Economia

A retomada da indústria

Após 26 meses consecutivos de queda, as montadoras cantam pneu no mercado interno e aceleram as exportações. A recuperação, porém, não será fácil para todos

A retomada da indústria
Carlos Zarlenga, CEO da GM Mercosul: “O carro é o bem de maior valor que uma pessoa vai comprar, depois de sua casa. Portanto, confiança é fundamental”
Carlos Zarlenga, CEO da GM Mercosul: “O carro é o bem de maior valor que uma pessoa vai comprar, depois de sua casa. Portanto, confiança é fundamental” (Crédito:Felipe Gabriel)

A divulgação do balanço mensal da indústria automotiva tem um ritual estabelecido há vários anos. Ocorre sempre no quarto dia útil de cada mês, às 11 horas da manhã, pontualmente, num hotel em São Paulo. Intitulada Carta da Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores), a publicação de 12 páginas traz o resultado de vendas, produção e exportações do mês anterior. Trinta minutos depois, começa uma entrevista à imprensa da direção da entidade. Desde janeiro de 2015, em todos os meses, o presidente da Anfavea divulgou algum percentual de queda na comercialização de veículos leves em relação ao mesmo mês do ano anterior.

Foram 26 entrevistas consecutivas com números negativos. Na quinta-feira 6, finalmente, essa incômoda sequência foi quebrada. As vendas de automóveis e comerciais leves tiveram uma alta de 6,2% em março na comparação com o mesmo período de 2016. “Foi um mês bom, realmente, mas ainda não dá para cravar que é uma retomada consistente”, diz à DINHEIRO, cauteloso, o presidente da Anfavea, Antonio Megale (leia entrevista nos links relacionados). A avaliação do executivo condiz com o ritmo de recuperação econômica do Brasil, que ainda é pequeno. Na prática, enquanto o Produto Interno Bruto (PIB) não der sinais claros de robustez, as vendas de veículos tendem a oscilar.

Carlos Clur, CEO da Eletrolar: “Estamos notando que as empresas voltaram enxergar oportunidades de expansão dos negócios neste ano”
Carlos Clur, CEO da Eletrolar: “Estamos notando que as empresas voltaram enxergar oportunidades de expansão dos negócios neste ano” (Crédito:Divulgação)

Uma certeza, no entanto, é compartilhada pelas montadoras instaladas no Brasil. O pior da crise já passou e a retomada está sendo impulsionada pelas exportações. No primeiro trimestre deste ano, o setor embarcou 172 mil carros, caminhões e ônibus, o que representa uma expansão de 69,7%. Os principais mercados são a Argentina (65% das exportações), o México (13%) e o Chile (5%). Líder em comércio exterior com os modelos Gol, Voyage e Saveiro, a Volkswagen cresceu 102% suas vendas para o exterior, respondendo por 27,8% de todas as exportações brasileiras do setor. “Apesar dos números favoráveis, o Brasil precisa melhorar sua competitividade para buscar mercados fora da América Latina”, afirma Orlando Merluzzi, presidente da MA8 Management Consulting Group.

No mercado interno, que absorve 72% de toda a produção de veículos, a liderança no primeiro trimestre foi da GM, com 17,8% do total de licenciamentos de carros e comerciais leves. A montadora, que registrou crescimento de 8% nas vendas no primeiro trimestre, aposta na recuperação da confiança dos consumidores para expandir ainda mais. “O carro é o bem de maior valor que uma pessoa vai comprar, depois de sua casa. Portanto, confiança é fundamental”, afirma Carlos Zarlenga, presidente da GM Mercosul (leia a íntegra da entrevista no site da DINHEIRO).

Outro ponto essencial para a recuperação dos negócios nas concessionárias é a expansão do crédito, que tende a ficar mais barato. “Há espaço para uma queda mais forte dos juros pelo Banco Central”, afirma Luiz Carlos Gomes de Moraes, executivo da Mercedes-Benz e vice-presidente da Anfavea. “Isso ajudaria muito, pois o juro real ainda é muito alto no Brasil.” Com um mercado externo pujante e um ambiente interno em recuperação, a entidade prevê que 2017 termine com uma expansão de 11,9% na produção, após três anos de forte retração.

Trabalho à vista: a indústria de eletroeletrônicos retoma a produção após forte retração nos últimos anos
Trabalho à vista: a indústria de eletroeletrônicos retoma a produção após forte retração nos últimos anos (Crédito:Alexandre Rezende/Folhapress)

Não foi coincidência que o setor automotivo ganhou destaque no relatório de produção industrial divulgado pelo IBGE, na terça-feira 4. No primeiro bimestre do ano, a expansão das montadoras foi de 19,8% enquanto a indústria geral cresceu apenas 0,3%. Outro segmento que brilhou, após anos difíceis, foi o de eletroeletrônicos, com expansão de 17,4%. É inegável que a base de comparação é muito baixa, fruto da mais grave crise econômica da história. Porém, o CEO do Grupo Eletrolar, o argentino Carlos Clur, empresa que promove a maior feira de eletrônicos da América Latina, a Eletrolar Show, salienta que o pior ficou para trás.

“Já estamos notando que as empresas voltaram enxergar oportunidades de expansão dos negócios neste ano e em 2018”, afirma Clur. “A trajetória de queda dos juros, a estabilização do dólar na casa de R$ 3,00 e a retomada da confiança dos consumidores são fatores que nos levam a acreditar em uma reação.” A percepção é de que a retomada econômica, ainda que lenta, já começou. Isso, se o risco global da Era Trump não atrapalhar. (leia sobre o ataque dos EUA à Síria)

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