produto e não quer pensar em mudar, mas há o que quer diversificar suas aplicações, e tem uma parte do dinheiro na poupança, e há os que estão juntando economias para filhos e netos?, arrisca Ilona Beer, superintendente técnica da Abecip.

Na Caixa, detentora de mais de um quarto do saldo aplicado nas cadernetas, a variedade entre os poupadores é mais acentuada. Pouco mais da metade das contas pertence a gente na larga faixa entre 16 e 45 anos, e quase todo o resto para pessoas acima disso. Celina Lopes, superintendente nacional de produtos bancários, conta que a maior parte dos poupadores procura o produto em busca de segurança para seu dinheiro e de simplicidade na aplicação. Mas atrativos extras são bem-vindos. Desde que a Caixa passou a sortear até R$ 4 milhões entre os titulares de cadernetas, em dezembro, a abertura de novas contas e a captação de depósitos bateu recordes. Em janeiro, primeiro mês em que vigorou uma nova tabela fixada pelo governo para evitar a queda do rendimento da caderneta, a Caixa captou R$ 468 milhões. Somados, os demais bancos juntos tiveram saldo negativo de quase R$ 180 milhões.

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