Economia

Quando o remédio vira veneno

Na tentativa de neutralizar a inflação com dose cavalar de Selic, o Banco Central corre o risco de não curar a doença e ainda matar a já debilitada conjuntura macroeconômica. Vendas em queda hoje podem se tornar recessão, desemprego e aumento das desigualdades amanhã.

Crédito: Ilustração: Evandro rodrigues

A grande maioria dos sapos mapeados e estudados pelos homens tem uma característica em comum. Eles possuem glândulas de veneno capazes de incomodar, coçar, paralisar ou até matar quem se aproxima, a depender do tipo de veneno e da quantidade expelida. O mesmo paralelo pode ser traçado com a taxa de juro básico de um país. Se entendermos o aumento do índice como a letalidade do veneno do sapo, a dosagem torna-se a principal arma para diferenciar a autoproteção da reação desproporcional. E o Brasil está tentando ajustar exatamente esta medição. Com a Selic em 12,75%, depois de dez altas consecutivas, o Brasil assumiu a primeira colocação no ranking global de juros reais em uma classificação da Infinity Asset Management, e ainda assim figura em uma sólida terceira colocação no ranking de inflação da OCDE. O que isso quer dizer? Que aumentar a letalidade do veneno do sapo para combater um problema maior que ele não resolve nada, e pode piorar a situação.

Ou seja, o pior dos mundos: a elevação da taxa de juro básico promovida pelo Banco Central não tem ajudado a curar a inflação, que em abril atingiu 12,1% no acumulado em 12 meses, o maior índice desde abril de 1996, há 26 anos. Com isso, o amargo remédio dos juros se mostra, por enquanto, apenas um veneno para a economia real e o setor produtivo. A engrenagem é sempre a mesma. Juros mais altos significam custos maiores para captar recursos e empréstimos, sejam para fluxo de caixa ou investimento. Juros altos desestimulam o consumo. E o consumo em queda derruba a produção industrial e as vendas do comércio. E tudo isso serve com lenha na fogueira do desemprego.

1,3% é a projeção de alta do PIB deste ano depois do aumento da Selic, que inibe a atividade econômica

Alguns setores já sentem os juros queimar na pele. As vendas de veículos, entre janeiro e abril, despencaram 22,8%. A produção de eletrodomésticos seguiu o mesmo caminho. O setor que já havia começado o ano em retração de 20% sobre 2021, caiu mais 25,3% no primeiro trimestre em relação a igual período de 2021. Os dados da pesquisa de produção industrial do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que, além das dificuldades de acesso a insumos e aumento de custo por causa de desorganização da cadeia produtiva e da elevação dos preços de commodities trazidos pela pandemia, o setor está reprimido. Com menos poder de compra, o consumidor está priorizando a aquisição de alimentos e o pagamento de despesas como energia e combustível, em vez de trocar de televisão, geladeira ou fogão.

IMPACTOS Para a economista Cláudia Vasconcellos, professora de Ciências Contábeis no Centro de Ciências Sociais e Aplicadas da Universidade Presbiteriana Mackenzie, a combinação é perigosa, pois a inflação gera uma redução de consumo, elevação de preços, aumento da taxa de juros e consequentemente queda da atividade produtiva e investimentos empresariais. “Isso deve reduzir a projeção do PIB dos atuais 2,5% para, aproximadamente, 1,3% no ano em 2022”, afirmou.

Na avaliação dela, mesmo que o BC mantenha o ritmo de alta da Selic, o veneno pode não ser o melhor antídoto para combater o aumento de preços. “Conter a inflação com aumento de juros talvez não seja suficiente, pois não foi gerada pelo excesso de consumo, mas pela redução de oferta”, disse Cláudia. “O Banco Central e o governo precisarão atuar de outra forma para reduzir a taxa em conjunto.”

Sergio Lima

“E apropriado que o aperto monetário continue avançando significativamente em território ainda mais contracionista” Roberto Campos Neto, na Ata do Copom.

O desafio de equilibrar juros e inflação cresce à medida que a alta de preços se torna generalizada na economia e de diferentes fontes, o que no dicionário economês é chamado de inflação difusa. Em tem características únicas por ser mais difícil de controlar que o normal. Na visão do economista João Beck, sócio da Corretora BRA e especialista em IPCA, o ambiente inflacionário deve melhorar quando os fatores guerra e pandemia estiverem mais bem resolvidos. “Como o aumento de preços ainda continua bem difuso, mas pressionado principalmente por alimentos e combustíveis, outros indicadores de atividade e de oscilação de preços já dão sinais de que poderemos ver uma redução da taxa nos próximos trimestres”, afirmou Beck, que alerta que a inflação nos EUA (a maior em 40 anos) e a alta dos juros mundo afora terão grande peso sobre os rumos dos indicadores também no Brasil.

O economista Rafael Marques, CEO da corretora Philos Invest, concorda. Segundo ele, o balanço de risco segue assimétrico ainda para cima, refletindo uma elevação do cenário global, com uma política monetária restritiva vinda especialmente dos Estados Unidos, “além da deterioração de alguns problemas de cadeia produtiva devido às medidas tomadas de restrição social na China”.

EM BAIXA Um dos impactos mais evidentes do aumento da Selic é a desaceleração do mercado imobiliário que depende de financiamento. (Crédito:Edilson Dantas)

Diante desse cenário de incertezas, o Brasil precisa manter uma política econômica estruturada e isso envolve domar a inflação usando outras armas além da Selic. Na quarta-feira (11) Guedes tentou dar um passo nessa direção. E anunciou a redução do imposto de importação de 11 alimentos, entre eles trigo, carne, e frango, para estimular a chegada de produtos nas gôndolas e baratear os preços. A mesma medida é estudada para itens da construção civil, mas ainda há resistência por parte da indústria de base. De qualquer forma, é um passo na direção de usar uma solução que não seja apenas o veneno do sapo para salvar a economia.