Negócios

Revolução chinesa

A startup brasileira Alfred se associa à Pakpobox, da China, para transformar a logística do comércio eletrônico nacional com seus armários para guardar encomendas

Revolução chinesa

No pacote: dona de armários (lockers) instalados em países como Suíça (acima), a chinesa Pakpobox é uma das acionistas da Alfred, do CEO e fundador Marcio Artiaga (à dir.)

Marcio Artiaga guarda alguns traços que o distinguem de boa parte dos nomes à frente das startups brasileiras. A começar pela formação. Enquanto muitos de seus pares trazem no currículo diplomas em universidades americanas, o empreendedor brasiliense decidiu cursar administração de empresas na Business School Lausanne, na Suíça, no início da década de 1990. A experiência acumulada desde então também destoa. Aos 48 anos – mais um ponto incomum em um segmento dominado por empresários na faixa de 20 a 30 e poucos anos –, ele teve passagens no alto escalão da americana Xerox e da australiana PrintSoft, entre outras operações. Ao mesmo tempo, fundou e dirigiu negócios bem-sucedidos, como a Business School São Paulo e a Digital Post, companhia de logística e tecnologia adquirida pelo grupo Suzano, em 2011. É com essa bagagem que Artiaga prepara agora o lançamento de mais uma empreitada. E, em linha com o seu histórico, o projeto se concentra em um caminho ainda pouco explorado de um setor que costuma atrair o interesse de muitas empresas novatas do País: o comércio eletrônico.

Batizada de Alfred – Clique e Retire, em uma homenagem ao mordomo fiel e sempre à disposição de Bruce Wayne, o bilionário por trás do super-herói Batman, a nova companhia aposta em uma vertente que começa a ganhar escala em mercados como a China e os Estado Unidos, na esteira de iniciativas de gigantes como a Amazon. A startup, fundada no início de 2017, vai implantar no País uma rede de “armários”, mais conhecidos no setor como lockers e que funcionarão como pontos de entrega de produtos comprados via e-commerce ou vendas diretas. A ideia é reduzir os custos na última milha, como é chamado um dos principais gargalos do setor, o trecho final percorrido para que uma encomenda chegue nas mãos do consumidor. Este, por sua vez, passa a ter uma nova opção para receber os itens comprados nos canais virtuais.

O processo é bem simples. Ele recebe um código via smartphone que desbloqueia, em segundos, a fechadura do armário escolhido para receber a encomenda. A partir do primeiro trimestre de 2019, o plano é instalar 7 mil lockers até 2022, com foco inicial nas cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro. “Queremos ser o Banco24Horas dos pacotes”, diz Artiaga. “Os prédios não têm estrutura para receber os produtos e os consumidores nem sempre estão em casa ou ficam reféns das entregas.” Para reforçar essa visão, ele cita dados dos Correios, que apontam que 30% das entregas não são realizadas na primeira tentativa, enquanto 20% das vendas são perdidas na finalização do pedido, pois o endereço não é atendido.

O empreendedor não está sozinho nessa jornada. A Alfred já captou R$ 6 milhões em duas rodadas de investimento, sendo a última, de R$ 5 milhões, concluída neste mês. Os aportes foram liderados pelo family office da família Gontijo, conhecida por sua atuação na área de construção civil. O clã vinha buscando diversificar seus negócios. “O que nos chamou a atenção é a semelhança com o mercado imobiliário. A localização do ponto, bem como a ‘venda’ dos espaços ainda na planta são essenciais”, diz Renata Gontijo, que, ao lado do irmão Pedro, decidiu pela entrada no negócio. “Estamos participando ativamente da gestão, pois, assim como os demais sócios, temos conhecimento para compartilhar.” Esse é também o caso da Odgers Interim, consultoria de reestruturação de empresas que integra a relação de acionistas e que tem como um de seus sócios Claus Vieira, ex-CEO da TecBan, companhia responsável pela rede de Banco24Horas, que reúne os caixas eletrônicos das principais instituições financeiras do País. “São modelos de negócios muito próximos e ninguém no Brasil conhece mais esse mercado de autoatendimento que o Claus”, afirma Ademar Couto, sócio da Odgers Interim.

