Presença de mulheres brasileiras em conselhos tem avançado pouco

Presença de mulheres brasileiras em conselhos tem avançado pouco

Dois especialistas em governança corporativa passaram os últimos meses debruçados sobre dados de mais de 1.300 empresas listadas em diversas bolsas do mundo para chegar à conclusão de que, nos últimos anos, o avanço das mulheres brasileiras em direção a uma cadeira no conselho tem sido o mais lento de todos. A pesquisa inclui Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha, França, Dinamarca, Noruega, Finlândia, Suécia, Japão e, claro, Brasil. E não só o crescimento aqui é mais lento: ficamos na “lanterninha” desses países.

O estudo ainda inédito dos professores Angela Donaggio e Alexandre Di Miceli, agora na fase do relatório final, revisita os dados de um anterior que, em 2014, já mostrava o Brasil em situação desfavorável. Até então, só 7% das cadeiras titulares de conselhos das empresas listadas eram ocupadas pelas mulheres aqui. O país vinha atrás dos outros da amostra, mas junto da Alemanha e à frente do Japão, com apenas 2% de mulheres nesses assentos.

De lá para cá, com o apoio de uma lei de 2015 que estabelece cotas para as mulheres em conselhos, a Alemanha disparou para 32%. O Japão também tomou fôlego e, mesmo sem cotas,  chegou aos 9,9% embalado pela pressão dos investidores por empresas com diversidade e, mais importante, por uma política ampla e explícita de apoio às mulheres encabeçada pelo governo, na tentativa de driblar o envelhecimento da população. Isso fez com que os japoneses passassem a valorizar como nunca seus talentos femininos, de forma a manter o mercado de trabalho vigoroso e renovado. O Brasil, sem nada parecido, estacionou em 8,2%.

A pressão dos investidores também funcionou no Reino Unido, onde a presença de mulheres em conselhos alcançou 31% com metas recomendadas pelo regulador do mercado. Já os demais países preferiram adotar as cotas, também chamadas de ações afirmativas (nos Estados Unidos, ainda apenas na Califórnia, mas a discussão está avançada em outros estados). Na França, com a lei aprovada em 2011, os assentos em conselhos ocupados por mulheres cresceram de 12% para 48%.

No Brasil, contrariando todos os bons exemplos, as cotas continuam gerando polêmica (desnecessária) e um projeto de lei anda a passo de tartaruga no Congresso. A adoção de metas é voluntária nas empresas, com algumas poucas fazendo compromissos públicos de elevar o número de mulheres não apenas nos seus conselhos, mas também na alta gestão. O que, se bem aplicado, tenderia a acabar com um funil que se estreita rumo ao topo – e que aperta de vez em torno dos 30 a 35 anos de idade da mulher, numa relação direta com a maternidade. Daí até o conselho, elas vão rareando a ponto de quase desaparecer.

A pesquisa tem, ainda, outro achado que ajuda a entender por onde caminha a diversidade de gênero nas corporações: o número de empresas que têm pelo menos uma mulher no conselho chega a 100% no Reino Unido, França, Alemanha e nos países nórdicos (nos Estados Unidos, 99%). Mas ainda desaba quando o número sobe para 3 – só França e Alemanha ficam na lista. O número não é uma escolha aleatória dos pesquisadores.

Baseada em evidências científicas e comportamentais, a teoria da massa crítica diz que é necessário ao menos um terço de representantes de uma categoria dentro de um grupo para que ela possa ser efetivamente representada, e consiga influenciar as decisões desse grupo. Considerando o tamanho médio de um conselho da amostra entre 10 e 11 integrantes, 3 mulheres seria o número mínimo para que pudesse ser chamado de “diverso”. Estamos longe disso – no Brasil, quase 53% das empresas listadas têm uma mulher, mas só 4% têm 3 ou mais nos seus conselhos.

“Ainda assim, uma mulher é melhor que nenhuma mulher. Nossos estudos revelam que ela abre portas para outras quando, atuando dentro de um conselho, deixa de ser percebida como ‘uma mulher’ e passa a ser ‘uma conselheira’. Quando é vista como igual, ela põe abaixo os vieses inconscientes dos homens”, diz Angela Donaggio que, assim como Di Miceli, é professora no IBGC (Instituto Brasileiro de Governança Corporativa), nos cursos que preparam conselheiros para atuar nos mais diferentes tipos de empresas.

Mesmo com bons avanços, portanto, todos os países da amostra têm lição de casa para fazer. Na França, só 2,5% dos conselhos são presididos por uma mulher e na Alemanha, 5%. O Japão ainda não venceu essa barreira: nenhuma mulher comanda o conselho de uma empresa listada no país. E mesmo os países nórdicos, referência global no tema, precisam melhorar: 7% dos seus chairman são mulheres. Pelo menos o bom senso funciona e, nesses casos, a posição acaba sendo nomeada como “chairwoman”.

Não por acaso o assunto está aquecido no mundo todo – os maiores investidores do mercado têm exigido diversidade no conselho (e na gestão) de suas investidas, usando evidências de que os resultados das empresas melhoram quando elas buscam eliminar todo tipo de sub-representação. “Nós já sabemos que diversidade, especialmente de gênero, é fundamental para criar uma inteligência coletiva nos negócios”, diz Angela Donaggio. “No Brasil, precisamos olhar com seriedade para isso. E parar de perder um tempo que nem temos mais.”

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Sobre o autor

Junia Nogueira de Sá é jornalista, consultora de comunicação estratégica e conselheira de empresas e organizações sociais; é também delegada brasileira no Women20 do G20, associada à WomenCorporateDirectors e ao movimento Mulheres Investidoras Anjo. Estuda, pesquisa e escreve sobre o universo feminino há mais de 10 anos.


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