Estilo

Requinte de segunda mão

Favorecidos pela onda de sustentabilidade e pelo consumo consciente, sites que vendem peças de luxo usadas ganham força no mundo. Só no ano passado, o setor faturou quase US$ 30 bilhões.

Crédito: Divulgação

NEGÓCIO E PRAZER Há três meses, a atriz Fiorella Mattheis lançou o Gringa, site de revenda de peças de luxo. “Mostramos que as roupas e acessórios podem ganhar vida nova”, disse Fiorella. (Crédito: Divulgação)

A indústria da moda é uma impiedosa agressora do meio ambiente. De acordo com dados da Organização das Nações Unidas (ONU), o setor é responsável por 8% das emissões de gases-estufa na atmosfera da Terra.

Além disso, é o segundo maior consumidor global de água e grande poluidor de ecossistemas, despejando, a cada ano, mais de 500 mil toneladas de lixo sintético nos mares, rios e oceanos. Sem falar nos cerca de US$ 500 bilhões de roupas e acessórios que vão parar em lixões e aterros do planeta anualmente. É um impacto cada vez mais considerado pelas empresas do segmento.

Diante desse cenário e da crescente preocupação com a sustentabilidade entre consumidores, uma área do universo fashion tem ganhado força: os sites que vendem peças de luxo de segunda mão. São os chamados re-commerce, espaços virtuais nos quais é possível comprar roupas, sapatos, joias e acessórios usados, das mais sofisticadas grifes do mundo.

Os números não deixam dúvidas. Relatório publicado pela loja americana ThredUP, especialista em varejo on-line, e pela consultoria de análises GlobalData mostrou que o mercado de vestuário do chamado second hand (“segunda mão”) movimentou US$ 24 bilhões em 2018, apenas nos Estados Unidos, contra US$ 35 bilhões da fast fashion, lojas que lançam várias coleções anualmente. Segundo esse mesmo estudo, daqui a oito anos o mercado de moda usada vai girar cerca de US$ 64 bilhões nos Estados Unidos, enquanto a fast fashion atingirá US$ 44 bilhões. Ou seja, o re-commerce valerá quase 50% mais do que o tradicional segmento de compra de peças novas. “Em comparação com o mercado global de vestuário, o crescimento das revendas tem sido fenomenal”, disse Neil Saunders, diretor da GlobalData, ao divulgar o relatório. Para ele, são três os principais fatores que favorecem o segmento de usados: preços mais baixos, alta variedade e sustentabilidade. “Por tudo isso, esperamos que esse alto crescimento continue”.

Originada nos Estados Unidos, a onda dos re-commerces se espalhou pelo mundo, cobriu a Europa e chegou ao Brasil. Por aqui, há sites já consolidados, como o Etiqueta Única, lançado em 2013 e que revende peças com garantia de autenticidade. A loja virtual foi criada pela empresária
Patrícia Sardenberg, ex-vendedora da Daslu. Ela começou realizando bazares de artigos de second hand e hoje tem mais de 1 mil itens em seu site, de grifes como Chanel, Dior e Gucci. À medida em que as peças são vendidas, outras são colocadas nas prateleiras digitais. A empresa não revela seus números de vendas, mas calcula-se que comercialize cerca de 500 unidades por mês.Em algumas compras, a economia no bolso do comprador pode ser de quase 70%. É o caso da bolsa Dior, modelo Cavalino Animal Print, que é vendida no site por R$ 2.190 e tem preço original de R$ 6,7 mil nas lojas.

Grandes marcas e gente famosa também resolveram surfar nessa onda. Considerado um dos principais sites de segunda mão de luxo do mundo, com negócios em mais de 50 países, o Rebag revende apenas produtos de renomadas grifes internacionais, como Chanel, Dior, Louis Vuitton e Prada. No site, há mais de 10 mil itens à venda, com preços que podem chegar a US$ 10 mil – afinal, são peças altamente sofisticadas. Há, também, o Outnet, outlet virtual que revende grifes como Emilio Pucci, Jimmy Choo e Valentino.

CELEBRIDADES Entre as personalidades, uma que aderiu a esse modelo de negócio foi a estilista britânica Stella McCartney – filha do cantor e compositor Paul McCartney. Ela fez parceria com o site de re-commerce The RealReal para colocar peças usadas de sua grife à venda. A atriz e modelo brasileira Fiorella Mattheis também entrou nessa. Há cerca de três meses, ela lançou o seu canal de re-commerce, batizado de Gringa, que surgiu da vontade de ter o próprio negócio associada à paixão pelo universo da moda. “E também tem a questão de empreender em algo que tem um propósito no qual acredito, que é a sustentabilidade”, disse Fiorella. “Com o Gringa, mostramos que as roupas e acessórios podem ganhar vida nova no mercado de moda circular, reduzindo a quantidade de resíduos gerados pela indústria e
gerando bons negócios.”

Cliente assídua de sites de revenda de luxo, a atriz permite que outras pessoas coloquem peças à venda na sua loja virtual – algo muito comum nesse segmento. Segundo a atriz, nos últimos dois meses as vendas tiveram alta de 50%, tendo as bolsas como produtos mais procurados. São mais de 200 peças de marcas estreladas, como Chanel, Gucci e Louis Vuitton. Não raro, os descontos ultrapassam os 50%, como na bolsa Salvatore Ferragamo, modelo Sofia – em homenagem à atriz Sophia Loren –, que custa R$ 8,9 mil nas lojas e R$ 3,9 mil no site. “Nosso maior público comprador são os millennials (pessoas nascidas entre o início dos anos 1980 e final da década de 1990), enquanto as pessoas que mais colocam peças para vender no Gringa são mulheres entre 40 e 50 anos.”

Esse modelo de negócio também tem marcado presença na Europa. Em Portugal, o site de second hand Quartier Latin teve crescimento de 100% nas vendas desde o início da pandemia – a empresa não revela números. Fundado pela empresária Isadora Fevereiro, o re-commerce de luxo dispõe de roupas e acessórios de diversas grifes, entre elas Alexander McQueen, Balenciaga, Carolina Herrera, Chanel, Givenchy e Ralph Lauren. Assim como no Gringa, as bolsas são as peças mais procuradas, sempre com excelentes descontos. Uma Alexander McQueen, modelo Britannia Skull Box, por exemplo, custa 490 euros no site, pouco mais da metade do preço de loja: 900 euros. E os consumidores também podem colocar seus produtos à venda. “Temos clientes que trazem até dez peças para vender, mantendo a rotatividade. Nossa comissão varia de 30% a 50%”, afirmou Isadora. E assim, o mercado de re-commerce de luxo segue ganhando força mundo afora.

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