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Proposta indecente

Recuperação judicial do grupo Abril propõe calote de até 92% da dívida e prazo de 18 anos para pagar seus credores. A venda da empresa poder ocorrer nos próximos dias

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Protesto: ex-funcionários se mobilizaram para exigir pagamento de rescisão de contrato de trabalho (Crédito: Divulgação)

O processo de negociação das dívidas do grupo de mídia Abril deverá ter novos capítulos em breve. A companhia fundanda pela família Civita está desde julho sob o comando da consultoria especializada em recuperação de empresas Alvarez & Marsal. Há um mês, os atuais gestores protocolaram uma proposta indecente de pagamento aos credores. As dívidas da Abril somam R$ 1,6 bilhão, sendo que quase R$ 1 bilhão está relacionado a debêntures compradas pelos bancos Itaú, Bradesco e Santander. O grupo, que inclui a Abril Publicações, a distribuidora de revistas Dinap e a empresa de logística de encomendas Total Express, propõe pagar apenas 8% do total em parcelas mensais ao longo de 15 anos (prorrogáveis por mais três), e obter o perdão de até 92% dos débitos. A sugestão é tão agressiva que foi interpretada pelos credores como uma tentativa de “colocar o bode na sala”, para conseguir uma contraproposta favorável.

Haaland: plano da consultoria Alvarez & Marsal deixa clientes e funcionários a ver navios (Crédito:Divulgação)

Além dos bancos, há dívidas envolvendo fornecedoras de papel, operadoras de telefonia e editoras concorrentes, algumas em situação financeira dramática devido à falta de pagamentos da distribuidora. Em entrevista à DINHEIRO, em setembro, o atual gestor, Marcos Haaland, afirmou que o modelo de negócio da distribuidora não é sustentável. “A Dinap, quando faz o recolhimento do que foi vendido, repassa o dinheiro para as editoras e fica com uma parte como remuneração. O que não é vendido, a Dinap recolhe e devolve às editoras, sem cobrar nada.” Como mantinha o monopólio na distribuição de revistas no Brasil, a empresa praticamente obrigava as demais editoras a utilizarem seus serviços — retendo a remuneração paga pelos jornaleiros. Isso colocou em risco todo o negócio editorial do País.

Carvalho: interessado na Abril é especialista em salvar empresas, mas nem isso garante o pagamento imediato das dívidas (Crédito::Leo Pinheiro/Valor )

Donos de editoras de menor porte, que pediram para não serem citados, afirmam estarem com problemas financeiros por conta da falta de pagamentos da Dinap. Procurada, a atual gestão do grupo Abril não respondeu às perguntas da reportagem, Apenas informou que “o plano foi protocolado e será discutido em Assembleia Geral de Credores, ainda a ser agendada”. Representantes da família Civita não foram localizados.

Ex-funcionários

As dívidas trabalhistas, estimadas em cerca de R$ 90 milhões (o que representa menos de 6% do total) também estão sendo contestadas. A editora entrou com um pedido de recuperação judicial quando faltava apenas um dia para o fim do prazo de pagamentos das verbas rescisórias de 800 funcionários demitidos em agosto deste ano. Um grupo de 30 mulheres, ex-funcionárias e prestadoras de serviços, entregaram no início deste mês uma carta ao juiz Paulo Furtado de Oliveira Filho, titular da 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais da capital paulista, pedindo celeridade no processo. A mobilização teve resultado. Na terça-feira 11, Furtado cobrou a publicação imediata do edital do plano de recuperação, a divulgação da lista de credores — que deveria ser feita pela consultoria Deloitte, administradora da recuperação, em 12 de novembro — e o agendamento da Assembleia Geral de Credores, quando o plano poderá ser aprovado ou rejeitado. “A Deloitte adiou para janeiro a apresentação do plano, e isso atrasa tudo, inclusive a contestação que vamos fazer”, diz Patrícia Zaidan, do comitê de jornalistas demitidos da Abril. “Também dissemos ao juiz que já rechaçamos o plano, por desrespeitar a lei, que exige pagamento de dívidas trabalhistas em até um ano.” O juiz também concordou com a alegação das editoras clientes da Dinap que pedem que fiquem fora dos valores bloqueados o pagamento das revistas consignadas à Dinap antes da recuperação.

Enquanto as negociações com os credores avançam vagarosamente, outro fato pode alterar o cenário. Fontes informam que as tratativas para a venda do controle da empresa, fundada pelo imigrante italiano Victor Civita em 1950, avançam rapidamente.

A Abril foi comandada por Giancarlo Civita, neto do fundador, após a morte do pai, Roberto Civita, em 2013. Há expectativas de que a transação possa ser fechada nos próximos dias. Dois grupos teriam demonstrado interesse no grupo. Um deles inclui o empresário Guilherme Leal, um dos fundadores da Natura. No entanto, quem estaria mais próxima de fechar o negócio é a Legion Holdings, sociedade de investimentos voltada a recuperar empresas em dificuldades e que tem como sócio o advogado carioca Fabio Carvalho. Ele se notabilizou por atuar na salvação da Bravante, companhia de óleo e gás, e a rede de varejo de eletretrônicos Casa & Video, a qual assumiu em 2009. Também é acionista e presidente do conselho de administração da empresa de call center Liq, a ex-Contax. Se a compra for concretizada, resta saber se os novos donos vão assumir o passivo do grupo editorial e apresentar uma proposta menos indecente aos credores.