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Pressões externas dificultam solução do conflito na Líbia

Pressões externas dificultam solução do conflito na Líbia

O marechal Khalifa Haftar e o ministro das Relações Exteriores russo, Serguei Lavrov, em Moscou, em 13 de janeiro - RUSSIAN FOREIGN MINISTRY/AFP

A recusa do líder rebelde Khalifa Haftar, que controla o leste da Líbia, em assinar um acordo de trégua proposto pela Rússia e Turquia ilustra a complexidade do conflito e as pressões externas muitas vezes opostas que estão sendo exercidas sobre seus protagonistas, estimam especialistas.

O chefe do Governo de União Nacional (GNA) reconhecido pela ONU, Fayez al-Sarraj, e o marechal Haftar não se encontraram pessoalmente em Moscou, mas negociaram um acordo de cessar-fogo através de autoridades russas e turcas.

A Turquia apoia Sarraj e a Rússia o marechal Haftar.

Embora Sarraj tenha assinado o texto na segunda-feira, seu rival acabou se retirando sem fazê-lo, depois de pedir um período de reflexão.

O projeto de acordo havia sido submetido a ambos os lados, dois dias antes, segundo fontes diplomáticas líbias.

Por que o Khalifa Haftar viajou para a Rússia se não pretendia assinar?

Questionado pela AFP, Emad Badi, do Middle East Institute, menciona duas hipóteses: “Ou não assinou porque decidiu pessoalmente não fazê-lo, sejam quais forem as consequências. Ou um de seus aliados garantiu seu apoio se não o assinasse”.

– “Ditador” –

Abdelqader el Rehebi, analista político líbio, é mais categórico.

“Abu Dhabi, Riade, Cairo e Paris, apoios autênticos – diretos ou indiretos – à sua campanha militar (…) discordaram (do texto). O que explica essa rejeição”, segundo ele.

“Esses países exigiram que continuassem sua ofensiva contra Trípoli e, em troca (prometeram) mais apoio político e militar”, insiste Rehebi.

O Egito, por exemplo, que não gosta do envolvimento da Turquia, seu inimigo regional, “rejeita qualquer consenso ou reconciliação entre os dois lados, o que permitiria uma presença turca no palco líbio”, diz Ziad Akl, do centro egípcio Al Ahram para estudos políticos e estratégicos.

“Haftar e seus apoiadores ainda pensam que estão em posição superior militarmente”, afirma Peter Millet, ex-embaixador britânico na Líbia.

Para Mohamad al-Jerah, outro analista líbio, o gesto de Haftar deve ser interpretado de maneira bastante diferente.

Segundo ele, com esta reviravolta, Haftar “mostra que não depende dos interesses de seus apoiadores e simpatizantes. Nem do Cairo, Abu Dhabi ou Moscou”.

“É o que eu observei e o que as autoridades de países estrangeiros que o apoiaram no passado me disseram. Um ditador não se reporta a ninguém”, ressalta Jonathan M. Winer, especialista do Middle East Institute e que foi enviado especial de Washington na Líbia.

– Preço “muito alto” –

Acusado por seus detratores de querer estabelecer uma ditadura militar, Khalifa Haftar consolidou seu controle no leste da Líbia e depois conquistou várias regiões do sul, negociando com tribos locais.

Em abril, lançou sua ofensiva contra Trípoli para tomar o centro do poder.

Mas o preço que o marechal deverá pagar por esta campanha é “muito alto”, diz Federica Saini Fasanotti, do Brookings Institution.

No momento da assinatura da paz, “está em dívida com os países estrangeiros que o apoiaram e, especialmente, com os habitantes da Cirenaica”, a parte oriental do país, disse esta especialista.

“As famílias cirenaicas que perderam seus filhos nesta guerra aguardam uma resposta clara de Haftar, que só pode terminar sua aventura com uma vitória, pelo menos nos jornais”, continua ele. “Sem isso, será muito difícil voltar” para o leste, ressalta.

Outros analistas não excluem a existência de um acordo secreto entre Ancara e Moscou.

“Os dois países poderiam ter um acordo ‘debaixo da mesa’ para uma possível recomposição política na Líbia”, que favoreceria a crescente influência de Ancara e Moscou, diz Claudia Gazzini, do International Crisis Group (ICG).

Além de vantagens geopolíticas sobre seus rivais e acesso privilegiado ao petróleo líbio, a Rússia quer encontrar um mercado para suas armas e trigo. A Turquia também tem interesses energéticos, graças a um acordo assinado com o GNA.

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