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Quem vai levar a Nutry?

A empresa Nutrimental, famosa pelas barras de cereais, está à venda. mas os escândalos na política assustam as interessadas

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No topo: empresa lidera setor de barras de cereais no Brasil (Crédito: Divulgação)

O navegador Amyr Klink salvou a paranaense Nutrimental da falência no início dos anos 1990. Para se alimentar em suas viagens oceânicas, Klink pediu para que a companhia, fundada por Rodrigo Rocha Loures, desenvolvesse um alimento leve e adequado para as suas longas jornadas. Até aquele momento, a Nutrimental era fornecedora de merenda escolar para o ensino público. Mas uma sucessão de perda de contratos colocava o negócio em risco naquele momento. Foi quando surgiu a demanda do aventureiro e a empresa criou as barras de cereais Nutry, que se tornaram referência nesse segmento. Hoje a marca detêm 21,2% desse mercado, quase o dobro da gigante suíça Nestlé, segundo a consultoria internacional Euromonitor. Essa liderança, porém, não tem ajudado a companhia a respirar: ela foi colocada à venda.

A família Rocha Loures contratou o banco de investimento Itaú BBA para coordenar a venda total ou parcial da empresa. Os motivos alegados seriam a falta de recursos para investir e o aumento da competição. Em 2015, a companhia investiu R$ 60 milhões em diversificação, com uma linha de cookies e barras de cereais com sementes. Mas os resultados ficaram aquém do projetado. Mesmo com um faturamento anual em torno de R$ 300 milhões, a Nutrimental vem acumulando prejuízo. Nos últimos três anos, a perda somada ultrapassa R$ 20 milhões. Os acionistas da companhia querem conseguir cerca de R$ 1 bilhão com o negócio. Mas especialistas a par da situação projetam um valor da venda não deve superar os R$ 500 milhões. Quatro multinacionais estão na disputa: Pepsico, General Mills, Mondelez e Unilever. Procuradas, elas não quiseram comentar.

As gigantes do setor de alimentos têm procurado atender os novos hábitos do consumidor por comidas mais saudáveis, diminuindo a quantidade de açúcar nos seus produtos ou adquiririndopequenas empresas. No ano passado, por exemplo, a Unilever comprou a empresa brasileira Mãe Terra, que trabalha com produtos orgânicos.“As grandes indústrias alimentícias estão muito focadas em adquirir negócios menores no ramo da alimentação saudável”, diz Luciana Florência, especialista em comportamento do consumidor na ESPM.

Apesar das credenciais que atendem o interesse dos grandes grupos, a ligação política de um dos sócios da Nutrimental assusta. Rodrigo dos Santos Rocha Loures, filho do fundador, cumpre prisão domiciliar. Ele teve o mandato de deputado federal cassado após ter sido gravado saindo de uma pizzaria, em abril de 2017, com R$ 500 mil em uma mala entregue pelo executivo Ricardo Saud, da J&F. O empresário era assessor do presidente Michel Temer. Pessoas familiarizadas com as negociações dizem que as multinacionais demonstram receio de que a Nutrimental possa ter algum sido contaminada por esse envolvimento político. Será preciso convencê-las de que não há ligação, ou a venda pode ser esfarelada.