Economia

Prova de fogo

Possibilidade dos Estados Unidos taxarem o aço e o alumínio brasileiros coloca em teste a capacidade diplomática de Jair Bolsonaro e cria nova fonte de incerteza para o mercado

Prova de fogo
FLUTUAÇÃO CONTINUARÁ Condições macroeconônimas manterão o dólar alto, independentemente do que pensa Trump sobre o caminho da política cambial brasileira (Crédito:JOHANNES EISELE)

Trump foi Trump. Bolsonaro foi Bolsonaro. E ainda assim tudo foi muito constrangedor… para o Brasil. Em circunstâncias diplomáticas convencionais, sempre antes de uma decisão mais dura entre países há um telefonema. Ninguém é mundialmente pego de surpresa. Ao presidente brasileiro coube o papel de ‘último-a-saber’. O americano não parece adepto a regras de etiqueta e foi ao Twitter dizer que Brasil e Argentina têm deliberadamente desvalorizado suas moedas frente ao dólar, prejudicando agricultores norte-americanos. “Portanto, com efeito imediato, irei restaurar as tarifas sobre todo o aço e o alumínio enviados para os Estados Unidos destes países”, escreveu na segunda-feira 2.

A tuitada colocou o Planalto em mais uma saia justa internacional com um aliado. Mais do que isso, mostrou aos olhos do planeta que essa aliança existe apenas no imaginário do presidente brasileiro. Para Trump, Bolsonaro não passa de um fã apaixonado. Entre o ‘America First’ e ‘Brasil Acima de Tudo’ deu Estados Unidos. Essa DR (discussão de relacionamento) diplomática foi (mais uma) vergonha global. O problema maior, porém, serão seus efeitos práticos. Para além de mexer no Produto Interno Bruto, afetar toda a cadeia siderúrgica e eventualmente se tornar outro obstáculo para a retomada econômica, o ruído com a maior potência mundial tem várias nuances. Uma delas seria a resposta de Trump ao flerte brasileiro com os chineses e a abertura com a União Europeia. Independentemente da motivação de Trump, o País foi humilhado diplomaticamente e terá de avaliar o estrago economicamente.

O argumento de Trump para ameaçar elevar a taxa do aço brasileiro é que o governo estaria desvalorizando o câmbio artificialmente para tornar as exportações mais atrativas. O americano ignorou os fatos, e sabe disso. O Banco Central, inclusive, faz o movimento oposto, realizando leilões para conter o dólar. O estopim americano poderia estar na fala do ministro da Economia, Paulo Guedes, que na última semana disse que seria melhor “acostumar-se com o dólar alto”. Do início do ano até a quarta-feira 4, o dólar subiu 9,63% frente ao real. Só em novembro, a alta foi de 5,73%, e o real foi a quarta moeda que mais perdeu valor em relação ao dólar, segundo a Austin Rating.

No dito pelo não dito, o fato é que o Brasil tomou uma rasteira do país de maior importância pessoal para Bolsonaro. Agora, sentindo na pele o efeito do nacionalismo trumpista, ele se limitou a dizer que não há política de desvalorização em curso e que tentará negociar pessoalmente com Trump – até quinta-feira 5, Bolsonaro não havia respondido pelo Twitter. Hoje, as taxas cobradas na exportação para os Estados Unidos são de 0,9% (para o aço) e 2% (para o alumínio). Apesar de Trump citar que a medida teria “efeito imediato”, não está claro se a sobretaxa será a mesma adotada temporariamente em 2018 (25% sobre o aço e 10% sobre o alumínio), nem quando ela de fato passará a valer. Quanto à alta do dólar, ela deve persistir, avalia Cristiano Oliveira, economista-chefe do Banco Fibra. “Além da questão estrutural (como juro real baixo e PIB potencial baixo), há o fluxo cambial negativo, maior déficit em conta corrente, piora nos termos de troca, ruídos provocados pelo próprio governo e fatores externos.”

