Economia

Quem ganha essa disputa?

EUA e China, as duas maiores economias do mundo, estão no meio de uma guerra comercial. Nesse combate maluco, o Brasil e outros países podem até sair ganhando

Crédito: Ilustração: Evandro Rodrigues

Corrida maluca: o presidente americano, Donald Trump (à esq.), e o chinês, Xi Jinping, trocam ameaças comerciais enquanto o Brasil, liderado por Michel Temer, segue atrás (Crédito: Ilustração: Evandro Rodrigues)

Como principais potências do comércio mundial, Estados Unidos e China têm o anseio natural de ampliar trocas de mercadorias com parceiros de todo o globo, inclusive entre si, num jogo ganha-ganha. O problema é que a recente escalada de atritos está indo no sentido contrário, lembrando os personagens dos irmãos Rocha da Corrida Maluca. No desenho animado dos anos 1960, embora os dois estejam do mesmo lado, vivem se batendo com um bastão, deixando por vezes escapar a vitória na competição. Desde a eleição de Donald Trump, o cenário econômico internacional rompeu o status de relativa estabilidade. E, como na animação, caminha para um ambiente maluco contaminado de protecionismos. Conseguirá o Brasil se beneficiar desta situação?

Os Estados Unidos já anunciaram sobretaxas a importações chinesas equivalente a US$ 153 bilhões, prejudicando 1,3 mil produtos. Como retaliação, a China considera barreiras que totalizam US$ 50 bilhões em compras americanas. A lista dos 234 itens afetados incui a soja e o algodão, abrindo o caminho para beneficiar as vendas brasileiras de commodities. “As exportações da soja sul-americana para a China, incluindo a brasileira, podem aumentar consideravelmente”, diz Stefan Vogel, chefe de pesquisa de commodities agrícolas do Rabobank em Londres. De acordo com um estudo encomendado pelo Conselho de Exportação de Soja dos Estados Unidos, os americanos podem perder até US$ 3,3 bilhões e o Brasil ganhar até US$ 2,7 bilhões, caso as tarifas chinesas sejam impostas. Em 2017, a China, maior parceira comercial do Brasil, importou US$ 25,7 bilhões de soja.

Especialistas destacam os efeitos positivos no curto prazo para o Brasil. “O comércio internacional é oportunista”, diz Welber Barral, ex-secretário do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços e cofundador da Barral M Jorge Consultoria. “Haverá, pelo menos, um aumento de preços, beneficiando o produtor nacional de soja.” No governo, o tom é de cautela. Segundo uma fonte ligada à diplomacia brasileira, a guerra comercial não deve ser enxergada como uma maneira de conquista de novos mercados. A prioridade no momento, de acordo com a fonte, são as negociações contra a barreira do aço nos EUA. O Brasil foi temporariamente excluído da sobretaxa anunciada por Trump às importações do metal. Uma hipótese em avaliação no Itamaraty, para evitar a cobrança extra permanentemente, é a criação de cotas máximas de venda de aço.

Excetuando-se a soja, o Brasil terá dificuldades para colher outros frutos nesta disputa. No caso da carne bovina, por exemplo, um aumento nas vendas aos chineses depende das licenças sanitárias aos frigoríficos. O produto consta da lista de retaliação aos americanos. “Somente a soja teria espaço, pois o Brasil não está preparado para tentar exportar outras commodities ou manufaturados”, afirma Heloisa Carvalho, professora de economia internacional da Universidade Federal de Lavras. Na última semana, o presidente chinês Xi Jinping afirmou que “o foco apenas nos próprios interesses não levará a nada. Somente a cooperação pacífica pode realmente trazer resultados em que todos saem ganhando.”

Em entrevista à DINHEIRO, a ministra conselheira econômica na Embaixada da China no Brasil, Xia Xiaoling, nega que o seu país seja protecionista (leia abaixo). As barreiras protecionistas, que beneficiam a soja brasileira, podem ter um efeito mais corrosivo ao comércio mundial no longo prazo. “Se esse atrito comercial causar uma perda de confiança no sistema de comércio global e gerar mais protecionismo, o risco é o de desacelerar a tendência de crescimento internacional”, afirma Arthur Kroeber, professor de negócios internacionais da Universidade de Columbia, atualmente morando em Pequim. Neste caso, todos saem perdendo, inclusive o Brasil.


“Temos uma política transparente e não discriminatória”

Xia Xiaoling, ministra conselheira econômica e comercial na Embaixada da China no Brasil

Como a senhora vê a investigação americana que considera a China protecionista?
A investigação ignora a realidade chinesa. Os EUA alegam que o programa Made in China 2025 [que estimula a produção local] tem disponibilizado apoio governamental, resultando em concorrência desleal. A verdade é que é uma política transparente e não discriminatória, aplicável a todas as empresas sediadas na China, incluindo as americanas.

Os EUA reclamam que seu déficit comercial com a China é injusto.
O comércio bilateral é resultado dos livres desejo e interesse das empresas e consumidores dos dois países. O desequilíbrio no comércio sino-americano se deve, especialmente, aos problemas da estrutura econômica americana e ao fato de sua reserva ser inferior ao investimento. Aliás, os EUA não têm déficit comercial só com a China, mas também com muitos outros países.

Eles também se queixam que a China se apropria de propriedade intelectual.
Os EUA apontam que a China obriga empresas americanas a fazer transferência tecnológica às chinesas [quando operam juntas]. Nenhuma lei diz isso. O compartilhamento de tecnologia entre as empresas é baseado no contrato entre as partes, de acordo com a sua vontade própria. Aliás, muitas empresas americanas têm lucrado muito através das joint ventures na China, com lucros superiores aos conquistados nos EUA.

Quais medidas a China adotará para se estabelecer como uma economia de mercado?
A China irá reduzir significativamente as tarifas de importação de veículos e demais produtos. Buscará também um progresso mais rápido para aderir ao Acordo de Aquisições Governamentais da OMC. Nos próximos cinco anos, as importações devem chegar a US$ 10 trilhões.