Finanças

Quero ser banco

Novas tecnologias têm permitido que startups dedicadas à prestação se serviços avancem sobre as atividades financeiras

Crédito: Andre Arruda

Fabiano Cruz, CEO (à direita) e Rodrigo Miranda, da Zoop: a tecnologia permite criar rapidamente uma fintech a partir do zero e passar a disputar mercado com as instituições financeiras (Crédito: Andre Arruda)

A administradora de empresas mineira Bruna Castro pensa o tempo todo em salões de beleza. Não, ela não é obcecada com estética. O que lhe interessa mesmo são os números. Ela é uma das sócias da empresa de tecnologia Avec. Nascida como uma plataforma tecnológica para implantar sistemas de gestão do tipo ERP em estabelecimentos da área de saúde e estética, a Avec tem hoje cadastrados cerca de 20 mil empresas e 100 mil profissionais.

Um dos serviços prestados, em parceria com a fintech Zoop, é intermediar os pagamentos e recebimentos dessa multidão de clientes. Porém, a Avec quer mais. “Não descartamos a hipótese de começar a oferecer serviços, como administrar pagamentos e comissões e gerenciar fluxo de caixa”, diz Castro. As justificativas são simples. Uma delas é a margem dos produtos financeiros, que tende a ser mais elevada do que a prestação de serviços tecnológicos mais “tradicional”. Outra é que, ao gerir o caixa, a Avec garante a fidelidade do cliente.

Movimentos como o da Avec estão se tornando mais e mais comuns. Muitas startups que surgiram com a proposta de se dedicarem exclusivamente à prestação de serviços tecnológicos foram encantadas pelo canto do sistema financeiro. Basta perguntar a Rafael Coda, fundador da startup Medicinae. Também administrador de empresas, Coda trabalhou em bancos de investimento e empresas de private equity. Há cerca de três anos, ao sair para jantar com alguns amigos, ele voltou com uma ideia de negócios. “Na conversa, percebi que os médicos tinham problemas em administrar suas finanças e uma rápida pesquisa mostrou que 90% deles não sabia quanto havia faturado no último mês”, diz ele.

Para Coda, isso não é um sinal de incompetência. “O profissional dessa área tem formação em saúde, não em negócios, mas ele não percebe que, ao abrir um consultório, ele se torna empresário e precisa usar ferramentas de gestão empresarial.” A solução desenvolvida por sua empresa consolida recebimentos das consultas e serviços realizados por meio dos planos de saúde. Por meio da Zoop, a Medicinae também gerencia a antecipação dos recebíveis. “Apenas 30% dos médicos antecipam os recebimentos, a maioria prefere receber no prazo”, diz Coda. A Medicinae ainda é recente. Após três anos de desenvolvimento, o esforço de venda começou no fim de 2018. “Já temos mil médicos cadastrados e a meta é chegar a 4 mil em dezembro e a 30 mil no fim de 2020”, diz Coda. E a oferta de mais soluções financeiras não está descartada.

Bruna Castro, da Avec: gerir pagamentos para lucrar mais e, de quebra, tornar o cliente fiel (Crédito:Divulgação)

Coincidentemente, as duas startups têm em comum servirem-se dos serviços da processadora de pagamentos Zoop. Fabiano Cruz, principal executivo da empresa, avalia que a atração das empresas de tecnologia pelo universo das finanças é um fenômeno amplo e global. “Novas soluções, como o processamento de transações financeiras em nuvem, permitem que mais e mais empresas queiram atuar nesse mercado”, diz ele. Segundo Cruz, no modelo anterior, o uso de serviços bancários – especialmente o processamento de pagamentos – era uma despesa. Agora, com as ferramentas de gestão de informações, essas atividades podem ser convertidas em uma fonte preciosa de receitas. “A tecnologia permite criar rapidamente uma fintech a partir do zero e atuar como uma força disruptiva em nichos de mercado”, diz ele.

EBULIÇÃO O setor está em franca ebulição. A face mais visível é a guerra das maquininhas, em que as processadoras tradicionais de pagamentos tiveram de sacrificar margens e ganhos com gestão de recursos para preservar suas fatias de mercado. Porém, essa é apenas uma faceta do que está ocorrendo no setor financeiro, bastante avesso a mudanças. “A descentralização dos serviços bancários permite a criação de muitos modelos de negócio”, diz Cruz.

Esse movimento está no início, diz Ana Lupi, gerente da Sinqia Consulting, uma das maiores provedoras de tecnologia bancária do Brasil. “As empresas de tecnologia têm vantagens ao disputar mercado com as prestadoras de serviços financeiros”, afirma a executiva. “Como são hábeis em inovar e focadas no cliente, elas conseguem identificar lacunas no mercado rapidamente, e desenvolver produtos financeiros com os quais o cliente não está acostumado.” E há outro fator de estímulo. O Banco Central (BC) tem demonstrado ser favorável a um choque de inovação nesse mercado, visando o aumento da concorrência e a redução de custos para o usuário final. Algo que Bruna Castro, da Avec, sabe bem. “Na empresa, nós dizemos que, nesse negócio, o ganhador fica com tudo”, diz ela. “Quem prestar os melhores serviços financeiros vai prevalecer, tenha nascido como um banco ou como uma empresa de tecnologia.”