Estilo

Quando moda e arte se fundem

Nova coleção da Dior, feita em parceria com o artista plástico escocês Peter Doig, reforça o quanto as colaborações vêm definindo a imgem da da grife francesa.

Crédito: Divulgação

Quando o estilista Kim Jones assumiu a posição de diretor criativo da linha masculina da Dior, em 2018, ele contou que a grife queria “mais cores e diversão”. E é exatamente isso que ele vem entregando nas coleções. A mais recente, feita em parceria com o artista plástico escocês Peter Doig, um dos mais importantes da cena contemporânea, vem atraindo elogios da crítica e mostrando que a colaboração entre moda e arte rende trabalhos importantes para as duas áreas.

A princípio, Doig, cujas obras estão entre as mais caras do mundo entre artistas vivos e já superaram US$ 25 milhões em leilões, ficou reticente sobre o trabalho com a grife francesa. “Eu não queria simplesmente colocar o logo da Dior ou criar camisetas com minhas pinturas”, afirmou à revista Numéro. As dúvidas foram embora quando ele conheceu o estilista pessoalmente e descobriu que ambos compartilhavam a mesma admiração por alguns pintores, escritores e músicos. O trabalho colaborativo deu origem a jaquetas, calças, camisas, bolsas, carteiras e outros acessórios.

“Não se trata de uma releitura. As pinceladas impressionistas de Doig foram transpostas para a passarela com muita assertividade”, disse Lilyan Berlim, professora e especialista em mercado de luxo da ESPM. Há um esmero técnico em fazer essa adaptação. A experiência de Kim Jones com as artes plásticas certamente ajudou. Em uma coleção anterior para a Dior, ele trabalhou com as obras do pintor ganês Amoako Boafo, conhecido pelos retratos a óleo.

ABERTURA O diretor criativo da linha masculina da Dior, Kim Jones já havia convidado outros artistas para suas colaborar em suas coleções. (Crédito:Divulgação)

Essa capacidade de colaboração também tem feito com que Kim Jones seja considerado um dos principais estilistas a aproximar a alta costura e o streetwear, como Virgil Abloh faz na Louis Vuitton. “Jones fala diretamente com millenials e tem um apelo muito forte com a geração Z”, afirmou Lilyan. “Ao mesmo tempo, ele não perde o olhar da tradição. Soube mesclar e trabalhar com públicos mais velhos, que continuam sendo os grandes consumidores.” Maria Grazia Chiuri, diretora criativa da Dior e responsável pela linha feminina também tem um perfil ousado que levou até as palavras da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie às passarelas. Juntos, eles dão à marca um verniz moderno e engajado.

Além do reconhecimento dos críticos e dos estudiosos da moda, esse diálogo com diferentes gerações tem dado resultados financeiros para a Dior. O conglomerado LVMH, do qual a grife francesa faz parte, não divulga as vendas individuais de suas mais de 70 marcas. Mas no mais recente relatório aos investidores, em que anuncia a receita recorde de 28,7 bilhões de euros no primeiro semestre, aponta a performance “extraordinária” de Christian Dior, com Celine, Fendi, Loewe e Louis Vuitton. O FutureBrand Index 2021, que lista as 100 maiores empresas de acordo com a percepção global das marcas, aponta ainda que a LVMH saltou da 66ª posição em 2020 para a 29ª neste ano, beneficiada por um interesse crescente dos consumidores por artigos de luxo.

INTERESSE ANTIGO O flerte da moda com as artes plásticas não é exatamente uma novidade. Ainda na década de 1930, a estilista Elsa Schiaparelli trabalhou com Salvador Dali, seu amigo, para criar algumas peças hoje icônicas, como o vestido Lagosta. O grande momento de união, no entanto, veio na década de 1960, quando Yves Saint Laurent criou uma linha de vestidos inspirados no trabalho de Piet Mondrian. Anos depois, na década de 1990, Gianni Versace também criou uma coleção baseada na estética desenvolvida por Andy Warhol.

Na Dior, a ligação entre as duas manifestações artísticas também é bastante antiga. O próprio Christian Dior abriu uma galeria de arte em Paris em 1928, com a benção financeira dos pais aristocratas, mas sem o direito de usar o sobrenome da família. O espaço, batizado com o nome do amigo de Dior Jacques Bonjean, abrigou exposições de artistas como Alexander Calder, Giorgio de Chirico e Max Ernst. Foi ainda o primeiro a mostrar A Persistência da Memória, obra clássica de Dali. A galeria fechou em 1933, mas o período em que atuou como diretor foi determinante para Dior moldar sua sensibilidade estética antes de se aventurar pela moda. Se as coleções recentes servem de exemplo, esse interesse pelas artes plásticas continua a influenciar as criações da grife.