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Quando a fome vira negócio: mais brasileiros famintos fazem indústria e varejo alimentar mudarem o que andamos comendo

Enquanto a população luta contra o aumento dos preços dos alimentos e o país retorna para o Mapa da Fome, empresas do setor investem em produtos com mais aditivos e preços mais baixos.

Crédito: Vincent Bosson

SEM SABER O QUE COMER 61,3 milhões de brasileiros vivem em situação de insegurança alimentar. (Crédito: Vincent Bosson)

Fome no Brasil é um paradoxo difícil de explicar. Um dos principais produtores de alimentos no mundo, o País vê parte considerável da população viver em situação de insegurança alimentar. São 61,3 milhões de pessoas, de acordo com a FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), número próximo ao de habitantes da Itália. Motivado pela alta nos preços, pelo grande número de desempregados e por substancial desigualdade econômica, não ter a certeza de um alimento à mesa virou parte da realidade, e junto dela cresce um mercado que pode agravar a situação nutricional do brasileiro. São subprodutos que antes eram descartados e agora ocupam espaço nas gôndolas dos supermercados. A exposição dessa categoria ganhou espaço nas redes sociais, causando revolta e preocupação. De gigantes dos alimentos, como a Nestlé, até supermercados regionais, o varejo tenta abocanhar uma fatia da população que não tem recursos.

O panorama da crise alimentar do Brasil está ligado, principalmente, ao acesso à renda, de acordo com o representante-adjunto da FAO, Gustavo Chianca. Com menos dinheiro, seja pelo aumento dos preços ou pelo desemprego, as famílias passaram a buscar alternativas para sobreviver. “Ou você deixa de alimentar [na quantidade habitual], que é o caso de muitas famílias, ou você reduz a qualidade dos seus alimentos”, disse Chianca. Essa piora na qualidade engloba opções mais baratas e menos nutritivas “com mais açúcar, mais processados, mais sais, enfim, outros tipos de alimentos que não são saudáveis”. Essa substituição, ligada a preocupações financeiras, é um fenômeno observado em todo o mundo e em diversos setores.

Mathilde MissioneiroAlta dos preços com inflação alta nos alimentos, brasileiros buscam alternativas para baratear o carrinho (Crédito: Mathilde Missioneiro)

É justamente de olho nessa parcela da população que as empresas de alimentos e supermercados colocam à venda alternativas mais baratas para substituição no carrinho de compra. A multinacional Nestlé lançou recentemente uma mistura de creme de leite que leva soro de leite na composição e uma mistura láctea condensada que emula o leite condensado – com amido e soro de leite na fórmula. A empresa explica que os produtos são “alternativas com menor desembolso para as famílias brasileiras que querem continuar preparando suas receitas sem abrir mão da segurança e da qualidade Nestlé”. Já a marca Cristina, do grupo Quatá Alimentos, disponibiliza aos consumidores uma Bebida Láctea UHT. A empresa afirma que ela é composta por 40% de leite e que o produto “atende a uma parcela da população que viu seu poder de compra encolher com a alta da inflação.”

Alimentos superprocessados podem aliviar a sensação de fome, mas não suprem as necessidades de nutrição. Chianca explica que o consumo [em excesso] desses produtos está ligado a subnutrição e obesidade, problemas de saúde pública que atingem, principalmente, mulheres e crianças de camadas mais pobres. A escolha por esses itens está na facilidade de acesso e consumo e no preço, já que se tornam opções mais baratas.

Para que o problema da alimentação seja superado, de acordo com Chianca, é necessário apoio à agricultura familiar e próxima das grandes cidades e o aumento da renda das famílias, que em junho foi 59,6% comprometida com a alimentação, de acordo com o Dieese. Em meio a um cenário crítico, o Auxílio Brasil surge como alívio, tardio, mas que oferece soluções imediatas para o problema. Enquanto isso, a indústria se adapta para não perder mercado enquanto a população busca o que comer.