A Associação Brasileira do Alumínio (Abal) reforça que o setor paga sobretaxa desde junho de 2018. “Esse acerto foi ratificado quando houve possibilidade de substituir a sobretaxa por cotas limitadas de exportação. Na época, optamos pela sobretaxa”, informa a entidade. Já a sobretaxa do aço foi a primeira arma de Trump na guerra comercial que visava, sobretudo, atingir a economia chinesa sufocando os produtores locais. Em março de 2018, a indústria brasileira classificou a taxa como “injustificada e ilegal”, com potencial de provocar “dano significativo” às siderúrgicas instaladas no Brasil. Hoje o aço é o nosso mais importante produto manufaturado de exportação. De janeiro a outubro de 2019, foram exportados US$ 9 bilhões em aço, mais US$ 1,2 bilhão em obras de aço, ou 53% de todas as exportações de manufaturados.

Apesar de importantes, os EUA não são os únicos compradores. Por esse motivo, Sérgio Vale, economista chefe da MB Associados, avalia que o impacto não será tão desastroso. Segundo ele, a exportação de produtos semimanufaturados de aços e ferro para o país é 1,2% da exportação total brasileira. No conjunto das exportações do Brasil para os americanos, a fatia foi de 9,3% entre janeiro a outubro deste ano. Mas a questão não fica restrita ao âmbito financeiro. A diplomata de carreira e ex-secretária adjunta da embaixada brasileira nos Estados Unidos entre 2000 e 2012, Célia Moraes, avalia os danos. “A decisão de Trump é protecionista, inimiga do livre comércio, o que desmoraliza a filosofia neoliberal do governo [Bolsonaro]. Também significa uma humilhação diplomática muito grande ao Brasil, que fez várias concessões unilaterais aos Estados Unidos, que, por sua vez, retribuiram dessa forma”. Para ela, a decisão mostra que Trump busca pretextos para proteger a própria indústria siderúrgica – concentrada, aliás, em estados importantes para reeleição dele no ano que vem.

IMPACTO Apesar da mensagem de Trump, o reflexo foi mínimo entre as companhias do ramo siderúrgico listadas na B3. Segundo a analista da BB Investimentos Gabriela Cortez, alguns motivos corroboram para que não haja desespero. Primeiro porque as companhias de aço com capital aberto não dependem dos EUA, e também porque Trump muitas vezes só ameaça. Outro fator destacado por analistas ouvidos pela DINHEIRO é que após os EUA ensaiarem impor barreiras ao aço e alumínio ano passado, as empresas nacionais buscaram novos clientes, fortalecendo o mercado interno. Em 2018, quando Washington anunciou a taxa, o setor negociou por cotas em vez das taxas. Desde então, só as exportações que excederem um volume previamente acertado têm sobretaxa. Vale lembrar que, em 2019, as cotas já foram atingidas.

Entretanto, mesmo com a relativa vitória em relação ao protecionismo norte-americano, as cotas fizeram as exportações brasileiras aos Estados Unidos caírem. Segundo o ministério da Economia, o Brasil exportou US$ 2,26 bilhões em produtos de ferro ou aço para os americanos no acumulado deste ano, 16% menos que um ano antes. Luiz Francisco Caetano, analista da Planner, diz que “pelas cotas já implantadas, as brasileiras procuraram outros mercados, por isso, não haverá um impacto tão significativo”. Com maior atenção à demanda doméstica, o risco de empresas como CSN e Usiminas está mais associado à fragilidade do PIB brasileiro do que a Trump. Em relação à Gerdau, única que possui plantas nos dois países, a taxação pode ser até positiva, já que a empresa terá mais liberdade para atuar sozinha nesses dois mercados. Prova disso é que mesmo antes do anúncio de Trump, o mercado brasileiro de aço já se preparava para uma alta nos preços. Segundo analistas do Credit Suisse e do BTG Pactual, os resultados da Usiminas, por exemplo, abriram espaço para o reajuste. No final de novembro, a Gerdau também sinalizou a intenção de acompanhar a Usiminas, e subir preços. Em relatório, Leonardo Correa e Caio Greiner, do BTG Pactual, ressaltam que as condições para alta em 2020 são ideais, principalmente se a construção reagir.

