Economia

R$ 30 BILHÕES É QUANTO VALE O PENTA

 

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Quanto vale um sorriso do atacante Ronaldo balançando seu dedo indicador em direção ao olhar de dois bilhões de telespectadores? Qual o valor dos sonhos de centenas de milhões de meninos que nos quatro continentes foram para a cama no domingo imaginando vestir a camisa verde-amarela da seleção brasileira? Ou, ainda, quanto valem as filas formadas por milhares de pessoas mundo afora, da Cidade do México a Nova Dehli, para copiar o insólito corte de cabelo do camisa 9 brasileiro? Quem é capaz de computar o valor das manchetes, estampadas em letras garrafais em todos os jornais do mundo ? em inglês, chinês, árabe, persa, francês, sânscrito ou espanhol ? exaltando a magia, a bravura e a criatividade da equipe brasileira, a única com cinco estrelas no peito? Tudo isso, os brasileiros sabem, tem um valor inestimável. A novidade é que
na era da globalização e do triunfo das marcas, a quinta vitória brasileira em copas do mundo talvez possa receber também um preço ? R$ 30 bilhões. Esse é o montante estimado do impacto econômico da vitória na Copa. Ele se traduz em espaço publicitário, em investimentos que aproveitarão o momento de euforia e no aumento de vendas interno e externo de vários produtos. E, de forma um pouco menos tangível, o penta pode marcar o momento
da virada que porá fim a duas décadas de baixo crescimento e reduzida auto-estima. ?Essa vitória pode reinstalar no País a idéia de futuro?, diz o economista Carlos Lessa, da Universiade Federal do Rio de Janeiro. ?Auto-confiança é uma condição preliminar para a economia voltar a crescer. As pessoas têm de acreditar que o Brasil pode dar certo.?

Em meio a tanta euforia, em várias partes do mundo, pareceu simplesmente ridículo o fato de a agência Standard & Poor?s ter rebaixado a classificação de risco da dívida externa brasileira, dois dias após a vitória da seleção brasileira na Copa do Mundo. Ok, pode-se dizer que uma coisa não tem nada a ver com a outra. Economia é economia, futebol é futebol. Mas será mesmo?
Eis o que os garotos londrinos da S&P, que talvez considerem
a imagem do engomado Beckham mais valiosa do que a de
Ronaldo, não perceberam:

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? A exposição de um Brasil vitorioso após o jogo com os alemães, em todos os jornais e televisões do mundo, pode ser estimada em US$ 3 bilhões. ?Fomos os primeiros no maior evento de mídia que já existiu?, disse o ministro do Desenvolvimento, Sérgio Amaral, ao editor Hugo Studart. A exposição durante a partida valeria outros US$ 4 bilhões. Basta utilizar os números do SuperBowl, o maior evento da TV americana, como referência, para entender essa cifra. Cada 30 segundos da final do campeonato de futebol americano custam US$ 2,4 milhões. Assisitindo essa partida são apenas 100 milhões de telespectadores – 5% da audiência da Copa. Ou seja, a decisão do mundial no Japão reuniu na frente da TV, por cerca de duas horas, nada menos que 20 vezes o número de pessoas que assistiram ao Super Bowl. ?O desafio é transformar essa imagem em negócios, pois muitos não sabem que podemos exportar automóveis, tratores e aviões.?


? Só na semana seguinte à conquista, os investimentos em marketing no Brasil, envolvendo campanhas publicitárias, promoções e distribuição de brindes, somaram R$ 500 milhões. ?As empresas sabem que o consumidor estará mais disposto a consumir?, avalia Sérgio Amado, presidente da Associação Brasileira das Agências de Publicidade.

? Na Associação Comercial de São Paulo, o termômetro já começou a subir. ?Notamos um comportamento mais otimista em áreas como alimentos, bebidas e eletrônicos?, afirma Marcel Solineo, economista da associação. Se essa confiança do consumidor se refletir num crescimento adicional de, digamos, 0,5% do PIB, estará em jogo uma cifra de R$ 6 bilhões.

