Negócios

Renner vai ao brechó

Maior varejista de moda do Brasil capta R$ 4 bilhões em oferta de ações e inicia estratégia com aquisição da Repassa, plataforma digital de revenda de produtos.

Crédito: Vinicius Dalla Rosa

ESCOLHA DISCRETA Movimentação por aquisições e fusões, comandada pelo CEO Fabio Faccio, desperta o olhar atento do mercado. (Crédito: Vinicius Dalla Rosa)

Uma das maiores quebras de paradigma no mundo pós-pandemia é que segmentos de nicho não cabiam no portfólio de grandes redes. Isso é definitivamente passado. Prova é que a varejista Lojas Renner, depois de engordar o cofre com a captação de R$ 4 bilhões em uma oferta privada de ações (follow on), decidiu apostar no mercado de segunda mão. O grupo, com 606 lojas e dono das bandeiras Renner, Ashua, Camicado e YouCom, comprou a Repassa, plataforma on-line de revenda de vestuário, calçados e acessórios. O negócio, que não teve o valor revelado, ocorreu após a companhia fechar 2020 com queda de 21,4% no faturamento – para R$ 6,6 bilhões. “Faz parte da nossa meta de ser o maior, melhor e mais relevante ecossistema de moda lifestyle das Américas”, afirmou Fabio Faccio, CEO da Lojas Renner à DINHEIRO. “Para isso ampliamos o sortimento de produtos, serviços e conteúdo, além de trazer mais digitalização.”

A negociação ainda aguarda aprovação, mas é estratégica ao focar em um mercado que ganha força, principalmente entre as gerações Z (nascidos entre 1997-2012) e millennials (1981-1996). Estimativa da GlobalData prevê que a indústria de revenda seja, até 2030, duas vezes maior que o fast fashion e alcance faturamento global de US$ 84 bilhões. A adesão das empresas para esse caminho passa a ser natural, principalmente para evitar que se tornem ultrapassadas. É a visão do diretor executivo da Associação Brasileira do Varejo Têxtil (Abvtex), Edmundo Lima. “As pessoas, principalmente os jovens, buscam se unir a empresas que tenham os mesmos valores e propósitos”, disse Lima. Para ele, é fundamental que as companhias apresentem ações além dos itens de recompra. “Também é requisito desse consumidor ter um produto de maior qualidade e durabilidade.”

Outra aposta da Renner é a inauguração, neste semestre, da primeira loja voltada à economia circular. Localizada no Rio de Janeiro, a unidade foi planejada em 2019 e traz novidades apontadas pela companhia como pioneiras no mercado. Entre elas, mobiliário produzido com materiais recicláveis, dos manequins aos caixas. Além disso, um espaço exclusivo montado para que os clientes tenham acesso a iniciativas circulares, com destaque para os produtos com Selo Re – itens que geram um impacto ambiental menor durante seu processo produtivo. Também ganhará destaque o serviço de logística reversa pós-consumo.

Na linha estratégica da Renner também está avançar na digitalização da companhia, ampliar a presença omni e reforçar o ecossistema das marcas do grupo junto aos selleres e parceiros. Para dar início a esse planejamento, em 2022 a empresa vai inaugurar seu novo Centro de Distribuição (CD) em Cabreúva, interior paulista. Com investimento previsto de R$ 600 milhões, o CD é maior do que todo o parque logístico atual da companhia. Automatizada, a unidade será utilizada para realizar o abastecimento das lojas, reduzindo velocidade e custos das operações. “Haverá sinergia entre as marcas além de proporcionar prestação de serviço de abastecimento e logística para nossos sellers”, afirmou Faccio.

SACOLA DE COMPRAS As inovações no âmbito interno, no entanto, não devem predominar sobre o apetite da varejista por crescimento não orgânico. O volume de dinheiro captado no follow on indica que a sacola de compras ainda não foi finalizada. Para isso, possíveis aquisições já estão sendo discutidas. Mesmo que muito discretamente, algumas apostas já são feitas no mercado.

Relatório da XP Inc. aponta quatro frentes possíveis. Na primeira delas, a busca por ativos digitais. Aqui os analistas de mercado colocam a Dafiti como a queridinha das negociações, mas também mapeiam a Amaro e até pequenas nativas digitais nichadas como opções. Em seguida, empresas de moda multicanal, com foco para a C&A. “Essa nos parece ser a última hipótese porque a companhia demonstra procurar novas frentes e não ampliar o mercado já consolidado”, disse a analista de varejo Danniela Eiger. A terceira frente possível é a aquisição de fintechs de tecnologia voltadas ao fortalecimento da Realize, braço financeiro do grupo. E, por último, a entrada em categorias como cosméticos ou casa & decoração.

Indicando que os recursos captados devem ser utilizados até o primeiro semestre de 2022, a companhia passeia pelo mercado varejista como os consumidores passeiam pela loja, escolhendo o produto que levarão pra casa, enquanto investidores, sellers e concorrentes observam a movimentação como os vendedores, aguardando o momento certo de se mostrar presente.