Estilo

Ricardo Almeida redesenha a exclusividade

Consagrado como criador de ternos de alto padrão que fizeram de sua grife uma das mais valiosas do Brasil, o estilista e empresário revela os planos de expansão que inclui amplas lojas de rua em Brasília e Belo Horizonte, um piso inteiro na Cidade Matarazzo e a Collab RA2.

Crédito: Claudio Gatti

VISÃO DO FUTURO Ricardo Almeida na sede de sua empresa, no Bom Retiro, em São Paulo, onde se dedica às funções de estilista e empreendedor. Mais que desenhar roupas, ele olha para os próximos passos da marca em busca de experiências para o consumidor de alto padrão. É o caso da loja de 800 m2 que irá inagurar em uma laje corporativa da Cidade Matarazzo. (Crédito: Claudio Gatti )

Em outubro, quando abrir as portas da loja conceito de mais de 800 m2 que irá ocupar uma laje inteira do Edifício Ayahuasca, dedicado a escritórios de alto padrão no complexo Cidade Matarazzo, em São Paulo, o estilista e empresário Ricardo Almeida dará um novo sentido à palavra exclusividade. Apesar do tamanho, com quase o dobro da área das outras 21 unidades que hoje formam a rede que leva seu nome, a nova loja só receberá clientes previamente agendados. Ainda que o espaço tenha sido pensado para exibir as coleções de suas três marcas (as linhas masculina, feminina e a nova RA2, voltada para colaborações e da qual participam os filhos Arthur e Ricardo, de 16 e 17 anos), ele irá funcionar muito mais como uma consultoria personalizada de estilo do que como uma loja tradicional. “A ideia é que o cliente viva a experiência da marca”, afirmou Ricardo Almeida à DINHEIRO, em sua sala na sede da empresa, no Bom Retiro, tradicional bairro de confecções de São Paulo.

A “experiência”, nesse caso, será uma imersão completa no universo criativo de Ricardo Almeida, no qual cada detalhe, desde o fio até o corte, é pensado para transmitir ao cliente a certeza de que terá vestido o que há de melhor. Algo feito sob medida e único. “Ali poderemos dar um atendimento melhor para o cliente, mostrar o que combina, cuidar da imagem da pessoa. É muito mais que uma venda”, disse o criativo por trás da marca.

Como o Ayahuasca será o primeiro edifício de escritórios com serviços de alto luxo em São Paulo (oferecidos pelo Hotel Rosewood, único seis estrelas do País), a loja poderá oferecer até refeições aos clientes que assim desejarem. “Não precisamos montar nossa cozinha, teremos acesso à do hotel”, disse o estilista, que também irá se mudar para a Cidade Matarazzo. “Eu visitei as obras há dois anos e meio, com o Jayme Monjardim, que pertence à família Matarazzo. Foi quando conheci o Alexandre Allard e me encantei com o projeto todo. Tanto que comprei um apartamento para morar ali”, afirmou. Francês radicado em São Paulo, Allard ficou conhecido pela reabilitação do hotel Royal Monceau, em Paris. Em 2007, ele adquiriu a área de 30 mil m2 próxima à Avenida Paulista onde havia dez edifícios tombados pelo patrimônio histórico. Lá funcionaram o Hospital Umberto I e a Maternidade Condessa Filomena Matarazzo, abandonados por décadas. A Cidade Matarazzo de Allard terá hotel com design de interiores de Phillip Starck, apartamentos residenciais, lajes corporativas e um shopping. A loja Ricardo Almeida será a única no prédio de escritórios. O shopping ficará pronto um ano e meio depois.

