Mercado Digital

Quem fala mais alto?

Amazon e Google querem impor suas vozes e apostam nos alto-falantes inteligentes numa briga em que a Apple ficou para trás

Quem fala mais alto?

O pioneiro: Jeff Bezos, da Amazon, foi o primeiro grande nome da tecnologia a apostar nos alto-falantes inteligentes / O rival: No comando do Google, Sundar Pichai já vê seus dispositivos ameaçarem o reinado da Amazon no mercado de voz

Há exatos 12 anos, Steve Jobs (1955-2011) mudou o mundo. Mais precisamente, dia 9 de janeiro de 2007. O fundador da Apple subiu ao palco do Moscone Center, em São Francisco, para quebrar padrões. “De vez em quando um produto revolucionário chega ao mercado e muda tudo”, disse, ao apresentar um smartphone que fez nascer a nova era da economia digital. Nesse período, a gigante de Cupertino se tornou a mais emblemática e valiosa fabricante de celulares do planeta. Mas, como Jobs sabia, a qualquer momento outro produto inovador poderia traçar novo rumo para a indústria tecnológica. Antes revolucionária, aconteceu à Apple o que ninguém suspeitaria: não liderar. A empresa demorou a ouvir o frisson da disruptiva virada digital causada pelos alto-falantes inteligentes. A ironia é que, entre as gigantes da tecnologia, ela foi a primeira a incorporar uma eficiente assistente de voz em seus produtos, a Siri, em 2011.

Segundo a empresa de pesquisas Strategy Analytics, o alto-falante HomePod, da Apple, detinha míseros 4% do mercado americano no segundo semestre de 2018. Diversos motivos explicam a baixa adoção. O preço é um deles. Por US$ 349, o dispositivo é consideravelmente mais salgado do que seus rivais, que podem ser encontrados a partir de US$ 99. O funcionamento somente com iPhones e outros produtos do clube da maçã também atrapalha. Nenhum deles, entretanto, supera o principal empecilho: ter sido lançado somente em 2017. Era muito tarde, ainda mais em uma indústria que não perdoa atrasos.

Briga de gigantes: enquanto os dispositivos Google Home (1) e Amazon Echo (2) dominam o mercado com 80% das vendas totais, o Facebook, com o Portal (3), e a Apple, com o HomePod (4) ainda buscam um lugar ao sol no segmento de alto-falantes inteligentes

Isso talvez explique por que uma varejista, que até então tinha como principal dispositivo eletrônico um leitor digital, conseguiu se consolidar na liderança absoluta dos alto-falantes inteligentes. A Amazon viu em uma espécie de caixa de som cilíndrica o próximo grande passo da tecnologia. No ranking da Strategy Analytics os diferentes modelos do alto-falante Echo representam 63% do mercado – 16 vezes mais que o produto da Apple. Jeff Bezos, homem mais rico do planeta, com fortuna estimada pela Bloomberg em US$ 137 bilhões, entendeu que tem o mercado em suas mãos. Ou melhor, em suas cordas vocais. Essa percepção ajuda a explicar por que sua empresa é a companhia mais valiosa do planeta, avaliada na quarta-feira 9 em US$ 811,4 bilhões.

Lançado em 2014 por US$ 199 e equipado com a assistente de voz Alexa, o alto-falante inteligente da gigante de Seattle revolucionou. Por comandos de voz, qualquer pessoa poderia reproduzir músicas de serviços de streaming ou conectá-lo a smartphones e tablets por Bluetooth. O que era simples tornou-se completo com o passar do tempo. Com a evolução da tecnologia de internet das coisas, tornou-se possível conectar produtos como lâmpadas, câmeras, fechaduras, televisores, aspiradores de pó, termostatos e até micro-ondas ao Echo. E a Amazon dava um passo importante rumo ao futuro.

Nesta indústria, quem faz isso costuma colher os louros. Apesar de não revelar quanto foi a receita obtida com os alto-falantes inteligentes comercializados, em seu relatório financeiro divulgado em outubro a Amazon destacou que “a chegada de novos produtos da linha Echo impulsionaram as vendas online”. Entre julho e agosto de 2018, a varejista faturou US$ 56,6 bilhões, 29% a mais do que em 2017. O lucro operacional multiplicou por dez, passando de US$ 347 milhões para US$ 3,7 bilhões.

