AS MELHORES DA DINHEIRO 2021

Resiliência operacional e proximidade do cliente

Como todas as bolsas de valores do mundo, a brasileira viveu um ano vertiginoso em 2020. E ela soube crescer somando disciplina e inovação. Disciplina para garantir o pleno funcionamento dos mercados em meio ao caos. Inovação, para atender melhor a clientela que dobrou de tamanho em relação a 2019.

Crédito: Cauê Diniz

Gilson Finkelsztain CEO da B3 “A grande demanda do ano passado veio dos investidores nacionais, tanto pessoas físicas quanto institucionais. Os estrangeiros não adicionaram muitos recursos. Isso mostra o potencial que a gente tem para o futuro”. (Crédito: Cauê Diniz)

Quando se fala em bolsa de valores, a primeira imagem que vem à mente são números. Normalmente, uma variação porcentual, positiva ou negativa, expressa em um dígito e com duas casas decimais. Exemplos: +1,35%; -2,03%. Esses números, divulgados ao longo do dia pelo noticiário econômico, resumem o quanto estão ganhando ou perdendo, aproximadamente, aqueles que investem no mercado de ações. Mas não é só. Essas oscilações referem-se ao Índice Bovespa, que resume tanto o pregão em si (os ganhos ou perdas dos papéis negociados) quanto o pulso do mercado (ou seja, o perfil das negociações). O valor atual do Ibovespa, que em 2021 tem variado entre 110 mil e 120 mil pontos, representa a quantia, em reais, de uma carteira teórica de ações constituída há mais de meio século (em 2 de janeiro de 1968) mas que leva em conta os papéis mais negociados nos últimos meses. Resumidamente, o Ibovespa é uma carteira hipotética, baseada em valores tradicionais e que oscila quase a cada segundo.

É natural pensar em números quando se fala em bolsa de valores. O difícil é traduzi-los em palavras. O mesmo vale para explicar o funcionamento da B3, a companhia fundada em São Paulo em 23 de agosto de 1890 e que foi destaque da gestão do anuário AS MELHORES DA DINHEIRO 2021 na dimensão sustentabilidade financeira. Para entender esse resultado, vamos aos números. E não há como falar de 2020 sem considerar o quanto ele foi atípico. O Ibovespa caiu quase pela metade antes de se recuperar, o que só ocorreu após os governos do mundo todo despejarem recursos da ordem de trilhões no mercado para salvar a economia, paralisada pelo isolamento social. Mesmo com essa curva em forma de V nos valores das ações que negocia, a B3 teve um ano fabuloso, como empresa, do ponto de vista financeiro. Na comparação com 2016, sua receita líquida cresceu 261% (de R$ 2,3 bilhões para R$ 8,3 bilhões), o Ebtida ajustado variou positivamente 412% e o lucro líquido recorrente ficou 86,4% maior, permitindo remunerar os acionistas em um montante inédito. Em dez anos, os proventos para quem investe nos papéis da própria B3 foram de R$ 19 bilhões. No exercício de 2020, eles somaram R$ 6,2 bilhões. Com receitas totais de R$ 9,3 bilhões em 2020, a B3 fechou o primeiro semestre de 2021 com valor de mercado de R$ 102,4 bilhões. O maior de sua história.

Para o CEO da B3, Gilson Finkelsztain, esses resultados, que ele entende como bastante positivos, foram “consequência de uma disciplina de atuação, da resiliência operacional que é inerente à nossa atividade central”, afirmou à DINHEIRO. “A B3 é uma empresa de infraestrutura de mercado. No final das contas, o que explica a nossa sustentabilidade financeira é que, chova ou faça sol, os mercados vão ter que operar, liquidar suas operações. Os investidores vão ter que fazer sua gestão de risco, seja sob pânico, circuit break ou recorde.” Para ele, mesmo com essa disciplina, “sistemicamente relevante” para o funcionamento dos mercados, há outra parte da equação: a proximidade dos clientes.

Em dezembro de 2019, havia 1,7 milhão de pessoas físicas cadastradas na B3. Em dezembro de 2020, 3,2 milhões. Quase o dobro. “A gente estava preparado para recebê-las, operando mais e lançando produtos novos”, afirmou Finkelsztain. Por “operando mais”, entenda-se triplicar os volumes de transações em relação ao ano anterior. “Até 2019, o pico de operações em empresas listadas e derivativos era perto de 4 milhões, 4,5 milhões de negócios. Em 2020 a gente bateu 12 milhões”, disse. A oferta de novos produtos, porém, não explica, sozinha, o sucesso da B3 em 2020. No ano em que 53 empresas abriram capital no Brasil, captando em conjunto R$ 118 bilhões, nove em cada dez pessoas que trabalham na bolsa tiveram de ficar em casa. “Já estávamos preparados para trabalhar remotamente, o que ajudou muito nesse funcionamento contínuo. Não paramos nenhum dia, não houve atraso na abertura”, disse Finkelsztain. Embora desde 2018 todos já tivessem laptop, nenhum cenário previa mais do que 30% das pessoas em home office. “Em duas semanas fomos para 90% das pessoas trabalhando em casa.” E isso resume a fórmula do sucesso da B3. “Olhar para dentro e garantir que a gente estivesse fazendo tudo para o mercado funcionar bem. E atender o cliente.”