Se isso tudo parecer triunfalismo ou exagero, basta cotejar sentimento e fatos. Tão logo terminou o jogo com a Alemanha, pipocaram fogos no Brasil, carnaval no Japão, carreatas em Melbourne, na Austrália, e demonstrações de júbilo em Paris. Quem viu de perto impressionou-se com o tamanho dessa adesão. O professor Lessa estava nos Champs- Elysées e ficou pasmo ao ver o boulevard mais famoso de Paris ser invadido por franceses em verde-amarelo. Em Miami, a audiência televisiva da final da Copa foi maior do que aquela conseguida pela final da liga americana de basquete. ?O centro da cidade explodiu no gol brasileiro?, espanta-se o professor Robert Levine. No Palácio da Alvorada, em Brasília, o presidente Fernando Henrique recebeu mensagens de praticamente todos os grandes líderes mundiais. Homens de negócio e mesmo brasileiros comuns, com amigos no Exterior, eram felicitados a cada instante. Numa dessas mensagens, o ministro das Relações Exteriores do Kuwait, Khaled Al-Jarallah, escreveu ao amigo Paulo Sérgio Atallah, presidente da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira, que o havia presenteado com uma camisa da seleção brasileira. ?Tornei-me escravo dessa camisa?, disse o chanceler do Kuwait. ?Usei em todos as partidas para dar sorte ao Brasil.? Era como se o mundo nos dissesse: obrigado por terem vencido. ?Nenhuma campanha publicitária, nem com todo o dinheiro do mundo, seria capaz de projetar uma imagem tão favorável?, diz o publicitário Washington Olivetto, dono da agência W/Brasil. ?Uma vitória sobre a Alemanha, a nação da eficiência, reforça ainda mais o conteúdo simbólico da conquista?. Olivetto, que assistiu ao jogo Brasil e Alemanha em Ravello, no sul da Itália, participando de um seminário promovido pelo sociólogo Domenico de Masi, prometeu entregar uma camisa do Brasil ao italiano que mais fervorosamente torcesse pela seleção. No dia seguinte havia meia página no jornal local noticiando a oportunidade.

Camisa verde-amarela. Quando tudo é computado, os
R$ 30 bilhões de impacto econômico do penta parecem até modestos. ?O Brasil ainda desconhece sua força e a capacidade
que tem para liderar todos os países emergentes?, avalia Roberto Dias, diretor da construtora Odebrecht, que falou à DINHEIRO de Angola. Lá, os 6 mil estrangeiros contratados para a construção
da hidrelétrica de Capanda pararam para ver os jogos do Brasil e também para acompanhar a chegada da seleção a Brasília. ?O Brasil não desperta antipatias e isso abre portas comerciais?, avalia. Paulo Sérgio Atallah, que viaja dezenas de vezes por ano ao mundo árabe, sabe bem como a imagem do Brasil impulsiona os negócios. ?O melhor cartão de visitas de qualquer empresário no Oriente Médio é uma camisa da seleção brasileira?, afirma. Em 2002, pela primeira vez na história, o Brasil será superavitário no comércio com os países árabes, com um ganho de US$ 1 bilhão. ?A Copa irá nos ajudar ainda mais?, diz ele. O empresário Eugênio Staub tem uma opinião igualmente otimista. ?O Brasil mostrou que com talento e disciplina pode atingir qualquer objetivo?, avalia o dono da Gradiente. ?Precisamos apenas de um Felipão e de um projeto para o País?.

Com reportagem de Hugo
Studart e Fabiane Stefano.

