Negócios

Réquiem para OAS

Em um roteiro que repete o drama de seu pai, César Mata Pires Filho, herdeiro do grupo baiano, sofre infarto durante depoimento à Lava Jato e acrescenta mais um duro capítulo à história da empreiteira que cresceu sob as bênçãos de ACM

Crédito: Divulgação

Origem: obras da ponte Ilhéus-Pontal (BA). A região Nordeste foi o primeiro ponto de expansão da OAS (Crédito: Divulgação)

Instalada no número 888 da Avenida Anita Garibaldi, a 13ª Vara Federal de Curitiba já foi palco de capítulos emblemáticos da operação Lava Jato. Na tarde da segunda-feira 8, o espaço voltou ao noticiário. Herdeiro da OAS, César Mata Pires Filho, 41 anos, sofreu um infarto no local, enquanto prestava depoimento ao juiz Luiz Antônio Bonat. A audiência, parte das investigações sobre superfaturamento na construção de um prédio da Petrobras, em Salvador, foi suspensa imediatamente. Ele foi encaminhado ao Hospital Santa Cruz, na capital paranaense. Depois de passar por uma cirurgia, seu quadro é estável. O acontecimento dramático é mais um episódio da saga do grupo baiano, um dos protagonistas dos escândalos de corrupção envolvendo grandes empresas privadas e a esfera pública. No roteiro para tentar se reerguer, a OAS perdeu um de seus fundadores, César Mata Pires, pai do empresário, que faleceu em agosto de 2017, também vítima de um infarto.

Conhecido como “Dr. César”, o pai personificava a história da empresa. Ele iniciou a carreira na também baiana Odebrecht, em 1971. Cinco anos depois, deixou a “conterrânea” para fundar a OAS, ao lado de Carlos Suarez e Durval Olivieri. Até meados da década de 1980, o grupo concentrou sua atuação no Nordeste. A partir de 1986, ganhou projeção nacional e tornou-se uma das dez maiores construtoras do país. Boa parte da ascensão foi atribuída ao fato de que César era genro de Antônio Carlos Magalhães. O influente político baiano teria auxiliado a companhia na conquista de diversos projetos, o que levou a OAS a ser conhecida por alcunhas como “Obrigado, Amigo Sogro” e “Obras Arranjadas pelo Sogro”. Mais tarde, vieram as operações no exterior, em mercados como América do Sul e Central, e África.

Em família: César Mata Pires Filho (à esq.) é um dos herdeiros do grupo fundado pelo pai (no detalhe), em 1976 (Crédito:Divulgação e Paulo Giandalia/AE)

NA BERLINDA A OAS foi um dos primeiros nomes a entrar na mira da Lava Jato, a partir de 2014. Segundo a operação, seu fundador era um dos cabeças do cartel formado pelas grandes empreiteiras envolvidas nos casos de corrupção. Em outro desdobramento, Léo Pinheiro, presidente e acionista minoritário do grupo, foi preso em 2016. Mais tarde, foi testemunha-chave no processo que relacionado à compra de um apartamento triplex no Guarujá, que resultou na condenação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Sob esse contexto nada favorável, a empresa acusou o golpe. Com restrições de crédito, falta de recursos para tocar seus projetos e uma dívida de R$ 9,2 bilhões, pediu recuperação judicial para nove companhias do seu portfólio, em março de 2015.

Desde então, um dos focos foi concentrar os negócios na construção pesada, sua principal atividade. Os desinvestimentos foram outro mote. Mas a lista é incipiente. Ela inclui a Samar Soluções Ambientais e a Saqua. Esse último acordo ainda espera aprovação. A maior guinada veio em maio, com a transferência da fatia de 24,4% da participação na Invepar para credores. A medida era considerada um ponto crucial para dar fôlego à reestruturação. E abre uma perspectiva mais animadora. “A expectativa para as próximas semanas é sair da recuperação judicial”, diz uma fonte próxima à companhia. A “nova” OAS é bem diferente da gigante que operava até os primeiros impactos da Lava Jato. A receita líquida, que foi de R$ 6,2 bilhões, em 2013, caiu para R$ 868 milhões, em 2017, último resultado divulgado. A empresa também ficou bem mais enxuta. O quadro de 122 mil funcionários caiu para os atuais 19 mil profissionais. No período, no entanto, a dívida foi reduzida a R$ 2,8 bilhões.

Fora de cena: ex-CEO e acionista minoritário da OAS, Léo Pinheiro está preso desde 2016. Testemunha-chave no caso do triplex de Lula, o executivo aguarda acordo de delação premiada (Crédito:Werther Santana/Estadão)

Alguns componentes ajudam a traçar um futuro um pouco menos cinzento para a OAS, especialmente se comparada a outras empresas da Lava Jato. A recuperação judicial logo no início dos escândalos é um deles. “Eles foram mais habilidosos em visualizar que a tempestade ia chegar muito rápido”, diz Marcelo Apovian, sócio-fundador da consultoria Signium. A Odebrecht, por sua vez, só seguiu o mesmo caminho há um mês, quando protocolou a maior recuperação judicial da história do país, com dívidas estimadas em R$ 98,5 bilhões. O fato de o acordo de delação premiada de Léo Pinheiro não ter sido selado até hoje também favoreceu o grupo. “Se isso tivesse acontecido, provavelmente a corrupção ramificada na empresa teria vindo à tona.”.

Herbert Steinberg, CEO da consultoria Mesa Corporate, segue a mesma linha: “Léo Pinheiro ficou no centro e a corrupção ficou mais associada à sua figura”, afirma. Ele também cita a exposição da Odebrecht, que colocou a OAS em segundo plano. “Mas isso não quer dizer que irá se salvar. A única certeza é que sairá dessa situação bem menor e com grandes desafios à frente.”