Coluna

Por que William Ury é chamado de “Brexterminator”

Por que William Ury é chamado de “Brexterminator”

Consagrado como um dos maiores negociadores do planeta, com participação direta nas negociações de paz  entre o governo colombiano e a organização guerrilheira  Farc, pondo fim a um conflito que durou 52 anos, o antropólogo americano William Ury, professor de Harvard, acaba de ser contratado pela Inglaterra  para assessorar os funcionários britânicos encarregados de conduzir o encaminhamento do Brexit, a saída do Reino Unido da União Europeia.

A noticia foi divulgada com estardalhaço no último fim de semana pela imprensa inglêsa – o jornal de Sun, por exemplo,  chegou a batizá-lo de Brexterminator. “O americano é especializado em hostis e emocionais conflitos e recomenda voltar a raiva do outro lado contra eles”, publicou o jornal.

A repercussão do anúncio da colaboração de Ury, diretor e fundador do curso Global Negociation Project, em Harvard,  foi reforçada pelo conflituoso encontro entre a Primeiro Ministra Theresa May e por uma delegação encabeçada pelo presidente da Comissão Europeia, o luxemburguês Jean-Claude Juncker.

Segundo relatos oficiais, o tempo esquentou durante o jantar, realizado no número 10 de Downing Street, em Londres, residência oficial e escritório dos chefes do governo britânico, no dia 26 de abril, acirrando as hostilidades entre os dois lados.

Um dos principais motivos da saia justa entre May e Juncker teria sido a negativa da inglesa de pagar uma indenização de 60 bilhões de euros, reivindicadas pela Comunidade Europeia pela saída do Reino Unidos. Na ocasião, Juncker, que afirmou ter saído do encontro 10 vezes mais cético do que quando entrara, acusou sua interlocutora de “viver numa outra galáxia.  Bateu e levou: em resposta, May atribuiu aos diplomatas da União Europeia o desejo de interferir nas eleições gerais  britânicas.

Ury, hoje com 64 anos de idade, é um velho conhecido dos ingleses. No final do século passado, ele foi um dos negociadores do processo que resultou na assinatura  do Acordo de Belfast, que pôs um fim à guerra entre  a Coroa Britânica e o Exército Republicano Irlandês (IRA), em 1998.

No Brasil, por seu turno, o professor americano virou uma figurinha carimbada. Felizmente, por sua atuação em outro gênero de conflito, na seara corporativa, menos sangrento mas tão desgastante quanto os político militares. Foi ele, o principal artífice do tratado de paz entre os empresários Abilio Diniz e Jean Pierre Naori, depois de uma  ruidosa disputa societária em torno do controle do grupo Pão de Açúcar, que se arrastou por cerca de três anos, no começo da década.

Como se sabe, Diniz, que vendera a empresa fundada por seu pai, o falecido Valentim dos Santos Diniz, para os franceses do Casino, comandado por Naori, tentou descumprir o acordo. A guerra societária só teve um fim, quando Naori conseguiu colocar os antigos sócios ao redor de uma mesa e negociar civilizadamente.