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Entrevista

Jorge Hoelzel Neto, presidente da Mercur

Precisamos servir mais à sociedade do que nos servimos dela para aumentar resultados

Divulgação

Precisamos servir mais à sociedade do que nos servimos dela para aumentar resultados

Engajada social e ambientalmente, a quase centenária fabricante de produtos de borracha hoje se preocupa mais com o futuro do planeta do que com os lucros

Luana Meneghetti
Edição 09/09/2019 - nº 1137

A borracha de apagar estampada com a figura do deus Mercúrio já fez parte da vida de muitas gerações de alunos. Com quase cem anos, a Mercur decidiu, em 2007, passar a borracha em algumas de suas práticas e processos. Há alguns anos, o faturamento se mantém no mesmo patamar (cerca de R$ 100 milhões). A empresa aboliu sua linha de materiais escolares com personagens infantis depois de constatar que ela gerava apenas competição entre as crianças e mais gasto para os pais. Passou então a se preocupar mais com o impacto dos seus produtos na vida das pessoas e do meio ambiente. Nesse processo de reestruturação foram abolidos negócios com a indústria tabagista (para a qual fornecia esteiras de borracha), armamentista, de bebidas alcoólicas e de itens que possam gerar qualquer tipo de maus tratos aos animais. Depois, o empresário Jorge Hoelzel Neto também criar ações de impacto na Floresta Amazônica. A companhia decidiu, há alguns anos, comprar a borracha da região. Apesar de ser mais cara do que a produzida em massa nos campos de monocultura, essa opção gera renda à população local — e assim colabora com a preservação da floresta.

DINHEIRO — A Mercur foi fundada em 1924 e se tornou uma das principais fornecedoras mundiais de produtos fabricados com borracha. Mas nos anos 2000 começou a tomar um novo rumo. Como você avalia essa guinada pela sustentabilidade?

JORGE HOELZEL NETO – A Mercur é uma empresa familiar que já passou por várias transformações nessa caminhada de 95 anos. Desde adequações aos diferentes momentos da sociedade aos diferentes modelos mentais dos gestores que transformaram uma pequena oficina de experimentos em uma empresa com fundamentos sólidos e que, ao longo deste tempo, gerou renda e riqueza. Mas, assim como uma grande parte dos negócios que conhecemos, também produziu poluição e desequilíbrio social. O movimento de reestruturação da empresa, a partir de 2007, nasceu de uma releitura do posicionamento estratégico da Mercur. Precisávamos dizer ao mundo a serviço do que estávamos. E nos deparamos com a falta de um propósito digno, que nos fizesse acordar de manhã com orgulho de estarmos em busca de soluções para a vida. Queríamos aumentar o faturamento e a lucratividade, mas gerando produtos e serviços que agregassem sentido à vida das pessoas e do planeta. Vivemos numa sociedade com recursos naturais finitos.

DINHEIRO — De que forma essa percepção mudou sua mentalidade empresarial? Como foi parar
de pensar só nos lucros para colocar a preocupação ambiental no centro do negócio?

HOELZEL NETO – Às vezes, não nos damos conta de que nossa vida é uma só. O empresário é o mesmo homem que tem uma família, que é consumidor e que depende da natureza e das relações humanas para viver. Ao acessarmos essa informação nos damos conta que precisamos olhar para o mundo com outras lentes.

DINHEIRO — Vocês eliminaram fornecedores considerados antiéticos, abriram mão da linha de material escolar com personagens infantis e da fabricação de produtos para a indústria tabagista. Como isso impactou nos resultados da empresa?

HOELZEL NETO – Eliminar alguns fornecedores asiáticos não teve necessariamente a ver com questões éticas. Mas buscamos fornecedores mais próximos do nosso mercado de consumo. A redução das exportações e importações tem a ver com essa possibilidade de investir mais energia nas comunidades locais. Gerando ocupação e renda perto do local de consumo, diminuímos as distâncias e aumentamos a prosperidade. Além disso, entendemos que as emissões de gases de efeito estufa nessas operações prejudicam demais o meio ambiente. Com relação aos produtos que deixamos de produzir e comercializar, tivemos apenas perdas econômico-financeiras. Por outro lado, tivemos ganhos importantes relacionados ao cuidado com a vida e de responsabilidade social com a educação infantil.

DINHEIRO — Esses são alguns dos erros cometidos na primeira fase da Mercur que você está tentando reparar?

HOELZEL NETO – Acredito que não existam necessariamente erros a serem reparados. Estamos apenas evoluindo para um novo patamar de consciência sobre as nossas atitudes e ações. Precisamos servir mais à sociedade do que nos servimos dela para aumentar resultados e o nosso ego. Precisamos vincular nossos ganhos com o ganho do outro, construindo relações de equidade social.

DINHEIRO — Em termos de produtos e processos, o que mudou?