Visionário: com Jobs, a Apple liderou os tempos do mobile-first. Mas a empresa perdeu espaço na nova revolução, a era voice-first

GOOGLE NO JOGO Entre as gigantes de tecnologia a Amazon lidera com folga, mas em apenas dois anos o Google já mostrou que está na briga. A empresa colocou sua linha de alto-falantes inteligentes no mercado em 2016 e já detém 17% de share na pesquisa da Strategy Analytics, que se refere ao mercado americano. Amazon e Google possuem 80% do segmento enquanto os demais 20% se dividem entre produtos Apple, Bose, Samsung e Sonos. Outra pesquisa, esta global, feita pela Canalys, mostra que dos 19,7 milhões de aparelhos vendidos apenas no terceiro trimestre do ano passado – 137% a mais do que em 2017 –, 6,3 milhões (31,9%) foram fabricados pelo império de Bezos e 5,9 milhões pela gigante de buscas comandada por Sundar Pichai (29,8%), apenas 400 mil unidades a mais.

“Apple e Google dominaram o ecossistema conhecido por mobile-first. Agora, Amazon e Google apresentam a próxima fronteira para um novo ecossistema, o voice-first”, disse, no segundo semestre de 2018, Manjunath Bhat, analista da consultoria americana Gartner. Nas projeções da empresa, em três anos metade dos produtos premium da chamada linha branca de eletrodomésticos terá interface de fala. “A voz permite todo o tipo de coisas”, disse Nick Fox, vice-presidente do Google, em entrevista à revista americana Fortune, em outubro passado. “Há sempre uma mudança tectônica na tecnologia. E nós achamos que a voz é uma delas.” A maior prova disso foi dada durante a Consumer Electronics Show, a maior feira de tecnologia
do mundo e que ocorreu esta semana, em Las Vegas, nos Estados Unidos. Assim como no ano passado, a empresa de Mountain View manteve o foco de suas atenções no Assistant, sua secretária virtual criada para bater de frente com a Siri (Apple) e a Alexa (Amazon).

A estratégia do Google se dá mais por inovações no Assistant do que no Home, que, de mais interessante, passou a funcionar como intérprete capaz de traduzir 27 idiomas diferentes para ajudar na conversação online. A ideia é deixá-lo mais parrudo e capaz de se conectar com cada vez mais dispositivos. Em um ano, o número de produtos que trabalham com o sistema passou de 1,5 mil para 10 mil. Ainda é menos que a metade se comparada à assistente da Amazon, que pode ser usada em cerca de 28 mil aparelhos diferentes. Reduzir essa distância é decisivo. E há quem aposte nisso. “O Google Home pode diminuir dramaticamente o potencial de vendas do Amazon Echo”, afirma Patrick Moorhead, presidente da consultoria americana Moor Insights and Strategy.

Fazendo coro: Google aumentou de 1,5 mil para 10 mil o número de dispositivos que interagem por voz ao Assistant. Eles vão de telas a micro-ondas. Do outro lado do mundo, a chinesa Alibaba começa a vingar seu primeiro alto-falante inteligente, o AliGenie (abaixo)

GRITANDO POR FORA Segundo a consultoria Global Market Insights, o mercado de alto-falantes inteligentes movimentou US$ 4,5 bilhões em 2017. Para 2024, a cifra
deve chegar a US$ 30 bilhões. É um número alto e que atrai não apenas a atenção de Amazon, Google e Apple. No Vale do Silício, outra gigante da tecnologia já murmura suas primeiras palavras neste sentido. Em outubro, o Facebook lançou o Portal, monitor inteligente equipado com uma câmera e cujo principal uso é focado em conversas de vídeo usando o aplicativo Messenger. Em duas versões, que saem entre US$ 199 e US$ 349, o produto chega para competir diretamente com o Echo Show, da Amazon, que custa US$ 229. A rivalidade, entretanto, para por aí. Sabe quem é a assistente de voz que dá vida ao dispositivo? A Alexa.

Se nos Estados Unidos a disputa por quem fala mais alto ganha decibéis, do outro lado do planeta a movimentação começa a ser ouvida de forma clara. Na pesquisa de vendas globais da Canalys, no terceiro trimestre de 2017 Alibaba e Xiaomi responderam juntas por 0,2% das vendas de alto-falantes inteligentes. Um ano depois, o Alibaba era responsável por 11,1% das vendas, motivadas pelo AliGenie, o principal smartspeaker da região, enquanto a Xiaomi respondia por uma fatia de 9,7% do mercado global – os dois mais as linhas Amazon (31,9%) e Google (29,8%) significam 82,5% do mercado mundial. Essa turma deve ganhar um concorrente de peso. Um que tem ajudado bastante a tirar o sono da Apple: a Huawei. Em agosto do ano passado, a gigante chinesa dos smartphones apresentou o Cube – que, aliás, não tem formato de cubo. Sabe quem é sua assistente de voz? Jeff Bezos com certeza sabe. A Alexa.