Economia

Precisa ter medo da inflação?

Combustíveis e alimentos podem fazer o IPCA de 2017 romper a meta estabelecida para o ano. A diferença é que, desta vez, o que não será respeitado é o piso, não o teto

Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil

De volta ao passado: motoristas correm para comprar gasolina com preço velho, em Brasília (Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

As imagens na semana encerrada no dia 22 de julho eram de décadas atrás. Motoristas fizeram fila nos postos de gasolina, tentando abastecer seus automóveis antes que a elevação da alíquota do PIS/Cofins sobre os combustíveis chegasse às bombas. A cena se repetiu na terça-feira 26. Por algumas horas, aumento do imposto foi suspenso por um juiz federal de Brasília, decisão revertida mais tarde no mesmo dia, atendendo a pedidos da Advocacia Geral da União (AGU). As idas e vindas fizeram relembrar os anos 1980, em que o preço dos combustíveis era definido por Brasília.

Assim que os reajustes eram anunciados, formavam-se longas filas nos postos em busca da gasolina pelo “preço antigo”. No entanto, apesar da imagem passadista, a situação de 2016 não poderia ser mais diferente da de três décadas atrás. Hoje, os combustíveis, ao lado dos alimentos, são os principais responsáveis por taxas de inflação surpreendentemente baixas, que vêm sustentando quedas dos juros comparáveis às dos tempos de Dilma Rousseff (observe o gráfico ao final da reportagem).

Patricia Pereira, Gestora de renda fixa da Mongeral Aegon Investimentos: “Será a primeira vez que o BC poderá ter de explicar uma inflação baixa demais” (Crédito:Divulgação)

O Índice Geral de Preços – Mercado (IGP-M) de julho, divulgado pela Fundação Getulio Vargas na manhã da sexta-feira 28, é um bom indicador. Pelo quarto mês consecutivo, o IGP-M, que reajusta aluguéis e tarifas públicas, como os pedágios, mostrou uma deflação. Em julho, os preços recuaram 0,72%. Em 12 meses, a deflação acumulada é de 1,66%. No caso do IPCA, definido como a taxa de inflação oficial, que baliza as decisões do Comitê de Política Monetária (Copom), a situação é análoga. Em junho, indicador mais recente, o IPCA mostrou, também, uma deflação de 0,23%.

Em 12 meses, o acumulado está marginalmente abaixo de 3%. Isso significa o descumprimento da meta de inflação para 2017, que é de 4,5%, com tolerância de 1,5 ponto percentual para cima e para baixo. Se isso se confirmar, o Banco Central (BC) terá descumprido seu dever de manter a inflação na meta. Nesse caso, Ilan Goldfajn, presidente do BC, deve enviar uma carta aberta a Henrique Meirelles, explicando o caso. “Será a primeira vez que o BC poderá ter de explicar uma inflação baixa demais”, diz Patricia Pereira, gestora de Renda Fixa da Mongeral Aegon Investimentos.

Segundo Patricia, o percentual abaixo do combinado não é uma notícia para ser muito comemorada. “A inflação não está baixa virtuosamente”, diz ela. Em sua avaliação, os preços de dois itens importantes dos índices, alimentos e combustíveis, estão caindo, e isso força os percentuais para baixo. Além disso, o nível de atividade reduzido e o desemprego elevado impedem repasses de aumento de custos para o preço final. Há uma notícia boa, porém: o BC foi eficiente em convencer os agentes econômicos que a inflação vai permanecer sob controle. Com o feio nome técnico de ancoragem de expectativas, esse convencimento faz com que empresas de todos os tamanhos sejam mais otimistas em seu planejamento.

“Ao esperar uma inflação menor, as empresas calculam reajustes menores, o que faz com que a inflação convirja para abaixo da meta”, diz ela. Nicola Tingas, economista da Acrefi, associação das empresas de financiamento, avalia que esse processo deve manter os juros em uma trajetória descendente. Segundo ele, ao baixar a taxa Selic em um ponto percentual na quarta-feira 26, reduzindo-a para 9,25% ao ano, o BC cristalizou uma convicção no mercado de que as taxas vão continuar caindo. “A nota que o BC divulgou é clara”, diz Tingas. “Há uma grande probabilidade de os juros fecharem 2017 a 8% ao ano, ou até menos.”