HOELZEL NETO – Estamos focados na utilização de materiais mais renováveis e que agridam menos o meio ambiente no final da sua vida útil. O giz de cera, antes feito com parafina, agora é composto por ceras vegetais. De 2012 para cá, deixamos de utilizar 216 toneladas de plástico nas embalagens. Criamos a borracha Lado B, feita com cinzas da casca de arroz, um subproduto da queima para gerar energia. Acabamos de colocar no mercado o nosso primeiro produto 100% renovável, uma bolsa térmica natural feita de algodão orgânico e caroço de açaí. A escolha desses insumos prioriza a geração de renda local para fornecedores comprometidos com o meio ambiente e a agro-ecologia. A cada escolha que fazemos há um grande cuidado.

DINHEIRO — A gestão também passou por uma grande transformação. Diretores passaram a ser facilitadores. Quais são os ganhos e desafios da gestão horizontal, sem hierarquias?

HOELZEL NETO – A participação do máximo de pessoas nas decisões, sem o subterfúgio do comando e controle das hierarquias tradicionais, permite que se caminhe em busca do consenso ou do consentimento, gerando aprendizado, autonomia e iniciativa para um mundo com mais equidade social. Um dos grandes desafios é o tempo necessário para o aprofundamento da tomada de decisões em um momento em que a velocidade tem sido considerada um trunfo. Porém sabemos que decisões rápidas e “rasas” costumam não considerar questões importantes no mundo complexo que estamos experimentando.

DINHEIRO — Qual o faturamento da Mercur hoje? Ele é suficiente para a empresa continuar crescendo?

HOELZEL NETO – O faturamento anual, de R$ 102 milhões, não é mais o nosso principal indicador de sucesso. O que consideramos importante é a possibilidade de as pessoas terem acesso aos produtos que elas necessitam, sem que isso cause desajustes socioambientais ao nosso sistema de vida. Sabemos, entretanto, que ainda estamos longe desse objetivo, mas seguimos nossa caminhada com esse propósito.

DINHEIRO — A Floresta Amazônica passou a fazer parte desse processo de transformação da Mercur com o projeto Terra do Meio. Fale um pouco sobre isso.

HOELZEL NETO – O Projeto Borracha Nativa, como é conhecido na Mercur, é a materialização de uma série de questões que consideramos importantes para a vida em uma sociedade sadia. Nesse processo vamos ao encontro de comunidades localizadas no interior da Amazônia que nos fornecem borracha natural da floresta nativa, possibilitando a eles uma construção mais digna de vida.

DINHEIRO — Hoje a Mercur compra borracha da Amazônia, que é mais cara. Qual o percentual de borracha que vem de lá?

HOELZEL NETO – O volume ainda é baixo, em torno de 3% do nosso consumo.

DINHEIRO — Vocês pretendem aumentar esse percentual?

HOELZEL NETO – Sim, nosso sonho é que 100% da nossa borracha natural seja de florestas nativas.

DINHEIRO — Qual a importância de comprar a borracha da Amazônia e como isso contribui para manter a floresta em pé?

HOELZEL NETO – Ao comprarmos a borracha da Amazônia, evitamos possíveis descompassos socioambientais característicos das monoculturas tradicionais, que pouco ou em nada ajudam na biodiversidade. Além disso, a borracha natural é um produto importante do extrativismo regional e valoriza a manutenção da floresta.

DINHEIRO — Nas últimas semanas, a Amazônia esteve no centro do noticiário nacional e internacional por conta dos incêndios. Qual sua opinião sobre os acontecimentos na região?

HOELZEL NETO – Considero que estamos colocando em risco muitos avanços que tivemos enquanto sociedade humana. Não posso deixar de pontuar também a insensatez de toda a dualidade que estamos experimentando na sociedade mundial. Os reflexos disso percebemos diante de acontecimentos como esse.

DINHEIRO — Esses acontecimentos impactam, de alguma forma, nos bons projetos empresariais na região?

HOELZEL NETO – Sem dúvida impactam de forma negativa, uma vez que cai por terra toda uma construção de justiça humana, econômica, social, ambiental e cultural.

DINHEIRO — Como você avalia as políticas ambientais do governo Bolsonaro e sua atitude em relação à floresta?

HOELZEL NETO – A floresta não é um único ente de todo o sistema de vida que precisamos preservar no planeta, mas sem dúvida tem um peso significativo. Na minha opinião, essa é uma preocupação que precisa estar em pauta em todas as instâncias da sociedade, incluindo o governo. Percebo poucas atitudes nesse sentido.

DINHEIRO — O empresariado foi um dos grandes eleitores do atual presidente. O senhor acredita que esteja acontecendo algum tipo de arrependimento?

HOELZEL NETO – Não fiz parte desse grupo do empresariado. Quanto ao arrependimento, não posso responder por eles.

DINHEIRO — Como a indústria pode melhorar sua relação com o meio ambiente? O que o empresariado ainda precisa entender?

HOELZEL NETO – Esta frase parece um clichê, mas não é. Acontece que a maioria de nós empresários ainda não sabe o que é vida.

DINHEIRO — Você considera a Mercur um case de sucesso e um exemplo para a indústria do futuro?

HOELZEL NETO – A Mercur não se considera um case. Estamos apenas buscando compreender o que é a vida e como podemos melhorá-la com o que temos condições de fazer.

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