As grandes empresas de aço e alumínio podem até não sentir os efeitos da taxa, mas o professor de economia da USP José Carlos Maccari lembra que o resto da cadeia siderúrgica sentirão. Exemplo são regiões dependentes da exportação de aço, como Volta Redonda (RJ), Ipatinga (MG) e Cubatão (SP), que perderiam receitas. Para Fernando Bambini, economista e consultor, pior que a perda de receita é a incerteza. “O risco faz parte, a incerteza paralisa”, diz. Para ele, a ameaça trava investimentos em toda a cadeia produtiva, e prejudica como um todo a indústria que, segundo dados de outubro do IBGE, opera 15,8% abaixo do pico de 2011. Exemplo dessa tensão foi compartilhada por Gustavo Girão, presidente da GG Equipamentos Industriais. Situada em Cubatão, a empresa tem boa parte da receita atrelada a serviços para exportadores de aço. “Hoje 60% do faturamento vem da exportação.”

AMERICA FIRST A ameaça de sobretaxa não foi a primeira polêmica a atingir o Brasil nos últimos meses. Apesar do esboço de amizade entre Bolsonaro e Trump, em março uma inspeção americana aos frigoríficos brasileiros frustrou Brasília ao manter a suspensão da importação de carne do País. Decisão que vem desde 2017, após a deflagração da Operação Carne Fraca. Outro golpe se deu em outubro, quando Trump deixou de cumprir a promessa de apoiar a inclusão do Brasil na OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), optando pela Argentina. Mesmo com essa sequência, a ex-diplomata Célia Moraes avalia que o governo brasileiro “vê tudo pelo filtro de que o País deve se alinhar automaticamente. Espera-se que isso [o anúncio das tarifas] faça o Brasil adotar uma linha mais pragmática nas suas relações com os Estados Unidos”.

Enquanto diplomatas e empresários mensuram o estrago, o tom do governo Bolsonaro é de cautela. Ou inércia. Segundo o subsecretário de Inteligência e Estatísticas da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) do Ministério da Economia, Herlon Brandão, ainda é cedo para analisar o impacto. No Congresso Nacional, o tom é menos ameno. O presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado, Nelsinho Trad (PSD-MS), disse que a ação de Trump é eleitoreira. “Ele aproveita um momento de campanha eleitoral para se credenciar junto ao agronegócio americano.” Dentro desse argumento de Trad, cabe também lembrar a inquietação dos agricultores norte-americanos com o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia. Pelo menos é o que avalia o presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro.

MONTANDO UM PLANO B Companhias brasileiras buscam alternativas para driblar eventuais problemas para exportar aos Estados Unidos (Crédito:Marcelo Coelho)

Já Maurício Gomes, professor de relações internacionais da UFRJ, diz que Trump criou uma cortina de fumaça. “Ele enfrenta processo de impeachment e analistas esperavam alguma fala polêmica. O Brasil foi sorteado”. Mas, aos que acham que a saia justa é mérito (ou demérito) de Bolsonaro, Gomes lembra casos similares. “Entre 2001 e 2009, no governo Bush, aconteceu a mesma ameaça.” Sobre a capacidade de Bolsonaro reverter essa sobretaxa, o professor é cético. “Não acho que será fácil. Trump não é fácil.” Sair de uma situação dessas exige um tipo de postura que a atual diplomacia brasileira, sob o comando de Ernesto Araújo, parece desconhecer. Um caso emblemático poderia ajudar na lição porque também envolveu a tarifa do aço e as duas nações. Nos anos 1970, o então presidente militar Ernesto Geisel se viu em uma saia justa semelhante. À época, o então ministro da Fazenda, Mario Henrique Simonsen, afirmou que os Estados Unidos queriam elevar os impostos do aço. Para contornar a situação, e orientado por um secretário, o ministro encontrou uma solução: impor taxação equivalente para comercialização de filmes americanos em solo tupiniquim. A pressão deu certo, e o então presidente Gerald Ford tirou a proposta da mesa. Agora, resta saber se Bolsonaro tem uma carta na manga tão boa. Ou o fim do filme não terá final feliz.

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