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NA RUA Estar no complexo, mas apartado das demais lojas, é uma decisão estratégica para o posicionamento da marca. Em junho, uma nova loja de rua será inaugurada no Lago Sul, em Brasília, substituindo uma das duas que hoje funcionam nos principais centros comerciais da capital federal. Belo Horizonte seguirá o mesmo caminho. “Os shoppings não percebem a quantidade de bons clientes que nossa marca atrai”, afirmou Almeida. “Por outro lado, nossas lojas de rua, como a da Bela Cintra (em São Paulo), proporcionam uma qualidade de tempo muito maior para o consumidor”.

Investir em espaços mais adequados para seu público alinha-se à estratégia de grandes grifes internacionais. A Dior acaba de inaugurar uma loja de alto luxo na Quinta Avenida, em Nova York. A Louis Vuitton fez o mesmo, recentemente, em Tóquio. Ricardo Almeida começou a planejar esse movimento antes da pandemia, mas o intensificou quando suas lojas precisaram ficar temporariamente fechadas. Ele passou a se dedicar mais à visão de futuro da marca, o que se refletiu em decisões aparentemente simples, como eliminar o logotipo do lado de fora das roupas, até mudanças na equipe que hoje soma 538 funcionários. No início de 2020 foi contratada a nova head de Marketing, Giovana de Pieri, que já trabalhou em agências como AlmapBBDO, F/Nazca, DPZ, Talent e Africa. Outras contratações envolveram três áreas. O e-commerce passou a ter a gerente Paula Garcia, ex-BrandsClub, Farfetch e Aramis. Para o RH, rebatizado de Gente e Cultura, chegou Daniela Carvalho, ex-Grupo Pão de Açúcar, Makro e Walmart.com. Até o diretor financeiro é novo na empresa: Adilson Machado de Oliveira Junior, sócio da Smartway Assessoria.

CAMISETA DE R$ 819 As alterações refletem o desejo de Ricardo Almeida, hoje com 66 anos, de deixar sua empresa ainda mais sólida antes de se aposentar. “Se os meus filhos, que já se interessam por confecção, desejarem comandar a empresa, ótimo. Se eles não tiverem essa vocação, poderão vendê-la”, afirmou. Ele entende que o movimento de fusões e aquisições é inevitável em qualquer segmento. Mas, como ainda não tem plano de se desfazer do negócio criado há 37anos e que leva seu nome, Ricardo Almeida não descarta fazer aquisições. “Estamos de olho em duas marcas, pequenas e de altíssima qualidade, que podem agregar valor ao que fazemos”, afirmou, sem detalhar os alvos.

Enquanto não compra outras grifes, o empresário vislumbra um crescimento orgânico, seja pela expansão da rede de lojas, pela maior participação do segmento feminino — ou com RA2, marca criada para abrigar projetos colaborativos. Por enquanto, a nova grife é quase doméstica, com coleções assinadas com os filhos. Já o segmento feminino, que responde por apenas 5% do resultado, poderá dar um salto no curto prazo. “Quando ele se tornar equivalente ao masculino, a empresa terá dobrado de tamanho”, afirmou Almeida.

Soma-se a essa perspectiva outro fenômeno interessante observado durante a pandemia — e não se trata do previsível aumento do e-commerce no total de vendas. Com o isolamento social e home oficce, mudou o tipo de roupa que as pessoas compram. “Passamos a vender menos ternos, mas aumentaram as vendas de outros produtos, como camisetas e tênis”, disse. “Passaram a nos enxergar além da alfaiataria”.

Um dos cases de maior sucesso foi uma camiseta vendida a R$ 819. Quando decidiu lançá-la, enfrentou resistência até da própria equipe, já que a mais cara da grife até então custava R$ 350 e a concorrência pratica preços bem menores. Ele insistiu por acreditar que seus clientes entendem de qualidade e sabem a diferença entre algo feito para durar anos. “Eu quero que as pessoas vejam que a marca Ricardo Almeida tem condições de atender aqui o consumidor que viaja e compra fora”. Parece estar dando certo. Na última semana, o resultado de vendas foi apenas 15% menor que em 2019. Isso, mesmo com o interesse por ternos muito abaixo do normal.