Economia

Recessão com hora marcada

A economia dos Estados Unidos vem crescendo há dez anos. Agora, todos os sinais indicam que ela vai diminuir. E o mais alarmante é que ninguém sabe a causa exata

Recessão com hora marcada

Os jornais especializados em economia não falam de outra coisa. Os Estados Unidos devem enfrentar uma recessão. Não é uma dúvida, é uma certeza. A questão é quando e como. Aparentemente, tudo vai bem. Quase a totalidade dos americanos está empregada. Os juros básicos estão entre 2,25% e 2,5%, desde agosto. A inflação está avaliada em torno de 2%. O país vem crescendo desde 2010, com o fim da crise gerada pelos títulos podres, os chamados “subprime”. É a expansão mais longa na história dos EUA, com crescimento de 2,2% em 2017 e 2,9% em 2018, de acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI). Mas o diabo está nos detalhes — e são eles que indicam problemas à vista.

O primeiro é técnico, mas crucial. A curva de investimentos está invertida. É economês da melhor espécie, mas isso significa que a procura por papéis do tesouro americano com vencimento de curto prazo (três meses) é maior do que a busca por longo prazo (dez anos). Essa nova inversão significa que o investidor teme que, daqui dez anos, os papéis não rendam tanto. A economia é feita de percepção e esse medo do futuro acaba afetando os negócios no presente. Isso, por si só, não provoca o fim do crescimento, mas é um sinal de que a confiança do mercado está baixa. Nos últimos cinquenta anos, todas as vezes em que aconteceu essa inversão, os Estados Unidos entraram em recessão.

Os outros sinais da crise são ainda mais palpáveis. Um é a produção. Todos os meses, o Instituto de Gerenciamento de Suprimentos faz uma pesquisa para saber quanto está sendo produzido. Os números atuais não são ruins, mas estão no limite, pouco acima de 50 pontos, o mínimo necessário para que o setor manufatureiro se expanda e não encolha. A manufatura, porém, não é mais a força motriz da economia americana.

É culpa de Trump?: Presidente dos EUA mantém a economia em alta, mas pode ser o causador da derrocada se insistir na disputa com o maior rival, a China (Crédito:Bertrand Guay / AFP)

Daí a importância de mais um sinal: a expectativa de consumo. Serviços e vendas são a principal atividade econômica dos Estados Unidos e qualquer flutuação nessa atividade é um indicativo perigoso de que as coisas não vão bem. Atualmente, a medida da intenção de compra está em 0,1%, segundo institutos econômicos privados. Se o número fica abaixo de zero, isso quer dizer que o consumidor não está abrindo a carteira. Sem consumo, não há produção, o que leva ao desemprego e a todo o ciclo vicioso que compõe o cenário de uma recessão que pode chegar aos Estados Unidos.

Quanto ao desemprego, os números americanos são invejáveis e o índice está em seu menor patamar em 50 anos. Mudanças rápidas, porém, não são descartadas. Se o número de desempregados sobir de uma hora para a outra, isso significa que, muito provavelmente, o país já está em recessão.

GUERRA COMERCIAL A falta de confiança dos investidores e a relutância do consumidor em comprar se deve, segundo a maior parte dos especialistas, às tensões comerciais com a China, causadas pela política agressiva do presidente Donald Trump. Desde o início da disputa, os EUA impuseram tarifas sobre dois terços dos produtos chineses ou US$ 300 bilhões das importações. “Dos motivos que poderiam causar uma recessão, a guerra comercial me parece a mais gritante”, afirma Tara Sinclair, economista da Universidade George Washington. “É um erro de política econômica que pode custar caro para a economia mundial.” Nas pesquisas de consumo, a alta de preço dos importados é o fator apontado para o consumidor americano gastar menos.

A situação hoje é, contudo, bem diferente da que precedeu a crise de 2008-2009. “Havia claramente uma bolha no mercado imobiliário que se espalhou”, diz Andrew Hunter, economista da consultoria britânica Capital Economics. “A dívida do consumidor também estava muito elevada em relação à renda. Esses sinais não existem agora.” Isso pode indicar que a próxima recessão talvez não seja tão grave quanto a da década passada. No entanto, o encolhimento da maior economia mundial não é nada bom. Os EUA são o segundo maior parceiro comercial do Brasil, com resultado total de comércio (importações e exportações) estimado em US$ 57,6 bilhões em 2018. E como 2008 mostrou, uma recessão nos EUA significa uma recessão no mundo.