 

? Companhias que já colaram suas marcas à imagem do Brasil estão colhendo os lucros. A Ambev, que fechou um contrato de patrocínio de US$ 180 milhões com a seleção, viu seu Guaraná Antarctica alcançar 50% do mercado em Portugal, 25% na Espanha e também em Porto Rico. No início da Copa, a bebida foi lançada com grande sucesso no Japão. ?Somos o 15º refrigerante mais consumido no mundo e rapidamente estaremos entre os 10 mais?, comemora Juan Vergara, vice-presidente da empresa. Robert Levine, um brasilianista da Universidade de Miami, sugere que as empresas brasileiras se associem à diversidade racial e à alegria da torcida. ?Seria como a campanha inovadora da Benetton?, ele imagina.

? A Nike espera ampliar em 30% suas vendas no Brasil. Desde que plugou sua marca à seleção brasileira, suas vendas de artigos de futebol saltaram de US$ 40 milhões para US$ 500 milhões.

 

? Na moda e na indústria têxtil,
a euforia contagiou os empresários. ?Com a marca Brasil, ninguém
nos segura?, diz Paulo Skaf, da Associação Brasileira da Indústria Têxtil.

? Seguindo a trilha do pentacampeonato, o ministro do Esporte e Turismo, Caio Carvalho, finalizou uma campanha que pretende ampliar em US$ 700 milhões as receitas do País com a vinda de turistas estrangeiros no curto prazo. ?Não poderia
haver melhor momento para lançá-la?, disse à DINHEIRO.
?Estamos na moda.?

O fato é que jamais em 502 anos de história o Brasil projetou no Exterior uma imagem tão feliz e poderosa de si mesmo quanto na semana passada. Se a Copa de 58 foi a da percepção da capacidade brasileira ? deixamos de ser vira-latas, celebrou Nelson Rodrigues ? esta, 44 anos depois, marca a entrada na maturidade global. Foi como se, num passe de mágica, ou num simples e genial corta-luz
de Rivaldo, o Brasil passasse a ter o mundo aos seus pés. Na era
da globalização, o Brasil tornou-se subitamente um modelo de organização e criatividade a ser copiado por americanos, japoneses, alemães, africanos e árabes. E quando o juiz italiano Pierluigi Collina apitou o fim do jogo em Yokohama, o mundo presenciou uma espécie de utopia tornada real. Estava sacramentada a vitória do talento
e da imaginação sobre a eficácia mecânica dos germânicos.
Estava legitimado o triunfo da mestiçagem e da tropicalidade ?
num planeta onde três quartos dos habitantes se identificam com isso. ?O Brasil dá aos povos não-industrializados uma enorme esperança. Temos hoje a bandeira mais conhecida do mundo?, diz Marcos Azambuja, embaixador em Paris. A questão que se coloca
é como traduzir a enorme simpatia em relação ao País em algo mais tangível e duradouro.

 

O Brasil na moda
A vitória da seleção sobre os alemães desencadeou uma onda de euforia em várias partes do mundo, em países ricos ou pobres, brancos ou mestiços. O Brasil tinha o mundo a seus pés
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Bangladesh: filas nos salões para copiar o corte de Ronaldo Haiti: o Brasil representa a esperança do mundo emergente  
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Londres: ingleses também festejaram o pentacampeonato  
 

 

 

 Embalado pela conquista do pentacampeonato, o governo deu largada ao lançamento do projeto Marca Brasil, que pretende associar os produtos nacionais vendidos no exterior à imagem do País. De segunda-feira a quarta-feira da semanada passada, 150 pessoas entre autoridades, exportadores e publicitários reuniram-se em Brasília para discutir um plano agressivo
de marketing. É parte do esforço para ampliar as exportações de
US$ 58 bilhões para US$ 100 bilhões a médio prazo. Com a ajuda da McCann Erickson, será lançada uma campanha para promover produtos brasileiros em mercados como Coréia, Alemanha e Japão. ?Vamos mostrar que o Brasil é o país com o qual sonhamos, e não só no futebol?, diz Simon Hunter, sócio da agência em Londres. ?A idéia é aproveitar a onda para vender a imagem de um país progressivo?, diz Jens Olensen, presidente nacional da McCann.

Ronaldo: sorriso do jogador deUS$ 100 milhões foi visto por dois bilhões de pessoas