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Recepção fria para os estudantes chineses que retornam ao país

Recepção fria para os estudantes chineses que retornam ao país

Com muitos voos internacionais cancelados e o veto à entrada no país de praticamente todos os estrangeiros, a grande maioria dos retornados são cidadãos chineses - AFP


Os estudantes chineses que retornam do exterior para escapar da pandemia de coronavírus encontram uma recepção fria no país e são vistos com ricos, mimados e potencialmente contaminados.

O número de casos registrados oficialmente na China diminuiu consideravelmente no último mês, mas o país adota medidas drásticas drásticas para tentar impedir uma segunda onda de infecções procedentes do exterior.

Com muitos voos internacionais cancelados e o veto à entrada no país de praticamente todos os estrangeiros, a grande maioria dos retornados são cidadãos chineses, incluindo muitos estudantes.

A situação provoca tensões motivadas pelos privilégios na sociedade chinesa, sobretudo nas redes sociais, nas quais os estudantes que retornam ao país são chamados de ingratos e, inclusive, perigosos. Algumas pessoas acusam uma “conduta irresponsável”.

“Neste momento, a opinião pública na China é muito hostil a respeito dos estudantes chineses no exterior”, afirmou Hestia Zhang, que faz mestrado na Universidade de Yale.

Ela decidiu permanecer em auto-isolamento em seu campus ao invés de retornar, apesar da mudança de cenário, pois agora os Estados Unidos representam quase 25% das infecções mundiais registradas.

Cathy, que desembarcou na China na terça-feira, está conformada com a possibilidade de enfrentar situações desagradáveis. Usando seu nome em inglês para ocultar sua identidade, ela afirmou que “o único remédio é suportar”.

Quase metade dos 800 casos de vírus importados na China são de estudantes que retornam do exterior, de acordo com Pequim. A maioria dos retornados precisam passar por duas semanas em isolamento em hotéis,

Um vídeo de um estudante que tentou escapar de seu alojamento de quarentena na cidade de Qingdao (leste) provocou revolta na internet.

A irritação aumentou com as imagens de uma mulher em quarentena que exigia garrafas de água mineral dos trabalhadores das instalações em Xangai.

“Se aproveitam do país, mas se voltam contra a pátria quando não precisam mais dela. Não temos que repatriar estas pessoas”, escreveu uma pessoa em uma rede social, um comentário que recebeu milhares de curtidas.

Existe uma crença generalizada de que os estudantes internacionais se consideram superiores aos compatriotas, explica Yik-Chan Chin, professora de Comunicação na Universidade Xi’an Jiaotong-Liverpool.

E isto se agrava com a percepção de riqueza e de que muitas vezes possuem outras nacionalidades, completa.

A grande maioria dos 1,6 milhão de estudantes fora da China permanecem no exterior, segundo o ministério da Educação.

Muitos desejam retornar, mas não têm condições de pagar os preços elevados das passagens e não desejam arriscar uma contaminação durante a viagem, com múltiplas escalas.

Pequim fretou um voo na segunda-feira para resgatar 200 estudantes que ficaram retidos na Etiópia depois que os voos de transferência para a China foram cancelados no último minuto. Outro decolou na quinta-feira para repatriar estudantes do Reino Unido.

“Espero que aqueles que estamos repatriando tenham consciência e sejam patrióticos, e não um grupo de miseráveis desagradecidos que odeiam a China e que só estão preocupados em ter uma vida de luxo”, reclamou uma pessoa nas redes sociais.

Nem tudo, no entanto, é ódio e alguns demonstram gratidão aos estudantes que doaram material médico quando a epidemia explodiu no gigante asiático.

“Quem esvaziou a nível global as estantes dos supermercados de produtos de proteção e os enviou de volta para a China? Estudantes internacionais”, escreveu o diretor de cinema Lu Chuan na rede social Weibo.