Da milha ao bilhão?: para Ademar Couto, da Odgers Interim, uma das sócias da Alfred, a startup tem potencial para se tornar um unicórnio

O interesse não está restrito aos investidores brasileiros. A Alfred acaba de fechar um acordo de troca de ações com a chinesa Pakpobox, uma das pioneiras do mercado de lockers, que passou a deter uma participação de 7,4% na startup brasileira. A companhia criada por Artiaga, por sua vez, tem agora uma fatia de 5% na operação da parceira e se tornou a sua representante exclusiva na América Latina. Fundada em 2014, a Pakpobox possui contratos com sete Correios na Ásia e com empresas como o gigante chinês do comércio eletrônico Alibaba. Ou seja, a Alfred pode ser a porta de entrada que o Alibaba tanto almeja no Brasil. Com 160 mil lockers, a China é hoje o maior mercado mundial de lockers, estimado em 300 mil equipamentos. A parceria envolve também a transferência de tecnologia, o que inclui a fechadura digital e os softwares que compõem a solução. Com o objetivo de fugir dos custos de importação do hardware, a Alfred já vem realizando testes com três fabricantes brasileiras.

Apesar de ter captado um volume incomum de recursos para uma startup fundada há pouco mais de um ano, a Alfred já está em busca de uma nova rodada de investimentos para financiar a execução do plano de instalação da sua rede, com a assessoria do Banco Modal. “Diferentemente de muitas startups, o desafio desse modelo de negócios é o fato dele exigir um aporte elevado na largada, por conta dos equipamentos”, diz Artiaga. Ele prefere não estabelecer um montante a ser levantado. Mas para colocar em operação sete mil armários, seriam necessários US$ 35 milhões. A princípio, a meta pode parecer muito ambiciosa. Já há casos, no entanto, que mostram o interesse do mercado pelo setor. Em abril de 2017, a gestora americana Advent assumiu, por uma quantia não revelada, o controle da polonesa Inpost. E, nesse ano, anunciou um aporte de cerca de US$ 67 milhões na operação.

Para analistas ouvidos pela DINHEIRO, a proposta tem boas perspectivas. “É uma boa alternativa para o setor, que precisa atrair mais consumidores”, diz Pedro Guasti, diretor de relações institucionais da consultoria Ebit/Nielsen. Segundo a empresa, o comércio eletrônico no País movimentou R$ 23,6 bilhões no primeiro semestre, alta de 12,1% sobre o mesmo período de 2017. O professor de logística do Mackenzie, Mauro Schluter, destaca outros desafios do modelo atual que podem ser aprimorados ou minimizados com os lockers, como a falta de entrega em áreas de risco e os roubos de carga. “Essa abordagem também abre espaço para reduzir os custos da última milha, que representam cerca de 40% do custo de transporte no e-commerce”, afirma. Segundo os cálculos da Alfred, os lockers reduzem os custos na última milha de 30% a 50%.

Enquanto aguarda uma nova injeção de capital, a startup trabalha em outras frentes. A primeira delas é a busca de espaços que irão abrigar os seus armários, com foco em locais de grande circulação, como shoppings, metrôs, rodoviárias, postos de combustíveis e condomínios comerciais e residenciais. Um dos contratos praticamente selados envolve uma empresa de transporte urbano com fluxo diário de mais de 1 milhão de pessoas. A companhia também já está atuando na locação dos lockers que irá instalar. No radar estão todos os elos da cadeia, como varejistas, atacadistas, operadores logísticos e empresas como Correios, Uber, Loggi e Rappi. Nessa ponta, os parceiros escolhem e pagam pelo uso de espaços mais adequados às suas estratégias. A Alfred já tem um contrato em vias de ser fechado com um grande canal de e-commerce do País.

Artiaga e os demais sócios enxergam uma infinidade de possibilidades para a sua rede, entre eles, os processos de logística reversa, como a coleta de produtos devolvidos. E já estão acrescentando outras novidades à solução. Uma delas são máquinas que vendem produtos como chocolates, refrigerantes e fones de ouvido. Outro recurso já disponível são os lockers com compartimentos para itens refrigerados, congelados e secos, voltados, por exemplo, para quem quiser encomendar suas compras no canal virtual de um supermercado e retirá-las no local de sua preferência. “Eu vejo, claramente, a oportunidade de termos um unicórnio nas mãos nos próximos três anos”, diz Couto, da Odgers Interim, fazendo uma referência às startups que alcançam um valor de mercado igual ou superior a US$ 1 bilhão. Artiaga, por sua vez, prefere manter a cautela. Mas não deixa de traçar uma meta ambiciosa. “O que nós queremos, de fato, é criar uma revolução do autosserviço”, afirma o empresário.