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Chile tem 23 mortos em cinco semanas de protestos

Chile tem 23 mortos em cinco semanas de protestos

Manifestantes ajudam um companheiro ferido durante protesto, em Antofagasta, Chile, em 21 de novembro de 2019 - AFP

O número de mortos subiu para 23 cinco semanas após o início da convulsão social no Chile, onde incêndios, saques e manifestações não cessam em várias cidades, e nenhuma medida, nem um acordo político, conseguiu aplacar a violência.

A vítima mais recente é um menor de 13 anos, que foi atropelado por uma caminhonete durante as manifestações na cidade de Arica (2.800 km ao norte de Santiago). Um adulto que o acompanhava ficou ferido e o motorista do veículo foi detido, informou nesta sexta-feira (22) a vice-secretaria do Interior.

Desde 18 de outubro, quando protestos pelo aumento da passagem do metrô resultaram em demandas mais amplas e na pior crise social em três décadas de democracia, já morreram 23 pessoas, enquanto mais de duas mil ficaram feridas. O boletim inclui mais de 200 pessoas que sofreram lesões oculares graves, atingidas por cartuchos com esferas de borracha, disparados pela Polícia.

Milhares de pessoas voltaram a se reunir ao longo do dia na Praça Itália – epicentro das manifestações em Santiago – na quinta “maior marcha do Chile”, que conseguiu convocações maciças todas as sextas-feiras desde que teve início a onda de protestos.

“Não podemos baixar os braços. Precisamos continuar nos manifestando porque não conseguimos nada, porque a repressão continua e, além disso, (o governo) continua assinando acordos falsos como o acordo pela paz”, disse à AFP Claudia Ortolani, uma jovem manifestante.

Nos arredores, encapuzados enfrentaram a Polícia, que dispersou a multidão com bombas de gás lacrimogênio e jatos d’água, constatou a AFP.

Enquanto isso, cerca de 100 pessoas protestavam em frente ao shopping Costanera Center, o maior da América do Sul, no sofisticado bairro de Providencia, enquanto 20 agentes da tropa de choque resguardavam a entrada do edifício.

A Polícia se comprometeu a não usar cartuchos, mas na quinta-feira um cinegrafista ficou ferido e esta instituição reconheceu que “existe uma alta probabilidade” de que tenha sido com uma escopeta usada pela tropa de choque.

– A violência não cessa –

Nos últimos dias, as manifestações de rua não foram maciças, mas focos de violência se intensificaram em Santiago e em bairros periféricos, cujos moradores voltaram a viver uma noite de horror na quinta-feira.

A violência tinha diminuído após o acordo que o Congresso alcançou há uma semana para elaborar uma nova Constituição, mas seu recrudescimento levou o governo a voltar a pedir calma.

O ministro do Interior, Gonzalo Blumel, fez um apelo “profundo e sincero a todas as forças políticas em busca de paz”.

Em Quilicura, ao norte de Santiago, um centro comercial foi incendiado e saqueado por uma multidão, enquanto em Puente Alto, outro setor periférico de classe operária, foram atacados um posto de gasolina, comércios locais e um quartel da Polícia.

Na cidade de Antofagasta (norte), um motorista feriu cinco pessoas ao avançar sobre uma concentração, e um supermercado foi saqueado.

No porto de Valparaíso e na cidade de Viña del Mar (centro) também foram registrados saques, barricadas e incêndios, assim como em Concepción (sul).

O ministro Blumel anunciou que vai antecipar a formatura de 2.500 aspirantes a policiais para se somarem ao efetivo.

– Desordem pública –

Controlar a ordem pública e avançar nas reforças sociais que respondam às demandas das ruas é o principal desafio do presidente Sebastián Piñera.

Nos primeiros nove dias após a convulsão social, o presidente pôs os militares nas ruas e decretou toque de recolher. Mas agora a Polícia, fortemente contestada, é a única que está encarregada do controle.

Tentei “compatibilizar a ordem pública com os direitos humanos e compatibilizar as demandas sociais com manter sadia nossa economia. Não tem sido fácil”, admitiu Piñera na quinta-feira.

Segundo o governo, atrás dos ataques mais violentos – sobretudo em bairros periféricos – estão “torcidas organizadas do futebol relacionadas com o narcotráfico e a delinquência”, disse à rádio Cooperativa a porta-voz oficial Karla Rubilar.

A Anistia Internacional denunciou uma política deliberada para castigar manifestantes, mas o governo rejeitou “categoricamente” o informe.

As Forças Armadas também o rejeitaram em uma polêmica declaração conjunta que, segundo políticos de oposição, ultrapassou o princípio de não deliberação.

“As Forças Armadas têm pleno direito a se defender. Não há nenhum ato de deliberação”, declarou o ministro da Defesa, Alberto Espina.

Uma equipe enviada pela alta comissária para os Direitos Humanos da ONU, a ex-presidente chilena Michelle Bachelet, concluiu sua investigação sobre as denúncias de violações e entregará um relatório em três semanas com base a reuniões com autoridades, representantes de organizações humanitárias e testemunhos de 230 feridos em protestos (entre civis e militares), “muitos deles perturbadores”, indico um comunicado do organismo.