Economia

“Precisamos ser neutros, sem posturas políticas conflitantes com a política comercial”, diz economista

A economia do mundo esteve bastante agitada durante todo o ano passado, fruto de indefinições no comércio global (EUA x China), trocas de governos em países importantes (Brasil, Argentina, Uruguai, etc), e crises em diversas regiões (Venezuela, Chile, Irã e alguns países europeus). Já o ano que começa agora parece trazer alguns caminhos mais seguros. Há um eventual acordo comercial em curso entre americanos e chineses, o que faz diminuir as incertezas das economias que dependem dos dois gigantes, Brasil em especial. Além disso, as relações bilaterais do Brasil parecem caminhar para uma acomodação – depois de troca de ofensas entre o presidente Bolsonaro e os líderes francês e argentino. No segundo semestre de 2019, a concretização do acordo entre Mercosul e União Europeia e as visitas do presidente Bolsonaro à cinco países da Ásia e Oriente Médio em outubro colocaram as relações bilaterais brasileiras em um novo patamar.

Para analisar essa conjuntura positiva, mas ainda incerta, conversamos com Simão David Silber, doutor em Economia pela Yale University e professor da Faculdade de Economia da USP. Não demora para o professor meter o dedo na ferida: para ele, em 2019, o Brasil teve uma aproximação excessiva com os EUA enquanto ignorava a China, seu principal parceiro comercial. Silber coloca outros pontos importantes neste cenário: o mundo passa por um processo de desaceleração da economia mundial – as nações devem crescer abaixo da média (em torno de 3,7%). Nesta entrevista, o economista analisa o futuro das relações comerciais do Brasil com os principais blocos econômicos em 2020.

Alguns países do Mercosul atravessam problemas complexos, como Argentina e Chile. De que forma isso impacta os nossos acordos comerciais com o bloco?

Realmente a Argentina é um problema muito sério para o Mercosul, com perspectivas de comércio complicadas que dificultam exportações e importações. Este é o terceiro ano consecutivo que temos uma crise no bloco.

Na Argentina, o trigo deve ficar mais caro, contribuindo a uma aproximação entre Brasil e EUA para a importação do produto. Em relação aos outros países, apesar das crises, esperamos um desempenho razoável, que deve ser puxado pelo crescimento da economia brasileira de 2,5%.

As incertezas com Argentina, que é o nosso terceiro parceiro comercial, devem afetar o acordo Mercosul e União Europeia?

O Brasil já está em uma posição vulnerável neste acordo, especialmente quando o assunto é meio ambiente. O protecionismo europeu encontrou neste discurso um argumento forte para culpar o agronegócio brasileiro dos problemas na floresta amazônica.  A União Europeia é um parceiro comercial muito importante para o Brasil, qualquer tipo de limitação às exportações brasileiras por negligências ambientais seria desfavorável para o Brasil e também para o Mercosul.

Contudo, a formalização deste acordo ainda vai levar vários anos e deve ser discutida por diversos parlamentos. O acordo com a UE só deve ganhar maturidade em 15 anos. Mas, o Brasil precisará mudar logo sua postura frente aos assuntos de direitos humanos, meio ambiente, gênero e tolerância religiosa.

Não vejo grandes avanços nas relações comerciais em 2020 e nos próximos cinco anos não veremos nenhuma pirueta no circo. Desconhecemos também como vai ficar a situação do Brexit, e se isso vai provocar um ressurgimento do nacionalismo na Europa. Se isso ocorrer, países como França, Polônia e Hungria que dependem de subsídios agrícolas achariam que o Brasil é uma ameaça.

Com a trégua comercial entre EUA e China, pode-se acreditar que o país asiático continuará sendo o nosso principal parceiro comercial?

Ainda há chances, a China é uma potência com uma grande deficiência de recursos naturais insuficientes para alimentar a população. As exportações do Brasil estão concentradas basicamente em quatro commodities: soja, petróleo, mineiro de ferro e celulose. Isso vai permanecer.

Porém, é um delírio falar de um acordo de livre comércio com a China, que a longo prazo provocaria distorções e problemas com subsídios. Bolsonaro errou ao anunciar aquilo na reunião dos BRICS na tentativa de corrigir os deslizes do passado.

É importante avaliar como os acordos entre China e EUA vão afetar as exportações brasileiras, embora os efeitos mais desfavoráveis já ocorreram.  Outro fator é a recuperação dos rebanhos suínos na China, que em 2019 favoreceu as exportações de carne brasileira.

Em contraponto, a relação próxima entre o Brasil e EUA não deve trazer avanços nas relações comerciais, nem sequer um acordo de livre comércio. O Brasil precisa entender que Trump governa pelo Twitter e muda de opinião da noite para o dia, como aconteceu com a tarifação de aço em 2019.

O presidente Bolsonaro contribui ou perturba as nossas relações comerciais?

O impacto dele é negativo pela sua aproximação incondicional com os EUA, o que deixa outras nações na defensiva. Por exemplo, ele apoiou a mudança da embaixada de Israel para Jerusalém, sem avaliar que os países árabes são grandes compradores da carne brasileira.

Se depender dele em 2020, não vejo boa vontade, mesmo com Guedes e Tereza Cristina defendendo o contrário. Eu vejo essa política de aproximação acentuada como os EUA como desfavorável.

O que o Brasil deve potencializar para se tornar competitivo no comércio internacional?

O primeiro gargalo é a falta de competitividade, que será resolvido por meio da reforma tributária.  Outro problema é a falta de infraestrutura. Também temos uma postura política atual conflitante com a política comercial, precisamos ser neutros.

Na área tecnológica é importante eliminar a burocracia para garantir eficiência. Temos o agronegócio, que está na fronteira tecnológica com empresas como a Embraer, mas outros setores ainda estão na idade de pedra.  Todas estas mudanças na nossa economia devem levar no mínimo duas décadas para ser concretizadas.

Com a desaceleração mundial em 2020, com crescimento em torno de 3,7%, o Brasil precisará pensar em uma política cambial adequada que de abertura às importações.

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