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Receita de saúde na gestão

Na contramão da crise que afeta o setor, a NotreDame Intermédica cresce e mantém os lucros apostando na rede própria e na prevenção

Receita de saúde na gestão

“Muitas empresas do setor focam na doença e não na saúde, o que incentiva o desperdício” - Irlau Machado: desde a abertura de capital da NotreDame Intermédica, em abril, as ações se valorizaram 66% na bolsa

Se o sistema brasileiro de saúde em grupo fosse consultar um médico, o diagnóstico seria uma anemia profunda. Entre 2015 e 2017, saíram do sistema 3,1 milhões de participantes. No fim do ano passado, segundo a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), eram 47,3 milhões de beneficiários, queda de 280 mil ante 2016. Apesar da baixa, é possível notar uma leve melhora. Em 2016, a saída líquida havia sido de 1,6 milhão de pessoas. Para 2018, as expectativas são de um crescimento de 1%, incapaz de recuperar as perdas. Há duas causas para tamanha crise. Uma delas é estrutural. O envelhecimento da população tem feito as empresas reajustar preços e buscado transferir parte da conta para os clientes. A outra causa é conjuntural. O aumento do desemprego impede um número crescente de beneficiários de pagar os planos, o que agrava o processo. Segundo a ANS, cerca de cem empresas encerraram suas atividades entre 2014 e maio deste ano. Cenário tão adverso exige criatividade dos profissionais da área. É o caso de Irlau Machado, presidente do grupo NotreDame Intermédica, que foi escolhido EMPREENDEDOR DO ANO na área da Saúde nesta edição da DINHEIRO.

Os números da mostram sua saúde na gestão. No terceiro trimestre, o faturamento foi de R$ 1,55 bilhão, 13,8% de crescimento ante 2017. O número de beneficiários cresceu 3,3% para 1,24 milhão de clientes nos planos de saúde e 1,86 milhão em planos odontológicos. O grupo conseguiu crescer e baixar a sinistralidade, que é a parcela das receitas gasta na prestação de serviços. O percentual caiu para 72,3% no terceiro trimestre, queda de 1,8 ponto percentual sobre o mesmo período do ano passado. Com isso, o lucro líquido foi de R$ 127 milhões, alta de 73,4% ante 2017.

A receita da NotreDame para conter os gastos é apostar em uma rede própria, que tem 73 policlínicas e 21 hospitais. O percentual de consultas realizadas nela cresceu de 66% em 2017 para 70% neste ano. “Oferecemos 53 especialidades, que permitem atender 80% dos eventos”, diz Machado. Outro recurso é a prevenção. “Muitas empresas do setor focam na doença e não na saúde, o que incentiva o desperdício”, diz ele. “Nós apostamos no acompanhamento preventivo dos nossos clientes.” Aproveitando-se do caixa levantado com a abertura de capital em abril, a NotreDame foi às compras. Neste ano, adquiriu três empresas: Samed, Greenline e Mediplan, agregando 600 mil novos participantes. “E devemos fechar mais negócios no início de 2019”, diz Machado, sem revelar detalhes. O foco será o eixo Rio-São Paulo.

Os analistas aprovam. Luiz D’Aguiar, da Eleven Financial, afirmou em relatório que “os números refletem a resiliência do modelo de negócio, em que o reajuste abaixo dos pares, a prioridade aos tratamentos preventivos e o uso da rede própria reduzem a sinistralidade”. Ele recomenda a compra das ações, avaliando que as aquisições devem ampliar os negócios quando a economia retomar seu passo. E acrescenta que “a diretoria e o controlador possuem muita experiência no setor de saúde, o que dá conforto em relação à capacidade de execução”.

A trajetória de Machado mostra bem isso. Administrador de empresas com formação nos Estados Unidos, ele realizou uma bem-sucedida transição do mercado financeiro para a área da saúde. Atuou no Citibank e no Santander, onde foi um dos executivos a cargo da compra do Banespa, no ano 2000. Dois anos depois, o executivo mineiro migrou para a presidência de uma empresa de saúde em grupo. A experiência o levou a chefiar o Hospital A. C. Camargo, que Irlau transformou em um centro de referência no combate ao câncer. Em 2014, assumiu a NotreDame Intermédica e comandou a abertura de capital que gerou R$ 2,7 bilhões. Do lançamento até o dia 28 de novembro, as ações se valorizaram 66,7% ante uma alta de 4,4% do Índice Bovespa nesse período. O valor de mercado subiu de R$ 8 bilhões para R$ 14 bilhões. Resultados de uma gestão saudável.


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