Relações tão delicadas

Relações tão delicadas

O road show do presidente Bolsonaro por países asiáticos marca um ponto de inflexão importante na relação do País com esses parceiros. Na primeira parada no Japão, onde a cerimônia de entronização do imperador Naruhito serviu de mote, a meta era recuperar um comércio que nos últimos anos caiu pela metade – algo assombroso em se tratando de um mercado que pilota a tecnologia global. Um estudo conjunto para incrementar o potencial de troca de preferências comerciais foi elaborado. Nele se constatou que o fluxo entre Brasil e Japão encolheu 51% no período de 2011 a 2018, com queda de US$ 17,4 bilhões para US$ 8,5 bilhões no período.

O volume de investimentos japoneses no Brasil recuou perto de 43% entre 2011 e 2015, de US$ 33,2 bilhões para US$ 18,9 bilhões. Depois ocorreu uma discreta recuperação e a queda ficou na casa de 30,7%. Ainda é considerável essa diminuição dos negócios na rota bilateral. Existe uma promessa de longo prazo de um acordo de livre-comércio entre Mercosul e Japão que não saiu do papel. Nem durante essa visita do presidente Bolsonaro. Alguns contratos pontuais foram fechados, mas o problema é que 97% da pauta exportadora do Japão para o Brasil está coberta pelos europeus. Não existe muita margem de manobra. De outra parte, há sim interesses concretos nas privatizações em curso por aqui. Para apostar capital nesse campo os japoneses esperam, entretanto, as prometidas reformas econômicas, em especial a da simplificação tributária, a da desburocratização, além de facilidades de crédito.

No campo das conversas com os chineses, as dificuldades são de outra natureza. Maiores compradores de mercadorias do Brasil, eles seguem receosos quanto aos posicionamentos políticos do novo governo. Temem que, em nome dos laços que unem Jair Bolsonaro e Donald Trump, a China saia perdendo. Algumas declarações recentes do mandatário não ajudaram em nada a diminuir esse receio. A equipe brasileira que seguiu na viagem garante que o objetivo fundamental daqui para frente é mudar para melhor a relação com o parceiro.

Entraram na pauta conversas sobre a dinâmica comercial para vislumbrar mais oportunidades em áreas até aqui pouco exploradas na balança entre os dois. Os chineses pedem fundamentalmente que o Brasil não se intrometa ou tome partido na guerra travada entre eles e os EUA. Acenam com negócios promissores como a compra de linhas de metrô e outros projetos na área de infraestrutura. As relações com esses dois grandes compradores seguem, de todo modo, delicadas. Para agravar o quadro, a China acaba de registrar o pior desempenho de seu PIB em 30 anos. O que, provavelmente, poderá afetar suas encomendas no futuro.

(Nota publicada na Edição 1144 da Revista Dinheiro)

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Sobre o autor

Carlos José Marques é diretor editorial da Editora Três e escreve semanalmente os editoriais da revista DINHEIRO


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