Meio ambiente

Protagonismo queimado

Brasil, que já foi ator de destaque em questões ambientais, inexiste na COP 25, maior e mais importante evento sobre o tema. Mas exige fatia do fundo de US$ 100 bilhões criado para financiar projetos de conservação

Crédito: Joao Laet / AFP
FÓSSIL DO DIA Na COP25, política ambiental de Bolsonaro recebe prêmio irônico destinado a países que atrapalham a luta pelo clima (Crédito:AP Photo/Eraldo Peres)

Poucas personalidades têm a imagem tão oposta à ideia de preservação ambiental quanto Jair Bolsonaro. No currículo anticonservacionista do homem que já se declarou o “Capitão Motosserra” há de tudo. De ataques a ONGs respeitadas em todo o mundo a acusações infundadas ao ator Leonardo DiCaprio. Do desmonte de organismos de proteção à complacência com madeireiros e grileiros. Nada que distoe do histórico de quem foi autuado pelo Ibama por pescar em área protegida (leia quadro).

Por isso, num prazo recorde, o Brasil abriu mão de ser protagonista na Cúpula Climática das Nações Unidas.O presidente já havia decidido não sediá-la. O recado foi dado por um Bolsonaro já eleito, mas não empossado, em novembro de 2018. O Itamaraty informou à ONU que por “dificuldades orçamentárias” desistia do evento. O Chile foi escolhido como opção, mas por causa dos protestos que atingem o país há quase dois meses, foi transferido para Madri, na Espanha. Começou na segunda-feira 2 e vai até sexta-feira 13, com representantes de 195 países e membros da sociedade civil que se encontram para discutir os problemas climáticos do planeta e suas soluções. É uma espécie de Copa do Mundo. Só que mais séria. Foi desse protagonismo que o Brasil se ausentou.

O presidente despachou para Madri o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, que segue, com obediência cega, a cartilha do chefe — e também vive metido em confusões. O País chegou ao evento com a imagem mais queimada do que as árvores engolidas pelas chamas dos fazendeiros na Amazônia, onde os índices de desmatamento não param de subir. Pior. O representante brasileiro se dirigiu à Espanha com um objetivo. Pedir dinheiro. Quer um naco de um fundo de US$ 100 bilhões.
Em 2009, numa cúpula da ONU em Copenhague, os países ricos resistiram aos apelos para compensar diretamente as nações mais pobres que são prejudicadas pelas emissões de carbono. Em vez disso, concordaram em canalizar US$ 100 bilhões por ano para ajudá-los a lidar com as mudanças climáticas. Um ano depois foi criado o Green Climate Fund (GCF), ligado à ONU. Nas discussões feitas no Acordo de Paris (2015) questionou-se os fluxos desse dinheiro, que não estaria chegando. É nisso, e apenas nisso, que se concentra a participação nacional na COP25.

 

AMAZÔNIA EM CHAMAS Fica difícil imaginar alguma nação séria entregando quantias vultosas a um país cujo mandatário acusa ecologistas, pesquisadores e ONGs respeitadas internacionalmente de tacarem fogo na selva. E, pior, que não cuida do próprio patrimônio natural. Os números não deixam dúvidas. Entre agosto do ano passado e julho deste ano, a Floresta Amazônica perdeu quase 10 mil quilômetros quadrados de matas nativas (alta de 30% em relação ao período anterior), o equivalente a quase metade do estado de Sergipe ou mais de seis vezes a área da cidade de São Paulo. A riqueza animal e vegetal engolida por essa devastação é incalculável, assim como os danos causados ao equilíbrio ambiental. Com seu discurso em defesa da ampliação das fronteiras agrícolas, da concessão de autorizações para garimpos no meio da selva e em reservas indígenas e da diminuição de multas para infratores ambientais, o presidente é apontado, por ecologistas e líderes mundiais – como o presidente francês, Emmanuel Macron, e a chanceler alemã, Angela Merkel – como um ativista pelo aumento desses números negativos.

Mesmo com a imagem do seu líder tão em baixa, a comitiva brasileira aterrissou na COP25 arrotando arrogância, exigindo uma definição concreta do valor que receberá do tal fundo de US$ 100 bilhões, mas garantindo que dará bom uso a essa verba. A situação, no entanto, é muito complicada para Bolsonaro. Alemanha e Noruega, por exemplo, suspenderam verbas que seriam repassadas ao Fundo Amazônia. A França, motivada pelo aumento das queimadas na floresta, foi contrária ao acordo anunciado pela União Europeia e pelo Mercosul. E o que o presidente do Brasil fez em relação a tudo isso? Dando um show de diplomacia, o Capitão Motosserra partiu para o ataque: mandou Merkel reflorestar seu país, chamou os noruegueses de assassinos de baleias e fez ataques grosseiros a Macron. Nada mais comum, partindo de quem, ainda em campanha eleitoral, disse que ia acabar com as ONGs ambientais “que estão aí”. Mas ao menos uma homenagem o governo brasileiro recebeu na COP25. Na verdade, uma ironia. Na terça-feira 3, a Climate Action Network (CAN), que reúne mais de 1,3 mil ONGs de 120 países, anunciou o Brasil como vencedor do prêmio Fóssil do Dia, concedido a países que atrapalham o combate ao aquecimento global. É bem capaz que Bolsonaro celebre essa conquista.

As trapalhadas ambientais de Bolsonaro

Eugene Hoshiko

São incontáveis as situações constrangedoras criadas por Jair Bolsonaro em relação à conservação ambiental. Mesmo antes de ser eleito, ele já mostrava que não gosta muito de respeitar o meio ambiente. Em 2012, quando era deputado federal, o atual presidente foi multado por um fiscal do Ibama, ao ser flagrado pescando numa área de preservação ambiental, em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro. Em outubro do ano passado, em plena campanha eleitoral á Presidência, Bolsonaro afirmou que ia “acabar com todas essas ONGs que estão aí”. Era um prenúncio do que estava por vir. Em agosto deste ano, com apenas oito meses de governo, ele demitiu o diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Ricardo Galvão – um dos pesquisadores mais respeitados do mundo, doutor pelo MIT –, simplesmente porque o órgão divulgou dados técnicos que mostravam o aumento do desmatamento na Amazônia. E a metralhadora do Capitão Motosserra não parou. Ele seguiu criticando ecologistas, ONGs internacionais, líderes de outros países. A mais recente trapalhada do presidente brasileiro envolveu o WWF, uma das maiores ONGs ambientais do planeta, com presença em mais de 100 países e que investiu R$ 50 milhões no Brasil só no ano passado, e o ator americano Leonardo DiCaprio, engajado defensor de causas ecológicas. Sem prova alguma, Bolsonaro acusou o WWF e DiCaprio de financiarem queimadas na Floresta Amazônica. DiCaprio respondeu: “Neste momento de crise para a Amazônia, eu apoio o povo do Brasil”. Por seu turno, o WWF lamentou “que o presidente da República insista em divulgar inverdades”.