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Protestos deixam quatro mortos na capital do Iraque

Protestos deixam quatro mortos na capital do Iraque

Manifestante com máscara nos protestos em Bagdá - AFP

Quatro manifestantes morreram em Bagdá, em uma nova sexta-feira (22) de protestos no Iraque, onde a mais alta autoridade xiita pediu para que se modifique a lei eleitoral, única reforma proposta pelo governo até agora, e que foi rejeitada nas ruas.

Em quase dois meses de mobilização, mais de 340 pessoas perderam a vida, quase todos os manifestantes, em confrontos que agora estão concentrados no centro de Bagdá. Na capital, as ruas comerciais foram transformadas em um campo de batalha urbano.

Diante da pior crise social no Iraque pós-Saddam Hussein, o poder propôs uma série de auxílios sociais e uma reforma da lei eleitoral, que não toma forma no Parlamento.

E isso também não convence a multidão que sai às ruas e exige um novo sistema político, um expurgo dos “corruptos” e uma classe dominante completamente renovada.

Nesta sexta, na rua Rachid e em torno de três pontes que ligam a Praça Tahrir, o epicentro da mobilização e onde ficam as principais instituições do país, quatro manifestantes morreram, dois por tiros e duas por granadas, segundo fontes médicas.

Também houve registro de 30 feridos. Essas granadas são criticadas por serem de uso militar e dez vezes mais letais do que as usadas em manifestantes em outras partes do mundo.

– “Não vão mudar nada” –

Desde o início, em 1º de outubro, do primeiro movimento de protesto espontâneo no Iraque, mais de 15.000 pessoas ficaram feridas em Bagdá e no sul do país.

Em seu sermão semanal, o grande aiatolá Ali Sistani, que recentemente expressou seu forte apoio às reivindicações dos manifestantes sem perder a confiança dos líderes, retomou a questão da reforma da lei eleitoral.

Ele considerou que votar em uma reforma desse tipo era uma prioridade para sair dessa “grande crise”.

O sistema eleitoral iraquiano, um dos mais complexos do mundo, é acusado de favorecer os grandes partidos, e seus líderes são criticados por impedir o acesso a novos políticos.

O projeto de lei apresentado pelo governo de Adel Abdel Mahdi ao Parlamento não parece responder às demandas de renovação dos manifestantes, nem da ONU, que pede melhorias neste texto.

O projeto ainda não foi submetido à primeira leitura no Parlamento.

“As novas eleições não mudarão nada: veremos os mesmos rostos e o mesmo governo”, reclama Ahmed Mohammed, um manifestante na Praça Tahrir.

Nesta praça, leis e emendas constitucionais estão longe de agradar aos iraquianos, que exigem uma mudança radical.

– “Mentindo para nós” –

“Os líderes perderam toda sua legitimidade, suas propostas não nos representam. Queremos que o governo renuncie”, diz Abu Ali, um manifestante de 32 anos.

Os manifestantes ocupam a praça emblemática dia e noite e montaram acampamentos em três pontes – Al-Jumhuriya, Senek e Al-Ahrar – que levam à Zona Verde, onde ficam o Parlamento, o gabinete do primeiro-ministro e embaixadas dos Estados Unidos e do Irã.

O grande vizinho iraniano é vaiado o tempo todo, e sua bandeira, queimada na praça pública por iraquianos que veem no Irã o arquiteto do sistema político corrupto do país.

Ao sul de Bagdá, importantes manifestações também ocorreram nas cidades de Hilla, Nasiriyah, Diwaniya, Najaf e Kerbala.

“Estamos determinados a continuar a mobilização até a renúncia do governo e a dissolução do Parlamento”, diz Nasir al-Qassab, um chefe tribal que protesta em Kut.

“Rejeitamos essas propostas do governo, que mente para nós”, conclui.